<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024</id><updated>2012-02-15T04:13:22.371-08:00</updated><title type='text'>TEMPO ESQUECIDO...CONTOS</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>62</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-6894091426743889358</id><published>2007-03-30T08:46:00.001-07:00</published><updated>2007-03-30T08:46:33.378-07:00</updated><title type='text'>DEZ CONTOS SECOS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;IR&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O automóvel passou. Como o tempo. Não posso vê-lo mais, já não me lembro. Só ficou um pouco do tom pálido, algo da sensação de passagem. A outro lugar. Só ir, a cada centímetro das horas, só mover-me, só agora, automaticamente. Gesto sem fim, o fim à espera. Não há como chegar ao destino, cumpri-lo, por mais que o tempo ande, por mais que eu passe ao largo das pedras. Ou as chute. Uma delas fará o passo seguinte parar de vir. Só vejo a ida, não me lembro onde será o instante, instante do andado: o que estará escrito.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;ASSIM&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Foi assim que aconteceu. Não adianta mais. Já era. Mas era assim que, no fundo, queria. Um e outro queríamos. Foi quando o fado trouxe-nos o que não pedimos, consciente de nossa oculta vontade. Talvez se atendam os não-pedidos, quando são silêncios nascidos do desejo, fatídico.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;SEU&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Tome. É seu. Você o fez, é seu por direito. Não me quero de volta.&lt;br /&gt;Fico logo ali à esquerda.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;FIO&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Creio. Quero crer. Preciso crer. Não creio em outra saída senão crer: sou, não por um mero pensamento, ente abstrato que ecoa no vago, volátil como uma bolha, no limite da inexistência; nem pela fala alada, que soa, alça vôo e some. Enquanto grafo, este rastro negro conduz o fio da meada que me tece: invólucro abarcando o oco, velha bola de ar. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;COR&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ficara só o amarelo. Quase-cena distante, apenas a memória clara. Primeira vez, primeira luz, primeira sensação, a primeira cor. Viva na idéia: amar. Diferente de todas que existem, um elo comigo mesmo, ainda. Verso do mundo, diferente de todas que se vêem todos os dias. Estas se apagam com a idade, fundem-se na diversidade infinda.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;ACONTECE&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Pena. Mas não adianta chorar o choro derramado. Não foi um acidente, e os não-acidentes acontecem. É o que seria, e pronto: apenas o resultado de uma vida desprovida de prodígios.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;NO FUNDO&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Enfim tudo está claro. Então é assim. Todos sabiam, menos eu. Não, no fundo eu sabia.&lt;br /&gt;Já não sei mais.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;MORTE NATURAL&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Aí, então, morreu o Assunto. Morreu por si, sem que houvesse qualquer intenção de matá-lo. Morreu de velhice, por secar-se, definhar, exaurir-se. Em seu lugar nasceram Silêncio e Silêncio, gêmeos, reencarnações do extinto, com chances díspares ofertadas pelo mundo.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;FEIJÃO COM ARROZ&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Um, dois. Dois gemidos. Um após outro. Desencontrados e últimos, igualados a zero.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;NADA&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Foi-se, folha levada pelo vento. Era tempo. Passou como quem não veio, uma imagem vaga sem freio, um vulto que a pupila não fixa, liso como o rio, peixe a favor da corrente.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Foi-se sem atrito, sem deixar vestígio, nem o vento frio. Passou a folha, passou o vento, o desvario. Era o momento, a falha, é o momento vazio.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* &lt;br /&gt;Marcelo Tápia &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-6894091426743889358?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/6894091426743889358/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=6894091426743889358' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6894091426743889358'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6894091426743889358'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/dez-contos-secos.html' title='DEZ CONTOS SECOS'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-8710040282006507902</id><published>2007-03-30T08:44:00.001-07:00</published><updated>2007-03-30T08:44:44.408-07:00</updated><title type='text'>AO MUNDO DAS MÁSCARAS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Ficar muda, enterrada sob lençóis. Múmia seca no sarcófago como lagarta encapsulada no casulo. Queria não descerrassem as cortinas, ainda não! Não abrissem. Olhos com remela sob pálpebras isolados do mundo solar. Que o jato de luz não jorre, janela, não abra a tumba. Dentro, musgo nas pálpebras, larvas entre dedos, mastigando unhas, pêlos, ossos. Fique, fique, fique, murmuram, enlouquecidas, agarrando pés, mãos. A luta, acordar, a luta, espada do cavaleiro solitário, liames decepados entrelaçados a troncos crescidos em desespero na selva, bromélias, bananeiras, figueiras travando o espetáculo luminoso. Lá fora, escapamentos, buzinas, apitos, engates, blasfêmias. Cavaleiro sem cavalo guerreia contra cipós selvagens, barbas de bode. A espada abre caminho, porta mágica: o despertador zune.&lt;br /&gt;Deslizou o sabonete no corpo. Bom sentir o corpo. Avó Michiko não sentia mais. Ameixa chupada entre pétalas de crisântemos e sempre-vivas, máscara no jardim. Tão rápido. De manhã: sabe que está muito mal? Vôo para São Paulo, à noite, último desejo: Posso cantar? Claro. Primeiros acordes duma canção japonesa, dois suspiros, depois morreu. Lembrava a máscara, camélia desmaiada.&lt;br /&gt;A água escorreu pelo corpo, sensação de vida. Mistério, morrer. Não tinha tempo pra filosofia, marcou encontro com uma amiga que vinha de Belo Horizonte. Devia ter cancelado, enfim um dia como outro. A vida continua.&lt;br /&gt;Amigas há tempos, moraram juntas. Grete casou, mudou pra Minas. Durante anos mantiveram contato por telefone, carta. O fim das afinidades e a falta de convivência regular fez o relacionamento murchar até reduzir-se a um cartão no fim do ano. Surpresa quando ligou dizendo que vinha passar uns dias em Curitiba, queria encontrá-la.&lt;br /&gt;Pensou em levar uma lembrança. Ela gostava de coisas de brechó. Passaria na loja do China. Sempre passava ali a caminho do trabalho. O chinês era um velho imigrado de Hong Kong nos anos 60. No brechó tinha tudo: gramofone, relógio de corrente, jaquetas e medalhas, bonecas de biscuit, louça em miniatura, castiçais de prata. Tudo cheirando naftalina.&lt;br /&gt;Gostou da boneca de biscuit. Ponta do nariz lascada, mas o cabelo de seda natural e o vestido de organza em ordem. Conversou com China, que, como de hábito, queria empurrar mais trastes. Ao sair, sentiu um botoque na cabeça. Ai! A carranca despencou do teto. Não quebrou nada, né?, perguntou o chinês, referindo-se à carranca. Ajudou-a a levantar-se sorrindo. Olhou a carranca de expressão furiosa. A bocarra com dentes cerrados. Espanta maus espíritos, explicou o chinês.&lt;br /&gt;A confusão a fez atrasar. Grete esperava, ansiosa, robusta e alegre.Abraçaram-se, beijaram-se, falaram. Conversaram sobre as novidades, mas havia um entrave. Olhar de soslaio, pernas descruzando impacientes, mãos gesticulando. O que a trazia de volta? Contou que mãe não estava bem de saúde. Não sabe porquê, não comentou a morte da avó.&lt;br /&gt;Na despedida, o presente. Esqueceu no banco de trás do carro. Grete asurpreendeu com um pacote. Abra, vai gostar. Reconheceu o papel depresente: a carranca. Confusa um minuto, olhou a amiga, riu. Sabia que ia gostar. Despediram-se.&lt;br /&gt;Ao voltar para o carro jogou no banco de passageiro a máscara feia. Por que ela me deu isto ?, pensou, irritada. No banco de trás a boneca sorria, sem graça.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Marília Kubota&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-8710040282006507902?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/8710040282006507902/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=8710040282006507902' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/8710040282006507902'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/8710040282006507902'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/ao-mundo-das-mscaras_30.html' title='AO MUNDO DAS MÁSCARAS'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-1204184899892403417</id><published>2007-03-30T08:41:00.001-07:00</published><updated>2007-03-30T08:41:59.756-07:00</updated><title type='text'>UM PONTO SOBRE O OUTRO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Não, nenhuma palavra que dissesse ajudaria: Reva é mesmo um mistério, logo vi, quando Florine me disse: cuidado, ou melhor, quando disse: jamais compreendi Reva Frankton, eu pensei puxa, estou mesmo me sentindo diferente mesmo estou mesmo me sentindo desta vez mesmo é assim que estou mesmo me sentindo: um amontoado de dúvidas: Reva é com certeza um mistério e só existiram duas pessoas com este perfil na minha vida: Kade e Lebrec só esses dois elementos essas duas outras oportunidades me causaram tal sensação de estranhamento aquele desconforto com as cenas: mistério, mas não pelo mesmo motivo: Kade é um apanhado de silêncios, de incomunicáveis e Lebrec, bem a história de Lebrec se resume no seguinte: ausência, ausência foi a palavra dita por Herlinda para definir aquele momento em que olhamos para uma pessoa que compôs uma sequência de dias das nossas vidas (e não só sequência: também fatias quero dizer) e percebemos finalmente: nada existiu ou melhor: nada existe e então você pode me acusar de estar sob influência de Lindy mas isto não é verdade eu posso lhe provar: Koci me conhece e sempre sustentou que eu tenho entendimento de montanhas, de cremes, de brancos, de não, de espelhos, de sempre, de um qualquer descuidado, de qualquer pausa, de qualquer pequeno vento insistindo sobre o tecido enfim Koci com certeza diria: tem sim ou, se Koci não usasse palavras assim tão objetivas, tão diretas, tenho certeza que se faria entender mesmo que as sentenças caracteristicamente fossem indistintas e embaralhadas uma vez que Koci é o próprio embaralhamento, convenhamos, mas não é mistério, mistério está aqui: Reva, Reva Frankton é: mistério absoluto: Florine disse e isto não é novidade para mim: eu já vivi algo parecido com Kade e ainda isso: eu já vivi algo parecido com Lebrec (quando revelou seu verdadeiro nome: Nie) todos esses fatos devem ser meticulosamente considerados eu quero, em outras palavras, esclarecer: toda vez que alguém entra na sua vida pode acontecer isto mas temos que apontar que o contrário: o contrário também acontece: o mistério pode estar no momento em que alguém sai, quero dizer: sai da sua vida, sai levando um pedaço, foi o que disse Hal: sai levando um pedaço que não se conhecia: Leb fez isso, Kade fez, e Reva está fazendo porque Reva é só isso: um mistério e no fim parece ser apenas e portanto isto: um pão que manifesta um envelhecimento, que está condenado a ser esquecido já que o dia está quente, está terrivelmente quente e neste mercado do bairro os pequenos pontos verdes podem ser vistos, os pequeníssimos pontos de bolor já se instalaram ali no pão e este pequeno exemplo ilustrativo é exatamente como: Reva e não adiantará Ryther me telefonar dizendo: esqueça, que você bem sabe que Ryther Stroy está se tornando especialista em dizer: esqueça isto, pelo menos foi o que me disse quando Hal desapareceu, quando Tamra desapareceu, quando Yem perdeu-se no mapa, quando Herlinda deu tanta corda no relógio que aquele objeto recusou-se e finalmente quando toquei no assunto: Reva é um sofisticado mistério uma vez que a virtude dos pêssegos é serem imediatos e as únicas palavras que neste momento poderiam me ajudar a compreender este tipo de pilha de cartas de baralho viradas sobre a mesa que é o meu peito agora são as seguintes:&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Luci Collin&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-1204184899892403417?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/1204184899892403417/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=1204184899892403417' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/1204184899892403417'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/1204184899892403417'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/um-ponto-sobre-o-outro_30.html' title='UM PONTO SOBRE O OUTRO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-3948812940283094531</id><published>2007-03-30T08:36:00.000-07:00</published><updated>2007-03-30T08:40:15.218-07:00</updated><title type='text'>A NINFA ECO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Eu era ninfa infa do séquito quito da deusa eusa Juno uno. E apreciava ava contar tar a ela ela longas ongas histórias órias. Mas um dia ia, irada ada com as infidelidades ades de Júpiter úpiter, a deusa eusa, não tendo endo a quem culpar ar, julgou ou que eu eu o protegia ia, divertindo indo indo a ela ela, que se descuidava ava, enquanto anto o deus eus do Olimpo impo a traía ía. Pensou ou que ele ele mantinha inha um conluio uio comigo igo. Malvada ada, sequer er procurou curou averiguar ar se era real al o que em juízo ízo ela imaginava ava. Acabou ou com minha inha alegria ia e castigou-me ou-me com uma maldição ão. Condenou-me ou-me a falar ar apenas enas quando ando me interrogassem assem e ainda inda assim sim respondendo endo só com as últimas timas sílabas labas a mim dirigidas idas. Matou-me ou-me o gosto pelos elos bosques osques cerrados ados, onde onde vaguei ei durante ante anos anos, infeliz iz, ouvindo indo apenas enas a doce oce voz oz das melíades líades que embalavam avam crianças anças abandonadas nadas furtivamente ente nos ramos amos das árvores vores. Uma tarde arde a felicidade ade renasceu eu em mim im, quando ando vi o belo elo Narciso iso passeando ando pelo elo desfiladeiro eiro, descabelando ando a copa opa dos carvalhos alhos, que se moviam iam para ara vê-lo ê-lo caminhar nhar displicente ente. Apaixonei-me ei-me por seus eus cabelos elos de sol ol encaracolados lados e seu eu semblante ante de perfeição ão inigualável ável. Segui-o i-o por muitas uitas manhãs nhãs, ferida ida de amor or, mas sem a ele ele me declarar ar. Num um bosque osque nas as adjacências ências de Téspias pias, ele ele costumava ava se mirar ar por horas oras às margens gens de uma fonte onte onte. Aproximei-me ei-me para ara me me declarar clarar, mas eu eu nada ada podia ia dizer er senão ão o que ele ele me dizia ia. Recordei ei minha inha desgraça aça; eu jamais mais poderia ia confessar ar meu amor or, porque que as minhas inhas palavras avras seriam iam sempre empre as que ele ele enunciasse asse. Ao me flagrar ar contemplando-o ando-o, virou-se ou-se furioso oso me perguntando ando quem em eu eu era era. E eu lhe respondi ondi quem em eu eu era era. Rindo indo, o que o tornava ava mais belo elo, os cachos achos da cabeleira eira fulva ulva luzindo indo, Narciso iso zombou ou com desdém ém que me queimou mou a alma alma. Nada ada me consolaria ia senão não me refugiar iar no nevoeiro eiro das trevas evas, nos antros tros, nos rochedos edos, nas pedras edras das cavernas ernas e cumprir ir meu fado ado amargo argo, minha miserável ável sina ina de repetir ir. Justo usto eu eu que adorava ava contar tar histórias órias pelo elo puro uro prazer de ser er ouvida ida.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;João Carrascoza&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-3948812940283094531?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/3948812940283094531/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=3948812940283094531' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3948812940283094531'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3948812940283094531'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/ninfa-eco_30.html' title='A NINFA ECO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-6960269679979109749</id><published>2007-03-22T08:12:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T08:13:55.159-07:00</updated><title type='text'>SOBRADO DE LÚCIFER</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;  Com um líquido que seria letal para qualquer ser humano, somente com isso, a moça se alimentava. Nunca ninguém conseguiu entender qual o fenômeno ou anomalia genética que a tornava tão resistente àquela misteriosa poção, criada e produzida por ela mesma. Uma mistura de acetona com ervas compradas de duvidosos vendedores itinerantes do centro mais sujo da cidade. A fórmula exata, nunca se soube. Talvez nem a própria inventora.&lt;br /&gt;O fato é que ela resolveu viver apenas em casa, saindo só para comprar as ervas, e sempre dopada por seu alimento, que tinha efeito psicológico pelo menos cento e oitenta vezes mais forte do que o absinto ou qualquer bebida que ainda viesse a existir.&lt;br /&gt;Ela não fazia nada. Não comia nada. Não gastava dinheiro com nada. Nem mesmo com roupas, pois tinha um vestido longo vermelho de lantejoulas, que jamais era lavado. Traje de puta mesmo, comprado num brechó do mesmo centro mais sujo da cidade. Sua mãe, dona Andrósia, senhora tão distinta e amorosa, aceitava a filha. Diferente das duas irmãs, que tratavam a moça como um animal indesejável, um sapo idoso no canto do jardim, embora invejassem sua liberdade. Afinal, ela jamais se preocuparia com empregos ou namorados.&lt;br /&gt;Nunca se soube o motivo da decisão de adotar este bizarro estilo de vida. Não, nenhuma desilusão amorosa. Nenhum trauma psicológico ou neurológico, nenhum acidente. Parece que ela simplesmente começou a achar tudo normal demais e passou a ser assim. O cabelo era um espetáculo à parte. Um verdadeiro zoológico freak , um pequeno umbral. Dreadlocks involuntários foram aparecendo, já que água, os fios não viam nunca. Pelo meio dos rolos, foram se formando ninhos de bichos jamais antes vistos pelo ser humano. Criaturas simplesmente indescritíveis. Além do mofo. A mãe dizia, com uma mistura de reverência e medo: -Acho que aí moram até demônios. É o Castelo de Lúcifer-. Mas a filha contestou: -Se o Demônio tivesse casa não seria um castelo, mas um sobrado antigo, com um belo jardim de árvores secas e fogo, situado na rua mais pecadora do mundo.- Foi daí que surgiu seu nome definitivo e oficialmente aceito pelos hitoriadores: Sobrado de Lúcifer. E Sobrado, como uma bêbada daquelas lúcidas, que falam a perturbadora verdade, certamente era um transtorno. A última vez que dona Andrósia havia recebido visitas, Sobrado apareceu na sala, de repente, estranhíssima figura, mandando os convidados embora. Disse que simplesmente não agüentava mais aquela gente lá, gente de energia negativa e mentalidade ínfima. Desta vez, a mãe falou: -Ai, filhinha, que vergonha! -Puta, mas que merda! Vergonha devia ter você, de trazer esse povo menor aqui, eles me deixaram com bodão. Não gostei. E a mãe recolheu a louça e foi triste para a cozinha, concordando com a filha. As visitas saíram se benzendo e correram tanto com o carro que bateram feio num poste. Houve ferimentos, mas continuaram correndo mesmo assim, a pé. Um desespero. Só queriam sair de perto daquela casa. –Cruzes-, diziam sem parar. E parece que até hoje o casal só consegue repetir esta palavra: Cruzes.&lt;br /&gt;Sobrado, que apesar de sincera tinha bom coração, ficou com pena da mãe. Não pelo que tinha feito, mas por aquela senhora tão generosa e boa sentir-se na obrigação de receber lixo humano em casa. -E nem elogiaram a comida dela-, pensou. Nunca se soube também como a fama de Sobrado começou a se espalhar pelo mundo. Houve boatos que um admirador secreto conseguiu espioná-la, tirando fotos, apurando informações e montou um site na internet. E assim, o impossível aconteceu. Surgiram dois pretendentes.&lt;br /&gt;Um deles, Wolf era um alemão famoso no underground mundial por ter ficado dependurado pela pele, por vários ganchos, durante meses em Berlim, num lugar obscuro, mistura de bar, templo e clube sadomasoquista. Sua pele parecia uma lona de circo velha e flácida, seqüela do estranho emprego que tinha na Alemanha. Ele trabalhava nisso para se aproximar das esferas mais profundas, obscuras, sangüíneas do mundo visível e invisível. Para ele, Sobrado seria a mulher perfeita, aquela que trazia o umbral na cabeleira. O outro foi Fausto, um assassino que havia se especializado em construir ikebanas com órgãos e pedaços de corpos humanos. A polícia internacional sempre ficava impressionada com a delicadeza e o bom-gosto de seus arranjos, como também pela habilidade dele em não ser pego. Um artista especializou-se em fotografar estas obras, organizando exposições tidas pelos críticos mais implacáveis dos jornais do mundo todo como arte de altíssima qualidade. Isso transformou Fausto em dono de imensa fortuna. Wolf e Fausto chegaram à casa da moça coincidentemente juntos, para horror do bairro inteiro. Foi nesse momento que uma das irmãs morreu do coração, com apenas vinte e sete anos de idade. Como sempre, a única a aceitar foi dona Andrósia, comovida pela paixão dos dois rapazes. -Afinal, parecem pessoas respeitáveis, não duvido que sejam bons moços, gente de bem- disse ela para Sobrado, que começava a gostar da idéia da união. Sobrado casou-se com os dois, numa cerimônia simples no jardim da casa, decorada com rosas vermelhas, douradas e negras. Por uma infeliz coincidência, a outra irmã embarcava na ambulância do hospício neste mesmo momento. Foi uma pena que não pudesse compartilhar da alegria dos noivos e da noiva, que ainda comentou:&lt;br /&gt;- Coitada, não comeu nenhum docinho... - Ficaram os quatro morando na casa.&lt;br /&gt;Fausto fez lindíssimos trabalhos com os corpos de todos os inimigos da mãe de Sobrado.&lt;br /&gt;-Nunca matei alguém que prestasse- dizia.&lt;br /&gt;Ganhou mais dinheiro ainda. E Wolf parou de fazer seus shows para produzir bolos decorativos sob encomenda, já que com a noiva estava próximo das profundezas do ser, vivendo com a mulher mais selvagem que já existiu. Seus bolos ficaram famosos, cheios de flores, frufrus, anjinhos esculpidos em açúcar, flores de biscuit e toda sorte de adereços românticos. Afinal, clima de romance e conforto era o que não faltava naquele lar onde, de verdade, existia o amor. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Greta Benitez&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-6960269679979109749?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/6960269679979109749/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=6960269679979109749' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6960269679979109749'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6960269679979109749'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/sobrado-de-lcifer.html' title='SOBRADO DE LÚCIFER'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-8897690483864148692</id><published>2007-03-22T08:11:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T08:12:28.240-07:00</updated><title type='text'>FILHINHO DE PEIXES</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Vendo assim não tem quem diga.Menino como ele, calmo como ele, educado como ele fazer o que fez. Cadê sua sensibilidade à flor? Onde socou? Ele que sempre foi a própria flor. &lt;br /&gt;Delicado e cheio de amor. Típico pisciano, romântico. Nunca fez maldade à mosca. Nunca assassinou uma formiga. Pobrezinho do passarinho, coitadinha da lagartixa.Nunca atirou a primeira pedra. Ou a última. Nunca se envolveu em briga, baixaria do tipo: assim, agora, eu não lembraria.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A pessoa mais amiga e mais compreensiva. Que Deus pôs na terra.Dos frutos bons que Deus pôs na terra, acredito. Lembro como se fosse agora, como se fosse hoje o seu nascimento. Dia 20 de &lt;br /&gt;março, há 19 anos. A família reunida e o médico dizendo: é um menino bonito e grande. Cheio de saúde para todo o sempre. Para todo o sempre.Do signo de Peixes. Porra, nunca lembrávamos o ascendente. Alguém sabe o seu ascendente? O problema talvez tenha sido o seu ascendente. Por que não pensei nisso antes?O ascendente.Há quem diga que Peixes é o "Sanatório do Zodíaco". Vai ver que é isso. Que outra explicação há para o acontecido? Nesta madrugada, cena tão horripilante. Não eram dele aqueles olhos, não eram. Tem certeza que foi ele mesmo? Não houve engano? A polícia é sempre do contra, não respeita quem vive no mundo da lua. A polícia sempre acusa a primeira alma fraca que encontra, é isso. Não tem sentido.Logo ele que sempre estudou na melhor escola. No melhor de tudo. No melhor do melhor. Condições sempre teve de viajar pelo Brasil e pelo mundo. Fala fluentemente, fluentemente.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Tudo que é língua. How are you, mother? I love my mother.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mammy.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Menino cheio de ternura, um capetinha azul. A coisa mais linda correndo pela casa, bagunçando os móveis, pedalando as plantas. Que maravilhoso futuro o aguardava. Nada parecido com esse futuro, agora.  Que horas são essas? Que horas? Minha cabeça anda tonta. Tudo é um sonho, um sonho. Um pesadelo de mau gosto. Ele nunca foi um menino assim, bruto. Assim, desumano. Deselegante. Desamável, inculto. Muito pelo contrário: ouvia Beethoven, tocava piano. Nunca gostou de rock. Nunca pôs um cigarro na boca, bebida, droga de maconha.  Sempre pedia à mesa suco de morango. E um canudo. Consumia um litro de água por dia. Cuidava da saúde. Sempre dizia: “O corpo é a casa do espírito. E a casa sempre precisa estar arrumada e limpa e protegida”.  Bem protegida.Amigo e companheiro como ele não havia. Gostava também de poesia. Vivia recitando coisas pelo jardim. No computador ainda pisca um verso assim: “Eu nasci assim capim”. E eu achava aquele verso engraçado.  Enfim. Dizia também que o Brasil era um país sem cultura. Sem cultura. Ele ajudava a cultura. Não entendia tanta gente no olho da rua. Ajudava a filantropia. Quantas vezes saiu para dar aula no subúrbio? Adorava os pobres. Pelos pobres era capaz de fazer tudo.  &lt;br /&gt;Tudo.Não quero pensar nisso. Os pobres estragaram o menino, quem sabe? Alguém pôs um mau caminho no seu caminho.&lt;br /&gt; Não, não acredito. É impossível. Fazer o que ele fez, deve ter sido a conjugação dos planetas, o movimento da maré. Alguma nuvem mal que se aproximou do seu signo. A lua crescente, minguante. A força dos planetas, algum desastre no céu de março. Mercúrio e Plutão em quadratura.  Não sei onde li isso. De repente, a gente vai lembrando de coisa muito maluca.  O ascendente dele é Câncer.Lembrei: é Câncer.Ouço a chegada da viatura. Outros tiros pela casa. Outros tiros pela casa.O estardalhaço que a imprensa vai fazer do caso. O povo à rua querendoqueimá-lo vivo.Saiam já da minha porta. Da minha porta. Não deixarei que façam isso. É tudo mentira. Não existe sangue. Não estou morrendo, o mundo não está morrendo, ninguém está morrendo. Estamos todos bem.  Amém.Venha e abrace sua mãe, hã, hein? Fique calmo, fique tranqüilo. Este inferno é só um inferno astral.&lt;br /&gt;Meu filho.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;por Marcelino Freire&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-8897690483864148692?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/8897690483864148692/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=8897690483864148692' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/8897690483864148692'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/8897690483864148692'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/filhinho-de-peixes.html' title='FILHINHO DE PEIXES'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-6380299109075551231</id><published>2007-03-22T08:10:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T08:11:37.549-07:00</updated><title type='text'>UM PONTO SOBRE O OUTRO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Não, nenhuma palavra que dissesse ajudaria: Reva é mesmo um mistério, logo vi, quando Florine me disse: cuidado, ou melhor, quando disse: jamais compreendi Reva Frankton, eu pensei puxa, estou mesmo me sentindo diferente mesmo estou mesmo me sentindo desta vez mesmo é assim que estou mesmo me sentindo: um amontoado de dúvidas: Reva é com certeza um mistério e só existiram duas pessoas com este perfil na minha vida: Kade e Lebrec só esses dois elementos essas duas outras oportunidades me causaram tal sensação de estranhamento aquele desconforto com as cenas: mistério, mas não pelo mesmo motivo: Kade é um apanhado de silêncios, de incomunicáveis e Lebrec, bem a história de Lebrec se resume no seguinte: ausência, ausência foi a palavra dita por Herlinda para definir aquele momento em que olhamos para uma pessoa que compôs uma sequência de dias das nossas vidas (e não só sequência: também fatias quero dizer) e percebemos finalmente: nada existiu ou melhor: nada existe e então você pode me acusar de estar sob influência de Lindy mas isto não é verdade eu posso lhe provar: Koci me conhece e sempre sustentou que eu tenho entendimento de montanhas, de cremes, de brancos, de não, de espelhos, de sempre, de um qualquer descuidado, de qualquer pausa, de qualquer pequeno vento insistindo sobre o tecido enfim Koci com certeza diria: tem sim ou, se Koci não usasse palavras assim tão objetivas, tão diretas, tenho certeza que se faria entender mesmo que as sentenças caracteristicamente fossem indistintas e embaralhadas uma vez que Koci é o próprio embaralhamento, convenhamos, mas não é mistério, mistério está aqui: Reva, Reva Frankton é: mistério absoluto: Florine disse e isto não é novidade para mim: eu já vivi algo parecido com Kade e ainda isso: eu já vivi algo parecido com Lebrec (quando revelou seu verdadeiro nome: Nie) todos esses fatos devem ser meticulosamente considerados eu quero, em outras palavras, esclarecer: toda vez que alguém entra na sua vida pode acontecer isto mas temos que apontar que o contrário: o contrário também acontece: o mistério pode estar no momento em que alguém sai, quero dizer: sai da sua vida, sai levando um pedaço, foi o que disse Hal: sai levando um pedaço que não se conhecia: Leb fez isso, Kade fez, e Reva está fazendo porque Reva é só isso: um mistério e no fim parece ser apenas e portanto isto: um pão que manifesta um envelhecimento, que está condenado a ser esquecido já que o dia está quente, está terrivelmente quente e neste mercado do bairro os pequenos pontos verdes podem ser vistos, os pequeníssimos pontos de bolor já se instalaram ali no pão e este pequeno exemplo ilustrativo é exatamente como: Reva e não adiantará Ryther me telefonar dizendo: esqueça, que você bem sabe que Ryther Stroy está se tornando especialista em dizer: esqueça isto, pelo menos foi o que me disse quando Hal desapareceu, quando Tamra desapareceu, quando Yem perdeu-se no mapa, quando Herlinda deu tanta corda no relógio que aquele objeto recusou-se e finalmente quando toquei no assunto: Reva é um sofisticado mistério uma vez que a virtude dos pêssegos é serem imediatos e as únicas palavras que neste momento poderiam me ajudar a compreender este tipo de pilha de cartas de baralho viradas sobre a mesa que é o meu peito agora são as seguintes:&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Luci Collin&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-6380299109075551231?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/6380299109075551231/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=6380299109075551231' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6380299109075551231'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6380299109075551231'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/um-ponto-sobre-o-outro.html' title='UM PONTO SOBRE O OUTRO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-1360033942507944489</id><published>2007-03-22T08:09:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T08:10:32.269-07:00</updated><title type='text'>A NINFA ECO</title><content type='html'>&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Eu era ninfa infa do séquito quito da deusa eusa Juno uno. E apreciava ava contar tar a ela ela longas ongas histórias órias. Mas um dia ia, irada ada com as infidelidades ades de Júpiter úpiter, a deusa eusa, não tendo endo a quem culpar ar, julgou ou que eu eu o protegia ia, divertindo indo indo a ela ela, que se descuidava ava, enquanto anto o deus eus do Olimpo impo a traía ía. Pensou ou que ele ele mantinha inha um conluio uio comigo igo. Malvada ada, sequer er procurou curou averiguar ar se era real al o que em juízo ízo ela imaginava ava. Acabou ou com minha inha alegria ia e castigou-me ou-me com uma maldição ão. Condenou-me ou-me a falar ar apenas enas quando ando me interrogassem assem e ainda inda assim sim respondendo endo só com as últimas timas sílabas labas a mim dirigidas idas. Matou-me ou-me o gosto pelos elos bosques osques cerrados ados, onde onde vaguei ei durante ante anos anos, infeliz iz, ouvindo indo apenas enas a doce oce voz oz das melíades líades que embalavam avam crianças anças abandonadas nadas furtivamente ente nos ramos amos das árvores vores. Uma tarde arde a felicidade ade renasceu eu em mim im, quando ando vi o belo elo Narciso iso passeando ando pelo elo desfiladeiro eiro, descabelando ando a copa opa dos carvalhos alhos, que se moviam iam para ara vê-lo ê-lo caminhar nhar displicente ente. Apaixonei-me ei-me por seus eus cabelos elos de sol ol encaracolados lados e seu eu semblante ante de perfeição ão inigualável ável. Segui-o i-o por muitas uitas manhãs nhãs, ferida ida de amor or, mas sem a ele ele me declarar ar. Num um bosque osque nas as adjacências ências de Téspias pias, ele ele costumava ava se mirar ar por horas oras às margens gens de uma fonte onte onte. Aproximei-me ei-me para ara me me declarar clarar, mas eu eu nada ada podia ia dizer er senão ão o que ele ele me dizia ia. Recordei ei minha inha desgraça aça; eu jamais mais poderia ia confessar ar meu amor or, porque que as minhas inhas palavras avras seriam iam sempre empre as que ele ele enunciasse asse. Ao me flagrar ar contemplando-o ando-o, virou-se ou-se furioso oso me perguntando ando quem em eu eu era era. E eu lhe respondi ondi quem em eu eu era era. Rindo indo, o que o tornava ava mais belo elo, os cachos achos da cabeleira eira fulva ulva luzindo indo, Narciso iso zombou ou com desdém ém que me queimou mou a alma alma. Nada ada me consolaria ia senão não me refugiar iar no nevoeiro eiro das trevas evas, nos antros tros, nos rochedos edos, nas pedras edras das cavernas ernas e cumprir ir meu fado ado amargo argo, minha miserável ável sina ina de repetir ir. Justo usto eu eu que adorava ava contar tar histórias órias pelo elo puro uro prazer de ser er ouvida ida.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;por João Anzanello Carrascoza&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-1360033942507944489?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/1360033942507944489/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=1360033942507944489' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/1360033942507944489'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/1360033942507944489'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/ninfa-eco.html' title='A NINFA ECO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-3806950747648371526</id><published>2007-03-22T08:08:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T08:09:24.648-07:00</updated><title type='text'>O HOMEM DA CICATRIZ</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;De dia, escrever, tomar cafezinhos, ler jornais no McDonald's. De noite, beber Jack Daniel's, comer chocolates ou cus, ler um livro sobre o surrealismo francês e pensar como ficaria seu corpo lá embaixo estatelado no asfalto, chapado de maconha. De dia, no PC, escrever mensagens, mandar cerca de trinta e-mails das 9 às 6, contando coisas pessoais, extremamente pessoais, ouvindo isso de outras pessoas, tratando de assuntos pseudamente profissionais, pedindo coisas, favores, retribuindo, oferecendo favores e gentilezas, quase sempre muito gentil, mesmo, e tudo enquanto trabalha, ou seja, o que é trabalhar? Quase não fazer nada, conversa fiada transubstanciada em memorandos, anotações, idéias, resenhas sobre fatos alheios e reuniões em que se finge um interesse inviável pelo que diz o chefe, passeando pelos corredores vazios da firma assuntos como futebol ou guerra, elogiando ou metendo o pau, dissimulando intrigas e mexericos, comentando as bundas das mulheres, e, se der sorte, numa hora de almoço perdida no tempo, foder aquela assistente gostosinha [desesperado estupro da noite no dia]; de noite, ou muito devagar ou muito muito rápido, no Mac, tentar escrever, num simulacro de diário, sua vida reinventada, criando mentiras aos amigos, rindo falso no telefone, comendo coisas estranhas e quase sempre mulheres estranhas, estranhas que de repente ficam bem naturais, essas mulheres de mil anáguas e calcinhas e aí nuas nuas nuas de dizer até mesmo eu te amo. O dia rasurado por signos conhecidos, a rotina equacionada pra não dar errado nunca. Nunca o sinal se abrir lento demais, nunca o carro da frente demorar, nunca chover pra caralho ou fazer sol além do bastante, nunca falar com o mendigo no semáforo, nunca cometer imprudências ou desperdiçar bons-dias, esconder-se, profundamente de si esconder-se, no cansaço do sono, na pedra do sonho, lavrando a certeza de que amanhã sim, amanhã talvez. E todo dia, entre madrugada e manhã, a cicatriz cada vez mais aberta e funda, entre crepúsculo e lua formulários agonizam, secretárias se ocultam nas casas dos maridos, assistentes viram um porre, vais pra puta que pariu que morreram amargos no âmago da garganta, e então a sede, a sede da noite, porém junto um arrependimento, de sensação de lixo, suor grosso expulso dos poros, expulso do dia, e então exilado, insulado. [Mas mais preciso. Pois a cada despertar, outro delírio abortado.] Um dia, ligar o foda-se. Um dia, a noite plena. O sol que se dane. A cicatriz, o próprio sol. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Vila Madalena [SP], outono, 1999&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Ronaldo Bressane&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-3806950747648371526?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/3806950747648371526/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=3806950747648371526' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3806950747648371526'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3806950747648371526'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/o-homem-da-cicatriz.html' title='O HOMEM DA CICATRIZ'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-609968055332345176</id><published>2007-03-22T08:06:00.002-07:00</published><updated>2007-03-22T08:08:16.935-07:00</updated><title type='text'>É O CARALHO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Era de noite, chovia, dentro do ônibus, olhando pra fora, em Copacabana. Tinha visto um filme do Buñuel e nem sabia que era do Buñuel, nem sabia que havia o Buñuel. Gostou das duas atrizes que faziam o personagem feminino principal. Estava apaixonado por elas.&lt;br /&gt;Em casa, explicou quem era o Buñuel.&lt;br /&gt;Não se importou que tivesse matado aula para ver o filme do Buñuel.&lt;br /&gt;Era pra ver qualquer filme, não o do Buñuel especificamente. Deu sorte com o diretor e eram muito lindas mesmo, muito charmosas mesmo, que fazem ficar apaixonado. Podiam ensinar tudo e dar muito carinho e ser mães e ser namoradas amantes professoras.&lt;br /&gt;Iam começar as férias, amanhã. Ia voltar para a cidade pequena, onde sonhava voltar um dia fazendo parte do elenco de uma novela igual Dancing Days. Tinha uma que gostava e gostava de teatro e ainda queriam ser atores e escrever teatro e participar das novelas.&lt;br /&gt;Queria viver as histórias de amor das novelas, com a Lídia Brondi e não chorava. Se fosse adulto, choraria.&lt;br /&gt;Teve alguns amigos que participaram de novelas iguais Dancing Days.&lt;br /&gt;Hoje, e foram protagonistas e beijaram, na boca, mulheres que posaram nuas para a Playboy.&lt;br /&gt;Fizeram sexo com mulheres que saíram nuas na Playboy. Fizeram sexo até com mulheres que a Playboy ofereceu uma fortuna para saírem nuas na Playboy, mas não precisam e recusaram.&lt;br /&gt;Até trabalhou na Globo muito depois daquele dia de chuva e apareceu em alguns programas de televisão. Saiu na revista.&lt;br /&gt;Falaram mal, apontaram defeitos.&lt;br /&gt;Elogiaram muito e foi ficando muito importante. Talvez o melhor seria ter parado.&lt;br /&gt;Foi ficando figurinha fácil.&lt;br /&gt;Sentiu o envelhecimento.&lt;br /&gt;Tem quase 40 anos.&lt;br /&gt;Pensou se poderiam, ou deviam, tomar conta, não deixassem que nada de ruim pudesse acontecer.&lt;br /&gt;Acontecem coisas ruins. Aconteceu.&lt;br /&gt;Não levaram isso em conta e deram umas porradinhas. Não eram amigos, não conhecem, têm que trabalhar, na sexta-feira, de noite, vão para um bar que tem jornalistas e tem artistas. Não pode beber. Bebem e não pensam que tem sofrimento. Sofrendo.&lt;br /&gt;Um dia, pareceu que tinha morrido.&lt;br /&gt;Era muito sensível. No colégio, sentia muito essa sensibilidade.&lt;br /&gt;Não apareceu na Globo. Todo mundo ia ver e iam lembrar lá naquela cidade. Gostaria.&lt;br /&gt;Saiu na Veja. Aí todo mundo reparou.&lt;br /&gt;Gostava de ver o Glauber Rocha fazendo discurso lá no Posto 9.&lt;br /&gt;Sente saudade.&lt;br /&gt;Naquela época daquele dia, de noite, que chovia, olhando pela janela do ônibus: não era amigo de ninguém, no colégio, no Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;Demorou uns 2 anos pra ser chamado pras festas e ficar apaixonado pelas meninas que nunca ia namorar. Andava muito com o pai.&lt;br /&gt;Fazia teatro e ninguém conhecia o Glauber Rocha. Domingo, depois do Fla X Flu, teve o programa com o Glauber Rocha. Ficou entusiasmado.&lt;br /&gt;Ficou parecido com o Glauber Rocha. Tentava.&lt;br /&gt;Abriu um buraco no joelho e foi parar num hospital e não precisou costurar.&lt;br /&gt;De noite, indo para a cidade pequena. Morou na cidade pequena. Tinha o bar, de noite, com o primo. Tocavam jazz. Queria tocar bateria. Tocava bongô em cima do disco do Milton Nascimento - Minas, Geraes.&lt;br /&gt;Depois, não gostava mais do Milton Nascimento.&lt;br /&gt;Fica emocionado quando houve música do Lulu Santos, do Cazuza. Até da Blitz.&lt;br /&gt;Achava que o rock nacional tinha roubado o espaço do Arrigo, do Itamar Assunção. Foi no Circo Voador, no Rio de Janeiro, no Arpoador, falava mal. Viajou com o Circo Voador. Suado, de noite, olhando pela janela do ônibus, faziam teatro dentro do ônibus, tocavam suas músicas, as músicas, daquela noite, do joelho machucado, mancando, com o primo e hoje acha que o Cazuza era um cara legal. O Cazuza foi na viagem do Circo Voador, Nordeste, não foi de ônibus, foi de avião, mandaram sair do time. O Evandro Mesquita entrou no lugar. Não gostava da Blitz. Gostava de ir a São Paulo, na Treze de Maio, no Carbono 14. Tinha grandes amigos, daquela cidade pequena, em São Paulo.&lt;br /&gt;Ficou esquizofrênico, nunca aparece, teve dois filhos, casou de novo, nunca telefona, não deve ser tão amigo. Ficou bem em Genebra, toca guitarra, já deve ter cabelos brancos, fumava uns baseados, não vê há 3 anos. Tem saudade. Acho que era viado. Não era viado, mas comia viado, de noite, naquela cidade pequena, ficavam olhando pra lua, tinha o cachorro, era meio putinha, mordia os mamilos, tinha 12 anos, falava que tinha 15.&lt;br /&gt;Hoje, não faz diferença. Eram amigos. Era do Rio Grande do Norte. Lembrava quando estava no Rio Grande do Norte. (Forma, o caralho.) Nunca mais viu.&lt;br /&gt;Está com dificuldade com os olhos. Assistiu o filme com a história do Marcelo Rubens Paiva, tinha a Malu Mader. Foi bem pior. Tem medo de ir descobrindo aos poucos. Ficou emocionado quando reencontrou o Chacal. O pai gostava do Chacal. Gostava do Chacal, no colégio, no grupo de teatro, lia os poemas do Chacal: Papo de Índio e um do sapato na festa que pedia para parar de dançar. Foi em São Luis do Maranhão. Conheceu o Chacal, conversava, chamou para tocar. Tomou um ácido. Tomava qualquer coisa.&lt;br /&gt;Será que pode tomar um ácido?&lt;br /&gt;Foi bom, começou a fumar maconha. Fumava com a atriz, namorada. Era uma mãe, uma irmã. A viu no aeroporto. Estava trabalhando na Globo. Era o primeiro dia. Ano do Dragão. Falavam muito bem nas revistas. Acabou o tempo ruim. Não conhecia ninguém nas filas do cinema, em São Paulo. O telefone não tocou nem uma vez. No Rio, depois, começou a conhecer todo mundo: o Chacal.&lt;br /&gt;Tinha o Asdrúbal, antes tinha surf, antes da cidade pequena, os primos, a Regina Casé, Camaleoa, Camaleão do Chacal, encontrou quando estava saindo da Globo, não teve problema, depois, naquele bar, em Brasília, estava bem, morando no hotel, de noite, depois tinha trabalhado com a Regina Casé, na Globo, de noite, voltando pra casa e sente uma saudade, não era que era feliz, acabaram os anos do Dragão.&lt;br /&gt;Receitou anti-depressivo, pensava se um dia ficaria deprimido, era pra cima, ficou deprimido quando veio para São Paulo, tem saudade porque depois tudo foi ficando bom. Não via. Não eram depressões fortes. Podia ficar muito mais deprimido. Um vencedor.&lt;br /&gt;Queria transar, namorar, ficou com medo. Podia. Gostam dos diferentes. A amiga foi em casa, queria. Tinha medo.&lt;br /&gt;Ficou tão bêbado com a camisa do Lula. Saiu do Maracanã com a camisa do Lula. Ganhou a camisa do Félix.&lt;br /&gt;Não davam bola. As mães não queriam que namorassem. Sabia. Gostou dela.&lt;br /&gt;Tocaram juntos. Brigavam muito, meio inimigos. Depois, bem amigos. Foram abandonados pelas namoradas. Aquele sentimento. Tocavam nos bares. Deu bola, gostou. Trocaria a outra por essa. Foram para São Paulo, até tocou com o Hermeto Paschoal. Gostou dele, gostava de homens femininos. Acha que era gente fina. De noite, segunda-feira não tocavam, viam vídeos, não devia ter passado, passou os Blues Brothers, teriam mudado tudo se fizesse sexo, apaixonado, foi adolescente, dava pra qualquer um que pagasse um jantar, levou pra Nova York, disse que os europeus são bonitos naquela performance. Era pra ela. Era pra sacanear.&lt;br /&gt;Foi muito bom. Se acabasse. Teria sido uma boa vida. Ia virar mito. Ia virar mito? Acha o Torquato Neto auto-artista. Tem um problema com suicidas. A mesma sensação daquela música com letra do Torquato Neto, das três da madrugada. Nada. Sentia arrepios. Está vivo, como o Pelé gritou. Chorou.&lt;br /&gt;Canta a música com letra do Torquato Neto, aquela sensação, quando voltou, uma noite qualquer, táxi, Túnel Rebouças, descobrindo tudo, não foi no show da Gal, foi no show do Beto Guedes, falava mal do Beto Guedes. Era simpático, falava baixinho, sente quando ouve o Beto Guedes, por causa daquelas noites, mesmo se não chovia, mas uma coisa com a noite, a chuva, o Rio de Janeiro, o Macalé, o Guima. Sente uma emoção. Ouviu o Itamar Assunção, ficou muito emocionado, viu mais novo, gostava muito do Itamar Assunção, descobriu o disco do Itamar Assunção na saída do Teatro Ipanema. Foi outro dia, quase chorando, emocionado mesmo, gosta dele, sentia isso, estava bêbado, queria falar pro Arrigo, mudou sua vida, parece com o Arrigo, engordou, estavam meio pra baixo, sem dinheiro, sabia que isso ia acontecer, com eles, não com ele. Não esperava. Tudo muito diferente. Observador, dependeu dos outros, vai sozinho ao outro lado da rua, agora.&lt;br /&gt;Leu na internet, uma banda igual a do Arrigo. Seria o Arrigo. Uma banda igual a dos Beatles. Era muito mais criança ainda. Sentado na motocicleta, na garupa, abraçada, sentia as coxas, filava o jantar quando tinha batata palha, muito antes, chamaram para jogar bombinhas no corredor, lia Dico, o Artilheiro, usava uma roupa preta toda colada no corpo, as coxas, dormia com ela, era apaixonado, ficava apaixonado toda hora, a filha mais nova dos Robinson, era muito criança, sonhou com um filho.&lt;br /&gt;Sabia que ia ser assim, se acontecer de novo, não vai perceber, está sempre acontecendo. Estavam esperando, não está mais começando, não vai virar mito. Não dá pra inventar toda hora. O que deve ser ser dos Beatles? O George Harrison, pensa no Itamar Assunção, lembra da Alzira, naquela noite, tão relaxado com as mulheres, nadou nu no mar. Perguntou quem era. Foram à praia, à cachoeira, deu um passe de calcanhar, jogou muito bem, brigou com o amigo, falou no telefone, outro dia, uma saudade, do amigo, fazendo coisas muito bacanas, conseguiu ficar músico, andando pela calçada, em Copacabana. Ficou lá deitado na banheira de hidromassagem, podia continuar pra sempre, eterno, tudo, inventando de novo.&lt;br /&gt;Literatura, o caralho.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por André Sant'Anna&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-609968055332345176?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/609968055332345176/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=609968055332345176' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/609968055332345176'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/609968055332345176'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/o-caralho.html' title='É O CARALHO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-7407755854336932897</id><published>2007-03-22T08:06:00.001-07:00</published><updated>2007-03-22T08:06:51.534-07:00</updated><title type='text'>AO MUNDO DAS MÁSCARAS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Ficar muda, enterrada sob lençóis. Múmia seca no sarcófago como lagarta encapsulada no casulo. Queria não descerrassem as cortinas, ainda não! Não abrissem. Olhos com remela sob pálpebras isolados do mundo solar. Que o jato de luz não jorre, janela, não abra a tumba. Dentro, musgo nas pálpebras, larvas entre dedos, mastigando unhas, pêlos, ossos. Fique, fique, fique, murmuram, enlouquecidas, agarrando pés, mãos. A luta, acordar, a luta, espada do cavaleiro solitário, liames decepados entrelaçados a troncos crescidos em desespero na selva, bromélias, bananeiras, figueiras travando o espetáculo luminoso. Lá fora, escapamentos, buzinas, apitos, engates, blasfêmias. Cavaleiro sem cavalo guerreia contra cipós selvagens, barbas de bode. A espada abre caminho, porta mágica: o despertador zune.&lt;br /&gt;Deslizou o sabonete no corpo. Bom sentir o corpo. Avó Michiko não sentia mais. Ameixa chupada entre pétalas de crisântemos e sempre-vivas, máscara no jardim. Tão rápido. De manhã: sabe que está muito mal? Vôo para São Paulo, à noite, último desejo: Posso cantar? Claro. Primeiros acordes duma canção japonesa, dois suspiros, depois morreu. Lembrava a máscara, camélia desmaiada.&lt;br /&gt;A água escorreu pelo corpo, sensação de vida. Mistério, morrer. Não tinha tempo pra filosofia, marcou encontro com uma amiga que vinha de Belo Horizonte. Devia ter cancelado, enfim um dia como outro. A vida continua.&lt;br /&gt;Amigas há tempos, moraram juntas. Grete casou, mudou pra Minas. Durante anos mantiveram contato por telefone, carta. O fim das afinidades e a falta de convivência regular fez o relacionamento murchar até reduzir-se a um cartão no fim do ano. Surpresa quando ligou dizendo que vinha passar uns dias em Curitiba, queria encontrá-la.&lt;br /&gt;Pensou em levar uma lembrança. Ela gostava de coisas de brechó. Passaria na loja do China. Sempre passava ali a caminho do trabalho. O chinês era um velho imigrado de Hong Kong nos anos 60. No brechó tinha tudo: gramofone, relógio de corrente, jaquetas e medalhas, bonecas de biscuit, louça em miniatura, castiçais de prata. Tudo cheirando naftalina.&lt;br /&gt;Gostou da boneca de biscuit. Ponta do nariz lascada, mas o cabelo de seda natural e o vestido de organza em ordem. Conversou com China, que, como de hábito, queria empurrar mais trastes. Ao sair, sentiu um botoque na cabeça. Ai! A carranca despencou do teto. Não quebrou nada, né?, perguntou o chinês, referindo-se à carranca. Ajudou-a a levantar-se sorrindo. Olhou a carranca de expressão furiosa. A bocarra com dentes cerrados. Espanta maus espíritos, explicou o chinês.&lt;br /&gt;A confusão a fez atrasar. Grete esperava, ansiosa, robusta e alegre.Abraçaram-se, beijaram-se, falaram. Conversaram sobre as novidades, mas havia um entrave. Olhar de soslaio, pernas descruzando impacientes, mãos gesticulando. O que a trazia de volta? Contou que mãe não estava bem de saúde. Não sabe porquê, não comentou a morte da avó.&lt;br /&gt;Na despedida, o presente. Esqueceu no banco de trás do carro. Grete asurpreendeu com um pacote. Abra, vai gostar. Reconheceu o papel depresente: a carranca. Confusa um minuto, olhou a amiga, riu. Sabia que ia gostar. Despediram-se.&lt;br /&gt;Ao voltar para o carro jogou no banco de passageiro a máscara feia. Por que ela me deu isto ?, pensou, irritada. No banco de trás a boneca sorria, sem graça.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Marília Kubota&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-7407755854336932897?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/7407755854336932897/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=7407755854336932897' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7407755854336932897'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7407755854336932897'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/ao-mundo-das-mscaras.html' title='AO MUNDO DAS MÁSCARAS'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-2684603319235863212</id><published>2007-03-22T08:03:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T08:05:56.523-07:00</updated><title type='text'>UMA BREVE HISTÓRIA DA PINTURA MODERNA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;UMA BREVE HISTÓRIA DA PINTURA MODERNA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Primeira versão&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;O jato insiste em correr pela vidraça, livrando-a de todo tipo de sujeira contida na manhã nascente: fiapos, asas de coleópteros, o pó falido da noite vencida pelo sol contrito.&lt;br /&gt;A parte externa já rebrilha graças à ação da água cristalina. Por algum tempo, à janela é devolvida a condição de visibilidade ampla, assim como às árvores, por ela vistas, as de borrões pintados, e às colinas distantes, por ela devassáveis, de objetos moldados.&lt;br /&gt;As nuvens voltam a ter um aspecto gráfico, ao menos até que o conflito entre o puro e o impuro, outra vez protelado para o dia seguinte, volte a fazer sentido.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;UMA BREVE HISTÓRIA DA PINTURA MODERNA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Segunda versão&lt;br /&gt;a Mark Tansey&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Trata-se de um retângulo de concreto armado, estrategicamente posto à frente de algo. É preciso haver um motivo para derrubá-lo e esse motivo não tardará a aparecer para alguém. É claro que, sem um domínio completo da situação, esse alguém encostará a cabeça em sua tessitura pardacenta, passando, então, a fazer força.&lt;br /&gt;Das duas uma: ou a pressão psicológica reduzirá a cabeça a um amontoado de pedaços - sem trazer luz alguma ao ritual - ou, obscurecido pelo descaso e pela impossibilidade a priori da tentativa -, o sujeito sairá de cena, levando consigo sua crença numa presença ou em 'algum lugar lá fora' tridimensional.&lt;br /&gt;De qualquer modo, o retângulo de concreto armado ficará ali, estrategicamente posto à frente de algo, desafiando quem estiver disposto a pagar por ele. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;UMA BREVE HISTÓRIA DA PINTURA MODERNA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Terceira versão&lt;br /&gt;a Mark Tansey&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Sob hipótese alguma, o animal poderá ser responsabilizado. A galinha é também um ser que observa. Principalmente quando pressente que algo demanda que assim o faça. Reconstituamos a cena: uma pequena rampa, e, ao fundo, alteado por uma caixa de madeira, um espelho oblongo. Pelo caminho, espalhados - apenas para garantir que a experiência seja bem-sucedida - alguns grãos de milho servirão de engodo. Bicando-os ou não, ela subirá a rampa, pois, ali, na posição em que se encontra, descer é um ato impossível.&lt;br /&gt;Cedo esbarrará com o seu próprio reflexo. Após segundos de embaraço, paralisar-se-á, atiçando a imaginação. Mas, então, 'pensará' o que? Que se trata, talvez, de um pôster afixado, pelos granjeiros, em sua homenagem? Transportar-se-á, no caso, para algum lugar fora do espaço-tempo, de certo modo, 'raciocinando' sobre as intenções da experiência? Ou, o que é provável, tudo aquilo lhe parecerá estúpido demais, de modo que, adiante, descendo a rampa, sumirá num matagal - que tampouco possuirá mistérios - apenas por não ter opção?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por  Jorge Lúcio de Campos&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-2684603319235863212?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/2684603319235863212/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=2684603319235863212' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2684603319235863212'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2684603319235863212'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/uma-breve-histria-da-pintura-moderna.html' title='UMA BREVE HISTÓRIA DA PINTURA MODERNA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-7570890024452020124</id><published>2007-03-22T08:01:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T08:03:52.224-07:00</updated><title type='text'>TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; Capítulo I&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;br /&gt;Engoli um chip ontem. Danei-me a falar sobre o sistema que me cerca. Havia um eletrodo em minha testa, não sei se engoli o eletrodo também junto com o chip. Os cavalos estavam galopando. Menos o cavalo-marinho que nadava no aquário. Ele tem um problema mental. Será que tem alguma seqüela? No fundo deste meu mundo, lá no quarto escurecido por doses de Litrisan, veio um psiquiatra e baionetou uma química na minha celha esquerda. Enquanto outro puxava a minha banha, esticando e esticando para que não sentisse a injeção de Bezetacil.&lt;br /&gt;Bezeta.&lt;br /&gt;Bezeta.&lt;br /&gt;Uma dor na bunda imensa. Tudo girando ao meu redor e eu girando também. Tiro uma meleca e coloco na mesa do canto, bem longe da escuridão no quarto. A escuridão é acética. Só o pessoal de branco pode freqüentar aquela linha impura. Seguram-me de novo. Recebo o beijo de minha mãe. Deve ser dia de visita. Acordo e como uma lasca de goiabada com o sanduíche de atum que mamãe trouxe para mim. Escuto uma música tão alta que não entro nos meus pensamentos e estou fora, agora a cocaína não vai chegar. A conexão foi interrompida.&lt;br /&gt;Mal mamãe chega, mal mamãe vai.&lt;br /&gt;- Ele continua achando que engoliu um chip.&lt;br /&gt;Ela diz que tudo começou há uns dez anos quando eu achei que havia engolido um grilo.&lt;br /&gt;- Quantos grilos você me fez engolir, filho.&lt;br /&gt;Minha mãe disse isso afagando meus lábios e me dando um beijo na bochecha. Por alguns segundos me lembrei de algo que havia acontecido no dia anterior. Eu havia quebrado toda a casa com uma fúria gigantesca. Nunca mais tomo Haldol na minha vida.&lt;br /&gt;Foi por você não ter tomado o Haldol que você ficou assim, diz o chip. E eu começo a falar: "Só no Anhambi é tupi. Só no Anhambi é tupi."&lt;br /&gt;O engolidor de espadas engole uma nesga de fogo por vez. Tá todo mundo engolindo alguma coisa neste exato momento. É hora do jantar. Mamãe se foi. A música volta a me colocar fora de mim.&lt;br /&gt;Entro no quarto. Tiro o pau pra fora e começo a bater uma punheta. Dança da motinha. Dança da motinha. Eu engoli um grilo quando tinha meus 15 anos de idade. Foi a primeira vez que devia conviver comigo mais intensamente. Salvei uma casa do cupim maldito que queria destruir. Eram cupins gigantes. Tenho certeza de que salvei aquela casa. Tenho certeza de que por alguns segundos fui Jesus Cristo.&lt;br /&gt;Ainda continuo na jaula. A minha boca está fechada com uma bocarra. Meus pés estão presos.&lt;br /&gt;A música sai de mim e volta, não posso causar mal nenhum a não ser a mim mesmo. Tudo começou com um grilo. Havia um grilo naquele primeiro dia. Havia um gene também. Da mesma forma não, mas de uma outra forma. Estou engolindo tudo, o tempo todo. No canto escuro do quarto, que é onde só vão os ratos. Sou podre. Porco. Imundo. Sou selvagem.&lt;br /&gt;"Quantos grilos você fez eu engolir, filho."&lt;br /&gt;Olho o jornal e não consigo ler nada. As doses devem estar altas. Porque eu não fiz nem quarenta anos e não consigo ler de perto. Arregaço as mangas da camisa e vou jogar sinuca com o Ruy Chapéu do lugar, que é um gari da Comlurb internado por utilizar em demasiado a bebida até em horas de trabalho. Antes, uma crente para a gente faz uma roda e manda que alguém reze. Ninguém ali sabe rezar porra nenhuma. São todas almas sem paraíso à vista. Eu começo: "Pai nosso que estais no céu..." Pelo menos eu sei rezar. A crente disse aleluia. Ela segurou a minha mão. Eu tirei o pau pra fora e num pude jogar sinuca. Voltei para o cubículo três por quatro onde me colocaram para sorrir com baionetadas nas veias. Segura a banha e estica a banha, e toma mais injeção.&lt;br /&gt;Tudo começou quando engoli um grilo em São João da Barra. Eu tinha 15 anos de idade. Estava indo ou voltando. Sempre estava indo ou voltando. Só parava pra voar. Assim eram meus 15 anos, e foi como tudo começou. Nenhuma mulher saiu de mim nunca. Fui eu sempre que entrei em minha mãe. E lá estava ela bela e bonita, transando com papai. E eu vi, e era apenas mil novecentos e setenta. Não foi um trauma. Eu costumava andar com um cachorro azul de pelúcia. Meu cachorro não era gay por ser azul. Só era azul. Também não tinha as noções de feminino e masculino naquela idade, ou tinha. Na verdade eu já me masturbava, e papai com muito jeito pedia para que eu tirasse a mão do meu pinto. Lembro-me de uma psiquiatra nos meus verdes 15 anos que me dizia que eu era homem porque me masturbava, não tinha porque ter crise de identidade. Eu não tinha crise de identidade porque eu vivia correndo atrás daquela mulher no horário da sessão. Ela chegou a me ameaçar, dizendo para o meu pai que se eu continuasse a querer agarrá-la eu teria que sair da análise. Ela falou que não agüentava dar conta de mim e reclamou porque eu não fazia um desenho, não brincava com uma massinha. Eu imitava um golfinho deitado no divã. Meu pau ficava duro e eu friccionava o tempo todo enquanto o golfinho nadava dentro de mim.&lt;br /&gt;Uma vez, virei uma planta por uma hora de sessão. A mulher pensou que eu estava em estado catatônico. Ela ficou nervosa. Foi a mesma coisa que fiz com uma namorada, e ela teve a mesma reação. Fiquei sem falar e parado. Como se tivesse engolido uma baleia. Durante esta uma hora, a baleia que estava dentro, estava fora, e eu vivi preso dentro de um manicômio. Os manicômios são lugares muito bonitos. São lugares com muitas flores e muito arborizados. Não fiquei num lugar cinco estrelas, também não fiquei no pior lugar, mas vi muita coisa quando Alfonso me dizia que ia para Paracambi. Paracambi é aqui.&lt;br /&gt;Tudo era um pouco ficar calado o tempo todo como se ninguém merecesse que você falasse algo nobre e importante.&lt;br /&gt;O que todas aquelas pessoas de branco tinham a ver com o fato de eu estar vomitando sangue? Me levaram para o Miguel Couto. Pensaram que eu estava com tuberculose. O Miguel Couto era o hospital referência para casos de dengue. Havia uma epidemia de dengue na cidade. Havia muitos hipopótamos deitados. Algumas tartarugas andando de quatro rodas. Passei pela porta do hospício. Quis me levantar e fugir. O pior: fugir pra onde? Quem iria acreditar na idéia de que estava com um chip implantado dentro de mim. Havia tanta gente que se o Maracanã em dia de jogo do Flamengo estivesse ali não seria nenhum eufemismo.&lt;br /&gt;Botaram tubos em mim e começaram a fazer sucção. Fui abduzido por extraterrestres.&lt;br /&gt;Eu via uma luz passando pelo meu corpo de menino de cinco anos e segurei meu cachorro azul. Desmaiei por alguns segundos. Depois Fronsky estava lá:&lt;br /&gt;- Voltaremos para te buscar quando você tiver 18 anos.&lt;br /&gt;Macas por todo o campo. Com gente com soro andando. Tubos saindo da boca de seqüelados. Tudo ali era Acneton. Da minha veia, tiraram o meu sangue. Eu agora estava indo tirar uma chapa torácica. Como que um cara gordo como eu pode estar com algum problema que não seja obesidade? Eu deveria estar num spa, e não no Miguel Couto com aquela crise de dengue. Uma samambaia começou a crescer do meu lado feito um pé de feijão. Eu fui subindo as escadas ancorado por dois médicos fortes e gordos como eu. Havia toda aquela gente pobre, superpobre: aquele era o Brasil. Uma zona total. Gente caída no chão. Gente chegando morta. Gente morrendo. Uma fileira de corpos caídos com argolas de etiqueta nos pés. Todos munidos de seus prontuários. E aqueles médicos tão jovens, que não sabem muito mais do que eu sei de biologia, fazendo gozação com a sua cara. "Olha que cara gordo!" "Que homem gordo!" "Que baleia!" Um dia completei um triatlo e terminei entre os primeiros da minha categoria. Estou gordo agora e dormindo como no dia do triatlo. Vivo sedado e cheio de doses altas de remédio na veia. Tudo para ser invadido por uma música, tudo pra manter a boa ordem do estado. Somos a minoria, mas pelo menos falo o que quero.&lt;br /&gt;O bom do cachorro azul era que ele não crescia e não morria. O negócio era eu cuidar para que ele não envelhecesse. Poxa, no ano 2000 vou ter 35 anos. Vou estar tão velho que mal sabia que estaria velho mesmo. Eu escovava a pelúcia do bicho. O cão azul era a minha companhia para todas as horas. E se o cão azul existisse. Seria do grande caralho ter um cão azul. Será que se ele tivesse um filho nasceria azul também. Se ele pudesse latir e pudesse comer, o que comeria um cão azul? Ia ter que tomar alimento e remédios de sua cor. Muitos remédios são azuis, dentre eles o Aldol. Eu tomo Aldol para não ter nenhuma ilusão de que morrerei um dia louco, num lugar sujo e sem comida. É o fim de qualquer louco. Uma oligofrênica, dos seus setenta anos, uniformizada, surge diante dos meus olhos e me dá um beijo na boca. Vejo estrelas cor de rosa. Elefantes carregando Rimbaud na África. Verlaine comendo sua mulher, mas pensando em Rimbaud. Eu estou pensando em Nastassja Kinski e em seus seios pequeninos em flor. Eu estou no lado escuro e mal posso me mover, mas dá para eu me masturbar muito devagarinho. Eu gozo e minha mão fica toda branca, tomada de sêmen. Minha mão vira uma luva branca. Eu acordo às cinco horas da manhã com o esporro colossal de um enfermeiro. Durmo mal. Acordo mal. Não sei qual dos dois pesadelos é o pior: acordado ou dormindo. Saio da jaula. Já estou na jaula há um bom tempo. Quando me tirarão de lá e me deixarão ficar com os outros. Entro na fila para tomar um café da manhã. É um café com leite que tem mais água do que leite e um pão com uma passada de manteiga na ida. Eu pago para estar neste lugar, mas só a ida da faca no pão não está nos custos. Hoje eu acordei querendo dizer coisas bonitas. Aproveitei um pouco de tempo que me deixaram livre do lado de fora e apanhei uma flor no jardim. Levei a flor para o quartinho. O enfermeiro encrencou com a flor. Deu-me um esporro.&lt;br /&gt;- Você virou veadinho? Que coisa horrorosa é esta. Gordo e veado.&lt;br /&gt;- Eu só queria ver algo colorido aqui do fundo.&lt;br /&gt;Vou comunicar esta sua vontade a um psiquiatra e ele falará com você. Eu aqui sou só o enfermeiro. Cuido de vocês, os enfermos. Meu cachorro azul não tinha nome. Nada que eu gosto tem nome. Tudo que é perigoso tem nome. O nome não é dado para diferenciá-lo. Senão nenhum nome seria igual. O nome é dado para você se igualar ou ser diferenciado dos outros. Ele voa. Ele anda em aeronaves. Ele é o meu cachorro azul. Tem outra coisa boa em relação aos cachorros de pelo e osso: ele não faz cocô e nem xixi pela casa. Tudo que tenho é o meu cachorro azul. Há muito tempo que eu não brincava com ele. Até quebrar tudo lá em casa. Tava um tempão sem olhar pro meu amigo. Sem passar uma escova nele. E se em vez de cachorro fosse um elefante de verdade meu bicho de estimação? Imagina a quantidade de merda que iria ficar no meu quarto. Ia dormir na merda. Mas pelo menos ia ter uma ducha mais forte do que a lá de casa para tomar banho. Com a tromba ele poderia me molhar todinho. Um elefante domesticado incomoda muita gente. E se eu tivesse dois. Seria um sonho. Eu ia incomodar meio mundo. Ia fumar uns baseados dentro do elefante e soltar pela tromba. Porque estes bichos todos sou eu. Menos o cachorro azul. O cão azul é da cor do Aldol. É meu amigo.&lt;br /&gt;- Você quer ver algo mais colorido?&lt;br /&gt;- Quero.&lt;br /&gt;- O que você quer ver?&lt;br /&gt;- O Sol.&lt;br /&gt;Amanhã iremos à praia e jogaremos bola e devoraremos as joaninhas e afogaremos os tatuís. Vamos viajar para Ibicuí na casa de amigos que serão amigos pela vida toda. Eu tinha um amigo que estava com Aids, mas o cara foi forte e agüentou, e eu tenho que agüentar esta porra toda.&lt;br /&gt;Nós só fazemos eletrochoque com sedação. O doente não sente nada. Quem sabe levando uns choquinhos ele volte ao normal. Quem sabe tudo volta ao normal. Vivo com uma velha de noventa anos. Eu gosto dela. Mas ela defeca em tudo. É lambona para caralho. Mas eu gosto da velha. Um dia a velha danou-se a comer isopor e plástico. Passou mal e teve que ser internada. Enfermeira! Um grito lancinante vindo do âmago de um dos internos. Por que não internam as mulheres junto com os homens? Será que ia virar uma confusão sexual geral? Acho que louco não tem tempo de pensar em sexo. Alguns são vistos parados e se bulindo. Mas isso ocorre mais nas ruas. Estou sem o meu cachorro azul aqui, estou despido do que sou. Na prática não sou ninguém. Não adianta eu gritar socorro. Aqui todos estão sendo levados a algum lugar pior. E o inferno não é o pior dos lugares.&lt;br /&gt;Meu pai aparece num dos dias de visita. Foi ele que me internou, mas eu não tenho ódio no coração. Eu gosto deste homem. Ele me dá um beijo e pergunta "como cê tá meu filho?". Eu digo que quero sair da gaiola. Ele diz que sairei quando estiver melhor. Movimento-me em sua direção e dou um beijo em sua face. Será o beijo de Judas? Será que trairei meu pai em minha loucura. E se agora viessem dois homens e me crucificassem e me colocassem de cabeça para baixo. Será que a cruz ia agüentar a banha toda?&lt;br /&gt;Antes da minha internação maior, já havia sido internado outra vez, e outra vez tinha ficado na gaiolinha. Minha mãe me mentiu dizendo que eu havia ficado na ala melhor daquela clinica. Não, havia estado no Carandiru. No pior lugar da clínica. Lá onde ficavam os casos sem solução. Mas eu achava que tinha solução. Apenas algumas pessoas estavam me perseguindo, e se essas pessoas resolvessem dar uma festa para mim naquele dia. Naquele dia em que a chuva abundava foi internado o Temível Louco. Temível Louco, quando pequeno tinha atitudes psicopáticas. Já havia matado muita gente, segundo rezava a lenda. Temível Louco me deu um beijo na face direita e deu duas voltas em volta de mim, disse que seria meu amigo. Isso foi na minha última internação. Não sei se lembra de mim.&lt;br /&gt;Era hora do almoço e estavam todos os loucos na fila quando chegou o Temível Louco, que cuspia onde queria, urinava onde queria, defecava onde queria, peitava os enfermeiros, e só não era líder porque louco tá cada um na sua nóia. Louco não pensa na coletividade.&lt;br /&gt;Eu tinha uma paranóia muito louca. Uma espécie de compulsão. Toda a vez que me davam três remédios, eu tinha de tomar o quarto. Eu enchia tanto o saco que me davam quatro logo. Se tomasse três, coisas horríveis podiam acontecer.&lt;br /&gt;O Temível Louco começou a comer tudo que via. Mordeu a falangeta de um outro louco. Foi repreendido por enfermeiros. Todos os enfermeiros eram gordos. Os que não eram gordos eram fortes.&lt;br /&gt;Eu sempre dava um cigarro para um louco que no almoço dava cabeçada nas paredes. Imagina se esse doido fosse jogador de futebol. A cabeçada dele ia ser poderosa. Acostumado a cabecear paredes, ele ia estourar as bolas de futebol por onde andasse jogando. Quem sabe a seleção brasileira não iria convocá-lo?&lt;br /&gt;- Toma um cigarro. Fuma o cigarro todo. Vê se não dá mais cabeçada na parede.&lt;br /&gt;Eu já estava tomando tanto remédio que estava com aquela baba elástica bovina e viscosa, como dizia o escritor.&lt;br /&gt;Depois do almoço eu contava as estrelas do céu e não via nenhuma. Depois do almoço eu defecava no banheiro aquela comida ruim. Não havia nenhum interno que agradecia por aquela comida com uma boa oração. Por que o cara é louco tem que comer o pior, com lasca de goiabada? A única coisa boa era a lasca de goiabada. Era o tipo de goiabada cascão que grudava no dente. Os loucos comiam. Minha mãe, toda vez que vinha me visitar, me mandava tomar um banho. Eu tomava um banho onde os outros tomavam. Era um lugar limpo, mas que tinha de ser limpo toda hora. A cada minuto vinha um louco e cagava no chão e deixava a merda toda lá. Imagina se houvesse um louco que fosse uma pomba. Ia sair voando e defecando por aí. Não ia ter mais careca de vovô, vidro de carro, chapéu ou boné sem merda incrustada. Mas loucos não voam, fazem sua merda parados mesmo e às vezes se lambuzam todos.&lt;br /&gt;Minha mãe me trazia o sanduíche de atum que eu devorava como se fosse filé mignon. Eu tinha saudade de casa.&lt;br /&gt;- Mãe, quando eu vou sair daqui? Vou sair pior do que entrei?&lt;br /&gt;Se ameaçar a gente fica mais tempo. Por que você só fica na penumbra deste cubículo.&lt;br /&gt;Um dia vinha minha mãe e no outro vinha o meu pai. Parecia que eles tinham a consciência pesada por ter me internado.&lt;br /&gt;Eu quebrei a cristaleira.&lt;br /&gt;Eu quebrei os copos de vidro todos.&lt;br /&gt;Mas eu consegui livrar a casa dos maus espíritos.&lt;br /&gt;Lá vem a turma me ministrar as injeções. Eles puxam a banha e dão a Bezetacil.&lt;br /&gt;Bezeta.&lt;br /&gt;Bezeta.&lt;br /&gt;Eu quero uma Bezetacil. Bezetacil por conta de uma ferida que tenho na perna. Preciso perder 50 quilos. Uma enfermeira até disse que eu era bonitinho, mas precisava perder uns quilinhos. Eu podia fazer o programa da casa da banha. "Vou dançar o Cha cha cha... Casas da Banha." Era um porco. Suíno. Sujo. Não tinha noção do que era degradante. Mas um dia, sem dúvida, ia criar alguma espécie de biodegradado e ia limpar minhas impurezas e ficar limpinho. Limpo por fora. Por dentro estaria sempre com aquelas marcas que os animais deixam, das mordidas. Com os hematomas na alma. Estaria sempre me procurando e encontrando pedaços aqui e acolá. Temível Louco passou ao fundo. Ele já estava fora do cubículo dele.&lt;br /&gt;Quando vão me tirar daqui? Enfermeira!&lt;br /&gt;A primeira liberdade é sair do cubículo. A segunda liberdade é andar pelo hospício. A liberdade, só fora do hospício. Mas a liberdade mesmo não existe. Estou sempre esbarrando em alguém para ser livre. Se houvesse liberdade o mundo seria uma loucura com todo mundo. Eu podendo sair por aí com Rimbaud e Baudelaire. Viajando para Angra dos Reis.&lt;br /&gt;Rimbaud matou uma onça que circundava o meu corpo outro dia, de noite. Outro dia, de dia, comemos junto a gororoba do hospício. Eu e Rimbaud. Ele está internado devido a drogas. Ele manca um pouco. Deve ter seus quarenta anos. Cheguei a perguntar o porquê só escreveu tão pouco tempo. Ele me disse que detestava escrever. Eu gosto é de sentir o vento sobre os meus cabelos. Há brisas perigosas para um cara franzino como Rimbaud no hospício, mas ele é um cara safo, sabe se ver livre das adversidades. Logo estará recebendo alta.&lt;br /&gt;De volta ao cubículo e as injeções. Eles não confiam mais em mim. Só dão remédios via injeção. Acham que eu vou cuspir o remédio ou malocar em algum lugar. Que raiva tem de mim esses médicos. Vem cinco me segurar. Eu me debato como uma baleia. Mas depois eu fico quieto. Depois eu me aquieto. E quase não sinto devido ao tanto que puxam a banha. Eu quase nem sinto a dor das injeções.&lt;br /&gt;Abriu um belo arco-íris que só eu via através de uma janela ao longe, bem ao longe. Aquele dia eu chorei por estar sozinho. Chorei por não ter um emprego. Chorei por não ter uma mulher. Chorei por não ter filhos. Chorei por não ter uma família. Chorei por ter 37 anos de idade e viver ainda como um adolescente. Por que você está chorando Gordo? Eu choro pelos gordos do mundo, pelos que querem comer agora uma torta de maça ou um brigadeiro, mas não tem dinheiro para poder comprar todas as guloseimas do mundo. Eu mesmo choro por que queria te comer, ó filho da puta? Te comer assado. Ia fazer que nem os canibais e ia comer gente. Mas eu prefiro não ser tão doido e comer açúcar. Bomba de chocolate, mil-folhas, sorvete de flocos, cocada, pé-de-moleque. Ia virar a dona redonda e estourar de tão gordo.&lt;br /&gt;A única hora em que eu saía do cubículo era no horário das refeições. Mas tinha um enfermeiro que não tirava o olho da turma nenhum minuto. Imagino se eu fosse um funcionário do hospício. Deve ser muito difícil lidar com toda aquela clientela, com gente de todo tipo. Com caras da Zona Sul e com garis da Comlurb. Com velhinhos ergofrênicos e com procuradores-gerais da república senis. Os loucos mesmo devem ser os mais fáceis de serem cuidados. Todas as vezes eu desacreditava em Deus. Se havia um lugar como o hospício era sinal de que Deus não existia. Ou ele existia e não queria saber de quem estava dentro daquele pequeno inferno.&lt;br /&gt;Eu era criança ainda e estava no clube me divertindo na piscina quando vi uma criança pequena, menor do que eu, um recém-nascido, se afogando. Eu fiquei impactado pela cena e demorei a salvar a criança. Estava ali parado. Bobificado. Veio outro guri. Foi mais rápido, pegou a criança que se afogava e a tirou da piscina. Foi feita toda uma festa para o herói. Uma festa que era para mim. Eu fiquei quieto, no canto, percebi neste dia que uns nascem para ser heróis, outros nascem para serem seres comuns. Eu estava condenado a ser um ser comum. Jamais seria um super-homem.&lt;br /&gt;Eu voltava pro cubículo. De bom só a goiabada e a bundinha da enfermeira. Às vezes eu vou dormir e fico pensando na enfermeira de noite. Ia gozar só de botar meu corpo sobre o dela. Só de poder sentir sua carne sob a minha. A primeira vez que fiz sexo foi com um Javali. Seguraram o bicho pelas patas e falaram penetre. Eu penetrei meus quinze centímetros dentro do bicho e aí o soltaram. Eu gozava justamente porque o javali pulava e pulava. O cu do bicho era espinhoso. Doía meu pênis. Como doía meu pênis. Depois de muito tempo o bicho ficou cansado. Gozei seis vezes direto. Acendi um baseado e ele foi para outra esquina, e eu fiquei ali chapado. Eu usei muitas drogas na adolescência. Uma vez, quando tomei um chá de cogumelo, fui parar nas cisternas da casa batendo um papo filosófico com o meu eu. O pior é que eu encontrava resposta. Nem sabia que tinha um eu superior. Arriscava umas perguntas sobre o futuro e o eu me dizia tudo. Só que depois da ação do chá de cogumelo não me lembro de nada que eu disse.&lt;br /&gt;"Um papa Mike entrou armado."&lt;br /&gt;Eu ouvia os tiros da ação. Andava de um lado pro outro. Minha adrenalina aumentava na madrugada. A madrugada começava com aqueles tirambaços. Será que alguém estava ferido.&lt;br /&gt;- Ontem, mãe, deram tiros aqui dentro. Conta pra mim o que houve. Conta pra mim. Você sabe que eu sou curioso.&lt;br /&gt;- Se isso ocorresse eu te tiraria daqui na hora, meu caro. Você está aqui para melhorar. Parar de destruir a casa de mamãe e ponto.&lt;br /&gt;Na verdade tinham matado um cara lá dentro. Um policial militar atirou no outro com uma arma branca. Temível Louco estava envolvido.&lt;br /&gt;Todo dia antes de dormir eu rezava a ave-maria. Todo o dia eu pedia a Deus que me tirasse dali o mais rápido possível e que o mais rápido fosse o dia seguinte. Depois eu não acreditava nem em Deus e nem na ave Maria, mas eu rezava. Não custava nada rezar. Não pagava nada pedir. Algum crente num dia de domingo aparecia bem perto da minha cela e deixava um santinho. Eu olhava e lia quando as doses não eram altas e me deixavam ler, depois rasgava o folhetinho. Meu Deus! Os crentes estão ganhando o mundo. Até aqui eles vinham para angariar os fodidos. A religião virou uma sacanagem do caralho. Acho que sabiam que havia muitos alcoólatras lá dentro. A religião não é só o ópio do povo. Mas é o que mantém o povo feliz. Triste do povo que precisa da religião para se apoiar. É pior do que um louco que tem cura, mas precisará sempre de um apoio de outra pessoa para ser feliz. É melhor ser louco incurável.&lt;br /&gt;Temível Louco comia a comida dele com a mão. Dizem que ele matou gente e tudo. Sei que nos dias de visita ninguém nunca veio ver Temível.&lt;br /&gt;As pombas voavam no céu prontas para defecar em alguma cabeça ou algum vidro de carro. Lembro-me de uma vez em que um doente mental levou formicida para dar as pombas. O resultado foi aquele rastro de pombas pelo chão. Mortas. Todas elas.&lt;br /&gt;Havia um louco entre todos que era homem, mas se vestia de mulher. Gostava de dar cabeçadas na parede e vivia tremendo. Outra lembrava a minha avó por parte de mãe, sempre muito elegante. Outra, ainda, tinha hábito muito estranho: enchia um copo inteiro de café e outro de leite e tomava cada um sem misturar. Não era coisa de gente louca. Uma vez cheguei perto dela e ela falou de Heráclito e Parmênides com um sotaque espanhol. Era chilena. Fiz toda uma ficção na minha cabeça de que lutara por Allende e perdera como todos os chilenos. Fora perseguida política. Recebeu os maus-tratos do estado. Foi torturada e acabou num hospício do Brasil. Ela era professora de sociologia. Com certeza deveria ter filhos que não sabiam de seu paradeiro e viviam de lugar em lugar procurando a mãe. Quantas coisas os governos fazem para destruir a vida dos que incomodam. Incomodar deveria ser condição de bom funcionário estatal. Porque ver as maracutaias e não fazer nada, ver o povo perdendo força, o povo sem dinheiro perdendo dinheiro, pagando salários altos a burocratas...&lt;br /&gt;De súbito ouvi berros: "Aahhhhhhhhhhhhhhhhhh!" Desespero. Alguns internos estavam fazendo arremesso de oligofrênicos. Pegavam-nos e jogavam oligofrênicos para cima e numa vala também. Internos menos loucos comandavam o evento. Sim, aquilo era um evento. Uma espécie de ritual.&lt;br /&gt;Eu continuava com a minha paranóia e com o meu chip implantado dentro de mim. Tendo engolido um grilo aos 15 anos. E com seis tendo sido visitado por extraterrestres que me buscariam em casa com 18. Já havia passado dez anos e os extraterrestres na vieram me buscar. Fronsky não veio me buscar. O chip é para a CIA e a KGB me dominar. Sou importante porque sei peidar sem sentir o próprio cheiro. Desenvolvi uma técnica de filtragem. Brincadeira à parte. Sempre me senti um ser perseguido. Ando nas ruas sempre olhando pra trás e de vez em quando saio em desabalada carreira e correria. Uma vez meu psiquiatra pegou o ônibus comigo para provar que não havia problema nenhum em andar de ônibus no Rio, na Zona Sul. Morreu em 2000 paus, mais o relógio. É que o ônibus foi assaltado.&lt;br /&gt;Pegaram uma interna e arremessaram ela. Os doidos tavam arremessando todo mundo que aparecia na frente deles. Jogavam num barranco. A pessoa podia se machucar, mas os outros loucos riam e queriam mais. Formavam uma fila para serem arremessados barranco abaixo.&lt;br /&gt;A noite chegava e com ela vinha o pior: a trilha sonora da noite. O hospício ficava do lado da favela. Era funk a noite toda e o dia inteiro. "Lacraia, lacraia, lacraia... Vai, Serginho." Dormir ouvindo aquele lixo cultural. Aos berros.&lt;br /&gt;Eu achava que havia uma porta muito estranha de onde as pessoas não mais voltavam. Entravam por aquela porta e sumiam. Ficava de olho. Há dois dias que a chilena havia entrado ali e tinha sumido. "Eu vou pra Paracambi. Se você não comer vai pro Caju." Eu não agüentava mais ficar no cubículo. Estava ficando com problemas nas articulações. Nenhum louco merece aquele tratamento. Sei que no meu caso era um castigo por ter quebrado a casa toda. Era algo que funcionava como castigo de criança.&lt;br /&gt;Já tive que escrever 200 vezes, detestando o professor de matemática, "eu gosto do professor de matemática". Agora o copiar e o colar do computador acabou com o castigo.&lt;br /&gt;Quando vinha o sol, ia pingando um a um cada funcionário. O hospício bombava de cheio. Estava superlotado. Era domingo, dia de visita. Há horário para visita diária e dia de visita universal que era o domingo. Eu ainda estava com o meu chip, que às vezes me incomodava fisicamente. Eu pensava até quando o meu chip era um derivado do grilo de antes. Eu tinha momentos de lucidez. Eram poucos, mas tinha. As drogas usadas às vezes têm ação sobre o organismo. Mas tem gente que não melhora nem com remédios. Para que serve internação então? Para reunir o entulho humano.&lt;br /&gt;Quando o hospício bombava de cheio era a hora de ficar quieto. Qualquer coisa você poderia ser amarrado à cama. Dentro do cubículo e amarrado era a morte. Muitos alcoólatras viviam amarrados devido a síndrome de abstinência. O grande mal das clínicas é que elas misturam os doentes. Ficam todos internados juntos.Tinha vontade de comer o bolo da vovó. Mas eu não tinha mais vovó. Muito menos o bolo da vovó. O que havia era uma paçoca de fubá, muito sem gosto. Mas que todo mundo comia a regalar de olhos. A comida de hospício era aquela comida feita para duzentas pessoas por vez. Era Matrix. Não tinha tempero. Era muito ruim mesmo. Mas fica até chato reclamar quando tem tanta gente passando fome e quando tinha gente dentro do hospício que achava aquilo a oitava maravilha do mundo.&lt;br /&gt;"Hoje não teve goiabada."&lt;br /&gt;Eu estava ali há dez dias. Há dez dias que comia mal. Pelo menos ia emagrecer. Tinha saudade da comida de casa. Quando não tinha goiabada não havia nada de que gostava. Mesmo que grudasse nos dentes era boa. Lembrava infância. Lembrava o nordeste. Eu queria comer uma maçã. Há muito tempo não tinha uma maçã. Fruta ali era banana. Eu queria maçã, abacate. Estava seco por uma vitamina de abacate.&lt;br /&gt;Entrou uma barata no cubículo. Tive que matá-la com a mão. Não havia outro instrumento. Os cubículos são feitos para a pessoa que está dentro não ferir ninguém, mas também não se ferir. Para não me ferir não havia nada no cubículo. No começo da internação às vezes se fica amarrado. Cada um tem o tratamento que vai de acordo com a sua periculosidade.&lt;br /&gt;Há muito que não se fazia mais a operação de lobotomia. As práticas de eletrochoque só eram ministradas com sedação. Havia a luta antimanicomial. Mas onde pôr as pessoas que não têm família e são casos perdidos?&lt;br /&gt;Eu mesmo tinha medo do meu futuro. Talvez fosse aquele mesmo, conviver com todo o tipo de gente. Gente sã, gente doida, policial, gari. Não tinha nada contra os garis, principalmente eram muito limpos e sempre querendo fazer uma faxina. Mas o dia inteiro preso, vendo tudo de longe. Era triste. Caiu um toró. Chovia. Ficava mais triste. Eu não me lembrava de um amor. A última vez que fora amado, ela me disse que não me amava. Tinha se apaixonado pela loucura que há em mim. O louco às vezes é muito sedutor. Sentia saudade de ler um bom livro no dia de frio, no de calor também. Sentia vontade de ler um Henry Miller.&lt;br /&gt;Havia muitos morros em volta do hospício. Em vinte anos tudo estaria tomado pela favela. O morro ia comendo o morro, e cada vez mais existia menos lugar verde e mais telhado e casas insalubres. Naquele cubículo era sempre inverno. Fazia sempre frio. Eu num me incomodava, gosto de frio. A gente não tem de tirar a camisa. Nenhum gordo gosta de tirar a camisa. Mostrar as banhas não é o melhor programa para um gordo.&lt;br /&gt;Detesto espelho. Espelho só serve pra mostrar como a gente piora com o tempo. A primeira coisa que quebrei lá em casa foi o espelho. Nem me importei com os treze anos de azar. Depois fui para as bebidas e, tomado de uma loucura inconteste, fui jogando uma a uma as garrafas de whiskie no solo. Ficou um lugar perigoso. Um mar de cacos de vidro. Algumas coisas não quebraram, como o vidro da grande mesa da sala que se mostrou indestrutível. Um enfeite de mesa também ficou inquebrável. Havia coisas que se derretiam só de tocar, que se autodestruíam com um toque e outras que se mantinham impávidas. Meu pai veio e pediu para que eu parasse e eu não parava. Minha sobrinha pequena gritava. Meu irmão gritava. Minha mãe gritava. Minha irmã gritava. A empregada lá de casa gritava.&lt;br /&gt;"Não, isso não!"&lt;br /&gt;Isso eu quebro e vou quebrar mais. Eu quebro. Eu quebro. Eu quebro...&lt;br /&gt;Chegou a polícia e me algemou.&lt;br /&gt;Levaram-me pro Pinel.&lt;br /&gt;- Por que você quebrou?&lt;br /&gt;- Quebrei porque sou feito de caos e quando o caos me convida a desordem eu desordeno tudo. Tudo estava muito calmo. Menos eu. Eu engoli um chip. Eu bebi um chope na rua e botaram um chip dentro do chope. E eu engoli o chip que faz com que eu faça tudo isso, até o que não quero. Mas eu só podia me ferir com tantos cacos, ainda mais andando descalço pelos cacos.&lt;br /&gt;- Você vai ser removido para a Clínica. Nós estamos superlotados.&lt;br /&gt;- Eu não quero ir pra clínica e nem ficar aqui.&lt;br /&gt;E comecei a quebrar o consultório do médico, até vir um enfermeiro com uma baioneta.&lt;br /&gt;"Por que você não morre?"&lt;br /&gt;Há tanta gente velha aqui.&lt;br /&gt;Um dia ainda sobrevivo pra mostrar todo este jogo sujo.&lt;br /&gt;Fui pra perto do Cristo. Da minha cela dá pra ver o Cristo. Colocaram-me lá para ver se eu morro um pouco, e de vergonha por não crer em Deus. Havia borboletas por todo lado. O hospício era um lugar cheio de flores lindas, mas podre por dentro. O modelo hospício tinha que ser mudado. Mas como a minha família me agüentaria quebrando tudo? Nas horas em que me vem uma pertinência maior vem a pergunta: o que eles poderiam fazer? No dia da crise não se pôde fazer nada, e o que fazer para não entrar em crise?&lt;br /&gt;Você é um caso perdido. Você é um idiota, você é gordo e escroto. Você só fala isso por que eu estou amarrado.&lt;br /&gt;Tudo ficou dourado. O céu dourado. O Cristo dourado. A ambulância dourada. As enfermeiras douradas tocavam-me com suas mãos douradas.&lt;br /&gt;Tudo ficou azul: o bem-te-vi azul, a rosa azul, a caneta bic azul, os trogloditas dos enfermeiros.&lt;br /&gt;Tudo ficou amarelo. Foi quando vi Rimbaud tentando se enforcar com a gravata de Maiakovski e não deixei:&lt;br /&gt;- Pra que isso Rimbaud? Deixa que detestem a gente. Deixa que joguem a gente num pulgueiro. Deixa que a vida entre agora pelos poros. Não se mate irmão. Se você morrer não sei o que será de mim. Penso em você pensando em mim. Rimbaud tudo vai ficar da cor que quer. Aqui não dá pra ver o mar. Mas você vai sair daqui.&lt;br /&gt;Tudo ficou verde da cor dos olhos de meu irmão e da cor do mar. Do mar. Rimbaud ficou feliz e resolveu não se matar.&lt;br /&gt;Tudo ficou Van Gogh: a luz das coisas foi modificada.&lt;br /&gt;Enfim, me deram uns óculos. Mas com os óculos eu só via as pessoas por dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Rodrigo de Souza Leão&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-7570890024452020124?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/7570890024452020124/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=7570890024452020124' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7570890024452020124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7570890024452020124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/todos-os-cachorros-so-azuis.html' title='TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-6946294133283490376</id><published>2007-03-22T08:00:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T08:01:37.498-07:00</updated><title type='text'>RUE DUPHOT, 8</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;O piano brilha no palco vazio Os músicos entram O teatro está cheio O homem e a mulher estão sentados na quarta fila central O vestido dela é vermelho Tem um corte do lado até a metade da coxa direita Ela cruza as pernas Uma delas nua se não fosse a meia Eu não devia ter vindo ela pensa Não sem avisar Eu não devia As pessoas em volta conversam O homem aperta a mão da mulher na sua As luzes do teatro piscam Os músicos preludiam O golpe do arco no cello (portato) Entram o maestro e o pianista Vai começar Silêncio O pianista senta-se no seu lugar O maestro anda até a frente do palco e cumprimenta a platéia Seu olhar de sol poente vagueia autômato sobre as pessoas Até tremer na coxa nua dela Até reconhecer os olhos dela Luas cheias Verdes O homem estranha o frio da mão da mulher na sua Eu não devia Escuro Dois focos de luz se cruzam no meio do palco Um no maestro em frente à orquestra Outro no piano Eu não Agora O maestro levantou a batuta  &lt;br /&gt;BACH, Johann Sebastian. Cello Suite No.1 in G, Prélude.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;O homem e a mulher entram no quarto do hotel. Paris é uma festa mesmo no inverno ele diz arrependido. Ela não ouve. A sentença fica boiando no silêncio dos olhos vadios dela. Você está feliz ele pergunta desajeitado. Está gostando da viagem? A gente estava precisando, não? Gostou do concerto? Ela responde você já me traiu? Tira os sapatos o vestido as meias a calcinha os brincos deita-se de sutiã. Você tem cada uma, ele nega. Seu corpo de black tie deitando-se sobre o dela. A bunda do homem mexendo (spiccato). Mexendo. Pra dentro Pra fora Pra dentro Pra fora Pra fora  &lt;br /&gt;CHOPIN, Frédéric François. Prélude, Op. 28, N°.4 in E 'Suffocation'.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;De manhã ela acorda primeiro. Eu sempre quis te amar ela pensa olhando para o homem que dorme. É tarde ela diz empurrando o braço dele adormecido em torno dos seus seios. Bonjour ele suspira enfim feliz. Antes de dormir eu pensei que a gente devia ter um filho. Ela não ouve. Antes de dormir pensou nas mãos do maestro (martelé). Você já me traiu? Ela insiste em saber. O homem tira o resto da roupa que dormiu com ele. Senta-se na cama. Nu e sincero confessa o nome da melhor amiga dela. Confere datas. Conta detalhes. Tenta motivos. Alisa o suor do peito. Procura mais fôlego sob o verde valente dos olhos dela. Paris é uma festa mesmo no inverno ela diz sorrindo. E sente uma saudade esquisita de subir em árvores. O homem sente outra coisa. Um mal-estar súbito. Algo no coração que ele ainda esfrega. Até parar. Até ela se desesperar. O telefone. A mulher liga para a recepção. Mon mari mort ela avisa. Procura o casaco. Encolhe-se dentro dele agachada. Os braços envolvendo os joelhos. Num dos cantos daquele quarto azul. Azul azul azul. Insuportavelmente azul.  &lt;br /&gt;TCHAIKOVSKY, Pyotr Ilich. Concerto for Violin and Orchestra in D, Op.35&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;A mulher veio depois do almoço do maestro, eta homem mais fominha e de paladar tão exótico: além de sádico, mistura queijo-de-minas com foie gras e doce de leite, deixa poucas migalhas, tenho que me virar pelo apartamento sombrio. Quando ela chegou, ele já esperava, a porta estava aberta e ele disse "tire o casaco", ela tirou, ficou nuinha em pêlo, pelo jeito, se ele dissesse "voe", ela voaria, mas agora estavam se agarrando, se lambendo, se babando, "onde eu me acabo", ela sussurrou com pressa, ele respondeu "aqui, ó, aqui". Eu nem vi o ó, com essa fome danada, aproveitei o ensejo, corri pra dispensa, que é onde ele foi me achar, atrás de uma garrafa de vinho, azar o nosso, meu e da garrafa, que ele carregou. Ela, debaixo do braço direito, eu, suspendido pelo rabo preso na sua mão esquerda, meus olhos se arregalando dentro dos olhos dele, encarei, ele riu da minha valentia ou da sua boa idéia, vai saber que idéias agiam naquela cabeça, talvez me fazer de spalla e de bobo, e saiu andando, me balançando no ar. Entramos os três, o maestro, a garrafa e eu, no quarto onde havia uma cama de casal e, amarrada nela, peladinha da silva, a mulher, um frágil X vendado. Só deu tempo de eu ouvir a voz dele, grossa, rouca, perguntar afirmando "você me ama", levar o susto e escutar o "sim" fraquinho dela, já caído naquele corpo, tontos, o corpo e eu. E notar que melhor sorte nessa hora teve a garrafa de vinho, que ele abriu com método e implicância, sentado numa cadeira ao lado, demorando a derramar um bocado no copo em cima do criado-mudo, eu disfarçando pela pele dela afora, galgando seus cumes, melando todo nas suas águas, roçando-me nas suas marcas rosadas, tateando seus calafrios, trançando nas suas veias azuis, onde girava um mundo de vontades e medos. Pensando por que não nasci gato, os gatos usam a cauda para se equilibrar, os gatos usam 32 músculos para controlar as orelhas, os gatos conseguem ouvir as suas presas rodando as orelhas independentemente uma da outra, há mais gatos em Londres do que pessoas na Noruega. O maestro, decerto, pouco se importava com meu modo de pensar, pelo seu sorrizinho sarcástico devia estar pensando na piada que pergunta qual é a diferença entre Deus e um maestro e responde que deus sabe que não é um Maestro. De repente ele se levantou, me deixando ver, num relance, seu facho aceso e torto. E partiu pra ignorância, acertando um sustenido de direita no pé da minha orelha, que saiu comigo tropicando pelo quarto, eu disposto a voltar pra dispensa, apesar da bambeza, arriscando uma olhada a tempo apenas de perceber o corpo dele desabando sobre o X, um Y violento que invadia a mulher, os gemidos dela, a bunda do maestro mexendo (staccato spiccato), mexendo, pra dentro, pra fora, pra dentro, pra fora, pro fundo.&lt;br /&gt;Tem três dias que eles estão nessa função.&lt;br /&gt;COPLAND, Aaron. Fanfare for the Common Man, for brass orchestra &amp; percussions.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Tudo azul?&lt;br /&gt;Era assim que uma vizinha de infância me perguntava se estava tudo bem. Ela me deixava irritada. Como a outra, gorducha e ofegante, que sempre respondia com bolinhas cor-de-rosa e sorria, piscando um olho só, cúmplice, que antipatia. Como mamãe, que passou a vida tentando me convencer da beleza que há no azul, sobretudo, naqueles vestidos de organdi suíço que ela mandava bordar para me amordaçar, singelas camisas-de-força. Não adiantava nada papai (staccato volante) invocar a santa paciência (dela) e o direito da menina (eu) ter gosto próprio: cresci com pouca cor, quase nenhuma coragem. O que seria dos olhos, se todos gostassem da remela? E do branco, se todos preferissem o negro? Cansei de ouvir ele dizer. Não adiantou nada. Fui domada pelo azul.&lt;br /&gt;Tudo azul?&lt;br /&gt;Agora sim. Ele morreu. O homem que nasceu para ser o senhor do meu destino, cercar-me de luxos e ouro, até um anel de diamante naturalmente azul e adequado a poucas mulheres no mundo, vida boa, sexo regular e sagrado nos dias ímpares, discreta intimidade com o poder, tráfego folgado no jet set e na espetacular residência com meia dúzia de salas, quartos, banheiros, piscina, sauna, ampla área de lazer e vista definitiva para a solidão. Mamãe nunca errava.&lt;br /&gt;(Nada mais azul que a ausência de significado, o desamparo, o aniquilamento, o desespero. Tudo azul da cor do céu que nos desabriga, da cor do mar que nos afoga. Lindo na poesia e nos jeans. Perfeito nas receitas dos remédios suicidas.)&lt;br /&gt;Precisava sair daquele quarto. Sair no rumo do meu desvario.&lt;br /&gt;Mas havia a porta giratória do hotel.&lt;br /&gt;MOZART, Wolfgang Amadeus. Marche Funebre del Signor Maestro Contrapunto.&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;Portas giratórias, daquelas cheias de vidros dividindo as partes, sempre me confundiram. Eu nunca sei se elas me levam ou me trazem. Sou capaz de gastar um tempo sem fim rodando no seu interior, a direção perdida, ou quase. A porta daquele hotel me trouxe de volta ao quarto (ricochet). Fiquei ali zanzando por um tempo, a memória vindo à tona. Ao telefone, primeiro pedi urgência com aquele corpo que eu não queria mais. Morto ele não valia nada, era só mais um traste, a bagagem inútil que se perde com prazer em qualquer aeroporto (deixaria a outra bagagem também, não seria difícil viver sem o seu peso). Depois liguei para um número há anos guardado na ponta da língua. O maestro. O arrepio gelado entre o umbigo e o coração.&lt;br /&gt;Você me ama?&lt;br /&gt;Muito.&lt;br /&gt;Eu vou.&lt;br /&gt;Minha liberdade é vermelha, descobri em seguida. Como o começo de todas as auroras. E saí nua se não fosse o casaco, cega, ao seu encalço. Com a mesma certeza que tem o chicote no ar. Antes de açoitar.  &lt;br /&gt;BEETHOVEN, Ludwig van. Violin Sonata No.5 in F, Op.24 'Spring', Allegro.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Silvana Guimarães&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-6946294133283490376?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/6946294133283490376/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=6946294133283490376' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6946294133283490376'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6946294133283490376'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/rue-duphot-8.html' title='RUE DUPHOT, 8'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-7726403048582282865</id><published>2007-03-22T07:59:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T08:00:23.657-07:00</updated><title type='text'>ALGUMAS COISAS QUE OS LEITORES DEVEM SABER</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;E porque não havia mais nada para ser dito, ela o matou. Não por ódio ou tédio. Não era mesquinha para tanto. As frases desapareciam no ar. Era tempo. Por uma esperança banal de ouvir novamente a voz, ela cozinhou para ele. – Bom – ele disse. E comeu a carne, o arroz e a salada. Depois, com um gesto, pediu mais. Ela, quase bondosa, fez outro prato, farto como o primeiro.&lt;br /&gt;Ele a viu primeiro. Na plataforma de embarque, ele a olhava sem registrar enquanto ela pousava a valise no chão. Em seguida, um vendedor de refrigerantes o distraiu. No futuro, não haveria lembranças para eles.&lt;br /&gt;Na fila do açougue, ela percebeu. Aquilo seria para sempre. O cheiro da carne crua e gelada. De olhos fechados, o cheiro atravessava o papel cinza e molhava suas mãos. Defrost. Logo ela, vegetariana desde a adolescência.&lt;br /&gt;Era apenas superfície. Amavam-se em superfície. E sou eu agora que digo: nada foi mais verdadeiro. Quando, de noite ela tornar a sentir saudades dele, nenhum nome lhe virá a cabeça. Só o calor dos vivos. O calor do dorso das mãos dos vivos será a única recordação que a fará dormir.&lt;br /&gt;Depois, esgotaram-se. Então era isso. Além dele, mais nada. Ele era o limite. O corpo sem fim que a cobria em criança. A língua do mundo. Ela parada em frente ao mar. Sem ter a quem ofertar suas perguntas. Ele transbordava.&lt;br /&gt;- Você já vai? - Ela perguntou vendo-o arrumar as malas. - Já. Já passou da hora. A velha história.E pensávamos que podíamos escapar&lt;br /&gt;Houve neste momento um esboço de cumplicidade detonado pelo meio sorriso de ironia. Olharam-se como a pensar: será? Será que a quase-piada, o ensaio de leveza... Mas “como a pensar” não significa necessariamente pensar. Olharam-se mas não se pensaram. Quietos, ignoraram a ironia salvadora.&lt;br /&gt;— Não, não podemos escapar. Não somos diferentes dos outros. Somos os mesmos.&lt;br /&gt;E porque não havia diferença entre morrer e ir embora, ela o matou. E ele, tácito, ainda teve tempo de pensar:&lt;br /&gt;- Ela realmente não me entende. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Giovanna Dealtry&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-7726403048582282865?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/7726403048582282865/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=7726403048582282865' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7726403048582282865'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7726403048582282865'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/algumas-coisas-que-os-leitores-devem.html' title='ALGUMAS COISAS QUE OS LEITORES DEVEM SABER'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-5704690992035682406</id><published>2007-03-22T07:58:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:59:18.630-07:00</updated><title type='text'>NATUREZA MORTA 17/21 – DA SÉRIE MAÇÃS DE CERA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Fui dar uma volta pra conhecer o lugar e experimentei fazer sexo com recém-nascidos só para ver como é que era e não gostei. Num outro país pulei sem pára-quedas da estátua mais alta e lá embaixo um gigante me esperava com braços plácidos, soergui-me e fui embora imediatamente. Num outro continente carregaram-me no colo de um lado para o outro durante toda a temporada. Já no arquipélago de nuvens estáticas, eu fui acordado durante os 40 dias da minha estadia com 4 mãos que me despertavam dos sonhos com movimentos circulares e ritmados em adágio, ma non troppo; andante moderato e presto fortíssimo. Em seguida mergulhavam meu corpo em ofurôs hereditários com leite de cabra, gordura de baleia com amêndoas, e por fim no de sangue de moça. É importante dizer que a sessão descrita proporcionava em mim a capacidade de enxergar claramente durante as 24 horas subseqüentes, sem que necessário fosse o levantamento das pálpebras. Vê-se com mais atenção o infinitamente pequeno e o infinitamente descomunal, o que está ao alcance de nossas vistas nuas não nos alcança. Poder-se-ia dizer também, que o essencial é translúcido aos olhos. Numa outra viagem aportei num país esmaecido e ali me propus uma cegueira temporária – previa três, mas foram dezoito dias. Nessa época conheci o mundo pelo contato dos corpos e suas temperaturas; pela fluidez dos líquidos e seu grau de adstringência; pelos zumbidos, arrastar de chinelos, espirros estridentes e soluços graves. Fui transportado por nuvens em filetes como nos desenhos animados que penetrando pelas narinas me faziam de sr. Leôncio levitando até chegar de olhos fechados e sorriso maroto ao manjar aromático.&lt;br /&gt;Viaja-se acreditando em tudo que é exótico. Está escrito nos impressos de viagens um pouco daquilo que não acreditamos. Naquele dizia: “...onde vendem desde carne de cobras, vacas, porcos e meninos virgens”.&lt;br /&gt;Fiquei no hotel bebericando e vi pela janela milhares de pessoas se afogando no mangue. Da outra janela um outro hóspede repetia em disparada o sinal da cruz. Outro dia conheci uma feira de antiguidades onde não se vendia nada, só a troca era possível. E para selar o acordo um dava no outro uma chupada no pescoço. Perder é aceitável mas perder-me não posso, pois não me encontraria jamais. Só no meu mundo eu me uno – mas ele não existe. Então voltei ao lago pra me refazer, mas ele estava seco. Pedi ajuda como quem pede comida por necessidade mas não me atendiam na minha língua. Entrei nas salas de ambientes de um cyber café e masturbei mortos até que lhes voltassem o ânimo e eles me imploraram para deixá-los em paz. Asqueroso! gritaram em uníssono.&lt;br /&gt;Habitam de palácios a quitinetes. Poleiros e buracos também servem. Estacionei o carro urgente próximo a sarjeta e da boca de lobo serpenteou um homem de meia-idade agarrando minhas pernas com suas patas lodosas como se fosse um cachorro no cio e gozamos um depois do outro. Ele ejaculava um carmim fétido que impregnou bem aqui ó nas minhas unhas, pregas e entranhas.&lt;br /&gt;Encontrei Lúcifer chorando e se definhando em tristezas mundanas. Fiz o que devia ser feito: afaguei seus cabelos para que dormisse e depois liguei para a polícia.&lt;br /&gt;Não fazia sol, nem chovia. Na Autovida, os carros de 0 a 100km/h em apenas 4,3 segundos ficaram pendurados nos prédios como bolas multicoloridas em árvore de natal. Da outra janela um outro hóspede não tão espantado confraternizou: Feliz Natal! E eu só consegui dizer: Feliz Natal, Feliz Natal! E depois a cidade toda em coro.&lt;br /&gt;Todos sabem o que fazer perante a estátua do Cristo Redentor, só que eu nem tanto, então ainda criança – com toda vergonha e acanhamento que carrego até hoje - fazia o sinal da cruz como quem coça o corpo. A primeira coçadinha na testa, depois no peito e assim se seguia, e me ruborizava se alguém no ônibus percebia.&lt;br /&gt;Viaja-se acreditando em tudo que é exótico. Está escrito nos impressos de viagens um pouco daquilo que não acreditamos. Naquele dizia: “...gérberas translúcidas, golfinhos verdes, jacarés hermafroditas...” O agente me confidenciou: “cuidado: o bicho homem não é previsível, ele é surpreendente”.&lt;br /&gt;Na fachada de um misto de ateliê e antiquário, havia uma pequena lousa verde escura com os dizeres: “aceitamos maçãs de cera como modelo para uma pintura.” Automaticamente lembrei-me das frutas no hall do hotel. À noitinha duas maçãs se acasalaram por debaixo do meu sobretudo. No dia seguinte eu estava onde deveria estar. Dois homens – um fraco e outro forte - violentaram a loja, arregaçaram o caixa, esfaquearam quadros, imolaram o proprietário e me açoitaram. Acho que por causa da minha incapacidade de chorar, o homem mais fraco veio de estilete em punho em minha direção e numa estocada seca dilacerou minha orelha esquerda. Nada adiantou.&lt;br /&gt;Em determinado lugar, não falo qual pois pode ter mudado, encontrei minha alma gêmea aristofaniana, não falo qual pois pode ter mudado. Eu mentia, ela mentia, depois ela mentia mais um pouco e eu não aceitava perder o posto. Hoje só trocamos e-mails e continuamos sendo os mesmos impostores. Nada mudou. Só nos conhecemos melhor. E afirmamos convictos que mentimos e nos enganamos bem - sem nenhum mal no coração, sem nenhum rancor no fígado, sem nada a temer.&lt;br /&gt;Fiz, mas não me lembro onde: cooper sob nevasca com guardas-costa e ciclismo com capacete e colete a prova de balas. De um certo lugar à outro tive que viajar em comboio carregando imagens santas como passaporte. Numa prova de tiro abati 3 mamutes e duas velhas senhoras conseguindo com isto apenas um mísero certificado de participação. Participei de um rally armado até os dentes e venci, levando para casa um blindado que está estacionado aqui na sala de estar.Hoje quando saio, volto sem saber onde estive. Hoje quando volto, me deposito com todo meu peso sobre a poltrona sem querer saber o que aconteceu - esqueço-me - atestando-me mais uma vez imune e impune. Às vezes saio e sinto medo das caras que me reconhecem depois de tantos crimes inconfessáveis e outros secretos. Mas me confortam a massa aterradora de cúmplices que se submetem à mim. Então me sinto em casa e vou pra cozinha preparar perdiz com romanée-conti. Minha casa é minha máscara , minha cara, minha casca. Minha câmara mortuária. Minha casa é minha cova larga onde eu morro cada dia mais um pouco. Pouco a pouco. E mais um pouco. Até o fim.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Wagner Gil&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-5704690992035682406?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/5704690992035682406/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=5704690992035682406' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/5704690992035682406'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/5704690992035682406'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/natureza-morta-1721-da-srie-mas-de-cera.html' title='NATUREZA MORTA 17/21 – DA SÉRIE MAÇÃS DE CERA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-4706871879164947170</id><published>2007-03-22T07:57:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:58:12.935-07:00</updated><title type='text'>O PEQUENO CIRCO DA MALDADE</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;O galpão inchado de homens na infecção do jogo: gritos, aguardente, mãos cheirando a dinheiro. Parece ter sido ontem tanto barulho, a festa dos machos diante da sorte e do azar. Mas agora, o galpão só um esqueleto só: madeiramento velho, roído de cupim, úmido, com os reumatismos próprios da idade, do abandono. Mas antes, que lixa de dentes poderosos! Como sabia roer homens e limpar muito bem limpas suas ossaturas. Não foi um só ou dois apenas que entregaram esposa ou filha para saldo de dívidas. Também não faltaram os suicidas, os que se penduravam em cordas (quase risível a cara trágica, o grito ridículo solto na corda frouxa), os que tomavam veneno, os que sofriam a terrível enxaqueca do tiro na cabeça. Ocorrências banais, qual das cidades do mundo não as têm?!&lt;br /&gt;A Igreja sim, se preocupava e ia encontrar nas Escrituras uma enorme variedade de conselhos, proibições, ameaças da ira divina. O bispo, em suas visitas pastorais, com aquela voz mansa e uniforme, igual em todos os bispos e padres e homens que se pretendam de Deus, o bispo advertia dos perigos dos jogos de azar, dos vícios que deles decorriam, do coito de malfeitores que a cidade fatalmente se tornaria se insistissem no pecado. Advertia do riso debochado de Satanás, perante a queda dos filhos de Deus. O bispo sempre insistiu nesse ponto em seus sermões, no riso debochado de Satanás. Sempre o sublinhou. Acaso já o teria visto, para descrever com tanta minúcia o esgar da boca, a contração vesga dos olhos, a malícia das sobrancelhas, as rugas ondulantes da testa? Seria por isso que o bispo nunca sorria? Por já ter visto, como quem vê um relógio aberto, essa grotesca deformação do riso? Dizia, mansamente as mais terríveis palavras: “Afastem-se do riso, filhinhos, afastem-se do jogo, das bebidas, das mulheres, de tudo o que é decadência, vício, perdição. Afastem-se da mesa dos escarnecedores... Temei o riso debochado do inimigo, temei o riso de Satanás...”&lt;br /&gt;Mas o galpão permanecia e é bem verdade que naquele local muitos fizeram sua glória, ou relâmpagos dela. E mesmo havendo quem preferisse o prostíbulo, o galpão sempre reinou absoluto na preferência da maioria. E algumas esposas se aliviavam de saber que seus maridos estavam seguros no jogo e havia as que se alegravam de sabê-los perdedores, pois que assim não teriam o que gastar com putas. Muitas rezavam, pois mulheres, em geral, temem as brigas, os ponteios, os jogos dos homens. Temem malfeitores que se comprazem em fazer misérias. Temem os perdedores que voltam para casa bêbados e violentos e que descontam na família a carta perdida, o número errado. Temem o estranho que não bebe, não fuma, não joga, mas que possui uns olhos cediços que convidam ao adultério. As mulheres, em geral, temem. Mas como sabem ceder...&lt;br /&gt;Vendo o galpão hoje, carcomido, tudo parece ter sido ontem. Parece ter sido ontem aquele dia em que ele amanheceu com feitio de circo, a lona grossa e colorida vestindo-lhe as paredes; por dentro, armado um vasto picadeiro. Todos viram, todos perceberam a misteriosa mudança, mas ninguém ousou comentar nada. Todos calaram e guardaram para si a imagem de circo bizarro em que o galpão se transformara naquele dia. Todos fingiram que nada ocorrera. À noite, cada homem temeu ir para lá. Mas como faltar? Por que faltar? Foram todos e embora o barulho e a aguardente e tudo o mais fosse como nas noites anteriores, nada era igual de verdade. Nem os homens eram iguais. Esperavam algo, mas esperavam lá no secreto de cada um. Esperavam o que não sabiam o que seria, mas que certamente não era a chuva forte que desabou na cidade e muito menos a vitória do histórico e renitente perdedor.&lt;br /&gt;Esperavam todos a hora de representar a farsa, até que começou a briga dos dois. Briga feia que ninguém ousou ou quis apartar. Sangue e dois bichos na arena. A assistência encantada. Rugiam os dois. Aplausos. Assobios. Punhos cerrados. Roupas rasgadas. O público satisfeito com a barbárie, não fosse a ausência de garras afiadas e presas fortes, até que ao palco subiram outros homens que, saudados pelos restantes, amarraram os dois peito a peito e na mão de cada um, uma faca. As facas são armas de quem dispensa portador, que homens, homens mesmo, não se escondem atrás de revólveres, portam, eles próprios, a morte nas mãos, sentindo o corpo, o peso, o gosto e a resistência do adversário.&lt;br /&gt;E assim, os dois mataram-se, amarrados como siameses, a facadas. Mataram-se perante as palmas emocionadas de todos que foram ver e participar do espetáculo. Ao final, cada homem pegou seu chapéu e batendo o pó das casacas deixaram o cenário para trás. Todos os bichos da noite se calaram, exceto os gatos. Também a lua silenciou, escondida entre nuvens do fim do mundo. Na manhã seguinte, a lona não estava mais lá.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Micheliny Verunschk&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-4706871879164947170?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/4706871879164947170/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=4706871879164947170' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/4706871879164947170'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/4706871879164947170'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/o-pequeno-circo-da-maldade.html' title='O PEQUENO CIRCO DA MALDADE'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-4061102181935431218</id><published>2007-03-22T07:56:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:57:05.572-07:00</updated><title type='text'>CLAROSCURO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;O sangue baixava pelo morro e os anjos a procuravam, mas os cálices eram de vento e ao fim enchia os sapatos.&lt;br /&gt;— Federico García Lorca&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.&lt;br /&gt;— Mia Couto, do romance Terra Sonâmbula&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a noite combato um anjo - na sombra de um exército estéril - poucas lágrimas, poucas palavras. Nos olhos uma dança coral com secretos demônios. A fragilidade humana. O canto de sangue caindo fora do tempo. As horas, entulhos do tempo rodeado de serpentes.&lt;br /&gt;Na caverna de uma música perdida - minha boca se encontrava com as notas cortadas de toda poesia andaluza - corpos de pele exaltada nos mistérios que torturam o vento. São olhos, lábios que presidem os espelhos, vivem nas águas do silêncio.&lt;br /&gt;Nas portas do pátio de sua alma - com golpes de ira - dançaremos com Cronos. A boca guiará seus passos ao naufrágio. Boca de preces e bênçãos, e na minha cintura o fogo dos deuses exilados. Oh senhor, e em mim só cresce o deserto a que me condenaste!&lt;br /&gt;Sou o corpo do menino que desafia o sol e entra no escuro bosque com as ardidas naves do verbo proferido pelo desejo do outro que fui. Sou o vôo dos anjos sem palavras, e que agora cantam a canção do esvaziamento. Na pálida dança (o único vigia, a última testemunha do inferno), a mão a guiar esta sombra que a morte não presencia. As aves vão migrar noutro coração e as flores são as aves que agora me abandonam – os crucifixos dos meus olhos. Passo de dança que não atinge o presente! Serei eu, um espectro? Ou a grande voz do deserto que cresce?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A TRAVESSIA DOS ESPELHOS&lt;br /&gt;Corre na beira do abismo. Na sombra do sol. Mergulha em direção a um punhal. É perfurado. O perfume selvagem escorre pelas mãos (uma de cada cor). Elas abrem um pouco mais o coração. A sombra entra, e doze pássaros saem do peito. Uma melodia no deserto. Envolvo-o. Joplin bebe o líquido vermelho das palavras. A voz move-se pouco a pouco: no peito, na sombra, no punhal. Os quatros ventos alimentam a melodia. Atravessam os espelhos. Seus olhos. Duas línguas buscam o seu dorso. Descem por suas pernas. Tocam o abismo, e voltam. Nas chamas do espelho: o corpo – pétalas, suor – o jardim asteca: canta. Dentes afiados. O grito na doçura dos pesadelos. O ritmo das janelas, de todas as janelas submersas no relógio. Duas línguas; olhando uma para outra. O sangue da noite. A dança da noite e seu suave barco. Nas pálpebras a verdade dos deuses, e os doze pássaros no ventre. O deserto caminha. Joplin se espreguiça nos seus braços. Desaparece no calendário. A tempestade chega. Meus olham dançam. “Summertime, time, time, / Child, the living's easy. / Fish are jumping out” Summertime - Janis Joplin&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;QUANDO O VERDE DOS TEUS OLHOS&lt;br /&gt;A estiagem prolongou-se levando o brinquedo preferido. O Mandacaru alimenta e fere os olhos verdes da inocente infância. Lágrimas secas rolam de semblantes amarelos. A esperança é uma nuvem d’água, mas essa migrou para um povoado distante.&lt;br /&gt;O alazão voador está aprisionado no solo ressequido, seu olhar pede um pouco de carinho - não consigo mais sonhar.&lt;br /&gt;Meus amigos brincam de esconde-esconde, uns na jardineira engolidora de pais e, enquanto aos outros, a fome fechou os olhos.&lt;br /&gt;Zezinho e Antônio são companheiros de caminhada para a escola – e esta é nossa única sombra de um futuro melhor.&lt;br /&gt;Na volta da aula uma momentânea alegria me acalma. Perco-me propositadamente de meus colegas e sigo Ana: flor que nunca vi, a estranha e mais bela nestes sertões. Seu perfume é só meu. Para minha sorte, eles a ignoram.&lt;br /&gt;Nossa caminhada é prazerosa, embora o tempo imponha seu curso impiedosamente: sol, mugido de gado extinto.&lt;br /&gt;Ana me carrega e seu sorriso brilha como uma manhã nunca vista. Promete desvendar-me seu segredo, assim que chegarmos em sua morada. O caminho parece diferente, as aventuras ficaram para trás.&lt;br /&gt;Debaixo de uma grande árvore, com galhos de folhas mortas, ela revela de forma enigmática:&lt;br /&gt;– Voltarás a sonhar. O teu caminho será verde. O céu te dará asas. Amanhã não voltarei.&lt;br /&gt;Naquele dia de setembro, como em muitos outros dias do ano, Zezinho e Antônio foram à minha casa. A notícia dada por minha mãe não os assustou, fazia parte do cotidiano da região:&lt;br /&gt;– Ele só esperou a primavera, parece estar sonhando.&lt;br /&gt;O silêncio apoderou-se de meus amigos e assim se retiraram de casa.&lt;br /&gt;De volta à peregrinação, Antônio acrescentou:&lt;br /&gt;– Aquela flor que ele segurava, eu nunca vi aqui no sertão.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;EPISÓDIO&lt;br /&gt;Metal impuro, medalhão da sorte sem poderes ocultos, moeda cunhada nos tempos do sofrimento. Estas foram as primeiras hipóteses para descrever o objeto que estava cravado entre os dedos daquele incógnito ser na angustiada mesa de necropsia.&lt;br /&gt;Ele fora encontrado no cume da montanha [ironicamente denominada Paraíso]. Ainda não atingira a idade do lobo.&lt;br /&gt;Concluídos os primeiros exames, tentava eu montar o quebra-cabeça do devorador de minha tranqüilidade. Não saí da primeira peça. Nenhum indício de sua morte, os órgãos internos estavam perfeitos, o que era incomum para alguém de sua idade. Uma luz artificial refletiu-se em meu rosto e o Senhor das Dúvidas percorreu-me o corpo. A moeda abandonou seu hospedeiro, furtando-me a concentração nas análises.&lt;br /&gt;A ampulheta é invertida. As runas traçam diferente destino. O vento noturno conduz a uma estranha sensação; estou na montanha Paraíso. Solitário. Vestígios de sanidade. Abruptamente o cenário é invadido por outra criatura, mas ela não sente minha presença. Senta-se em posição de lótus, parece admirada com o horizonte. Num movimento angelical, ela retira um objeto circular de suas entranhas. Olha-o e seu semblante transforma-se. Grita e atira furiosamente o objeto montanha abaixo. Vira-se para mim: olhar vago, um quê de decepção. Chove. A chuva cobre seu corpo num lamento. Uma gota rubra remete-me à cena inicial: [Metal impuro - Forja mestra de almas, invento impondo sua cadência, arquitetando o cotidiano, monarca das ilusões. Sou servo banhando-me em espelhos de lágrimas]. Permitiram-me o sol, mas há dias não sinto sua luz.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;por José Geraldo Neres &lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-4061102181935431218?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/4061102181935431218/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=4061102181935431218' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/4061102181935431218'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/4061102181935431218'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/claroscuro.html' title='CLAROSCURO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-6293613979412696914</id><published>2007-03-22T07:54:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:55:51.364-07:00</updated><title type='text'>NEVE EM SÃO PAULO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Em 25 de junho de 1918, no quarto dia de inverno, um nevoeiro cobriu de branco as ruas de São Paulo, a 3 graus abaixo de zero. O orvalho congelado no começo da manhã foi a primeira e única neve que a cidade já teve.&lt;br /&gt;Num quartel em Santana, forrei os meus coturnos com folhas do jornal de ontem, que tinha lido e relido durante a noite, à luz de vela, para não morrer de tédio. A cera tinha virado estalactite.&lt;br /&gt;Agora, da guarita, batendo os pés sem sair do lugar, eu assistia ao espetáculo, no retângulo que tinha a largura da minha vista: uma guerra de bolas de neve!&lt;br /&gt;Por sorte, eu ainda estava vivo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Cadão Volpato&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-6293613979412696914?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/6293613979412696914/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=6293613979412696914' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6293613979412696914'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6293613979412696914'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/neve-em-so-paulo.html' title='NEVE EM SÃO PAULO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-3904288952265944943</id><published>2007-03-22T07:51:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:54:50.530-07:00</updated><title type='text'>O PINTOR E SUA SOBRINHA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; Havia um mundo na cozinha. Outro na sala, logo ali vizinha. A janela enorme dava para o mar e à noite ventava muito. Diante desta janela e deste mar ele pintava sonhando com Rimini ou Taormina, imaginando que a igreja mais azul da serra da Ibiapaba não seria tão azul quanto a cor que agora estava na sua tela.&lt;br /&gt;No mundo da cozinha, imenso pavilhão de azulejos claros, a sobrinha reinava todas as tardes entre panelas minúsculas e bonecas despenteadas que babavam nos vestidinhos. Às vezes quando ele se cansava  de olhar suas telas ou o mar pela janela encostava-se no umbral da porta da cozinha e ficava olhando, escondido, a sobrinha deitada nos azulejos. A cena, anos depois, pouco antes dele morrer, serviu de inspiração para inúmeras pinturas.&lt;br /&gt;Agora, ali diante da sobrinha que não o via, ele não sabia  que ia morrer.&lt;br /&gt;Não sabia que ela um dia também gostaria dos filmes de Fellini ou da voz de Nina Simone. A sobrinha era apenas uma criança entretida com a bunda pra cima. Tudo o mais era o futuro. Memória de fatos que ainda não aconteceram. O mundo daquela cozinha cheirava vagamente a orégano. Limpeza, higiene, panelas arrumadas, facas dispostas em simetria. Território de sua irmã. A mãe da sobrinha.&lt;br /&gt;Depois da imersão no mundo da cozinha ele voltava para o mundo da sala com novo ânimo . Sua tela nova era um acontecimento. Mesmo as expressões deformadas que criava para seus personagens aflitos ganhavam lirismo, poesia , sopro novo. Era culpa da sobrinha. A menina de olhos de jabuticaba. Olhos que veriam muito depois outros tantos quadros e expressões. Mas olhos que jamais se esqueceriam das expressões e telas de seu tio.&lt;br /&gt;Quando ele dançava, ria ... balançava a cabeça e todo o vento frio que entrava pela janela esquentava. Com o tio ela poderia dizer que tinha entendido pela primeira vez o que era o amor. Amor que dá e não cobra. Amor que não paga fatura , não funga porque não chora. Amor que não explora. Amor de pegar na mão e sentir-se a mais segura das meninas.&lt;br /&gt;Estas tardes em que ele pintava e ela deitada sonhava com o futuro ficaram tão remotas que chegam a doer na sua lembrança de viva e na nostalgia que ele guarda no mundo dos mortos. Ele ainda tem vontade de pegar na mão da menina. E ela o procura  quando vê suas próprias unhas roídas pela ansiedade que os descaminhos do amor sempre provocam.&lt;br /&gt;Ela o vê de dia às vezes. Não como uma assombração noturna . Mas como uma aparição solar, tão cheia da luz azul que ele amava, tão saudosa das histórias que ele contava. Ele gosta de aparecer na praia , torso nu , exibindo um sorriso e um corpo belo. Cheio da vida que não tem. Lhe sorri cúmplice, chega a insinuar com seu lindo rosto de morto que ela deve fumar menos e aprender a amar mais. Diz com os olhos que o difícil  é entender o amor . Um amor que mesmo em vida distante ele ainda busca. Mas ela ainda não entende apesar de ter morrido várias vezes.&lt;br /&gt;Deitada na grama sobre uma toalha xadrez de piquenique ela olhou o céu ardido de azul outro dia e achou que estava começando a entender. E então veio aquela paz. Exígua, mas paz. Sensação que não durou até a noite cair por completo mas que foi forte o suficiente para ele entender que amor é ato de sacerdotes. Que  pode não requerer castidade quando o objeto do amor está distante . Mas requer sinceridade. No entanto a castidade do amor é sagrada quando ela é entregue apenas à pessoa amada. Este foi o recado do tio. Se é que um recado destes pode chegar com tamanha clareza de lá do outro lado do rio.&lt;br /&gt;O que procura a sobrinha ? a terceira margem ? a derradeira viagem ? algo parecido – sublime – com o amor que sentia pelo tio ? onde está o fim do vazio ? talvez nas belas artes, no mesmo remoto vento nordeste que chega com o mar, nas ruas cheias de Lisboa , no dedo de Deus que aponta o céu em Fernando de Noronha.&lt;br /&gt;A sobrinha deitada sobre a toalha , a fruteira na cozinha da infância, o copo de uísque derramado, as gaivotas mancas, os olhos vermelhos de choro, as ruínas romanas, um fim de semana perdido. Tudo isso é tela. Paisagens pintadas na memória. Quais respingos ficam quando a memória se esvai ? um beijo que cai , um abajur que não acendeu, o grande amor que não aconteceu, sapinhos que coaxam do lado de fora de um chalé ?&lt;br /&gt;Ah, meu tio. Tudo isso é pintura. Gravura, aquarela, mau riso e mau choro sobre círios imperfeitos. Óleo sobre tela. Mãos peludas segurando um pincel. Uma dor profunda e uma alegria divina. Um porre de vinho, manchas no lençol, um anel grande, amarelo e robusto... um susto meu tio, um susto.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Ricardo Soares&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-3904288952265944943?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/3904288952265944943/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=3904288952265944943' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3904288952265944943'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3904288952265944943'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/o-pintor-e-sua-sobrinha.html' title='O PINTOR E SUA SOBRINHA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-3428580237710040582</id><published>2007-03-22T07:50:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:51:18.401-07:00</updated><title type='text'>AVENIDA BRASIL</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Uma garota distribui panfletos ultracomunistas na Avenida Brasil, em seus dedos ela veste anéis que pertenceram a uma czarina russa que durante a revolução fugiu com um príncipe judeu da Galiléia e os dois se refugiaram na pequena casa de um padeiro francês que fabricava farinha em um velho moinho que à noite servia de cenário para os encontros secretos de dois jovens amantes parisienses, e foi lá que eles foram assassinados por um ladrão assustado que nunca mais conseguiu dormir e que ao ser enforcado deixou sua amante, uma cigana que lia o futuro, grávida de 7 meses. Ela deu luz a uma criança cega que tateou pelo seu mundo de trevas até se casar com um chefe de polícia inglês corrupto que aceitava propina de uma dupla de contrabandistas italianos que eventualmente se esconderam em algum país abaixo do trópico de câncer onde conheceram um mendigo que implorava por gorjetas pelos seus atos inconcebíveis, até que finalmente ele bateu de cabeça na sarjeta e estrebuchou em uma performance que foi assistida apenas pelo seu fiel vira-lata que uivou por 49 horas seguidas e depois saltou em um ônibus aonde foi carinhosamente adotado por um senhor de 62 anos e a sua respeitável senhora, que estavam a caminho da respeitável cidade de São Paulo onde encontrariam sua filha, uma garota de olhos caipiras embaçados que estava casada com um anão gago que era um influente sociopata e trabalhava como jóquei no hipódromo local, de onde foi despedido depois de um incêndio pelo qual ele foi culpado mesmo que todos soubessem que a verdadeira culpada era uma velha cujo marido havia pago por grande parte das reformas nas arquibancadas da onde um velho jogador assistiu seus últimos centavos evaporarem no suor de um cavalo fraco que cambaleou até a linha de chegada e morreu aos pés de um poderoso executivo que fumava um charuto Monte Cristo e soltava cada baforada contra o rosto de sua jovem esposa que contava os segundos até o último suspiro dele e finalmente cansada de esperar contratou os serviços de um matador de aluguel que retornou mil pratas mais rico para casa onde sua amada aguardava a grana que nutriria o seu vício em champanhe, e os dois beberam taças de ponta-cabeça e cuspiram da sacada acertando um homem que corria para a estação de trem com um guardanapo cheio de números em sua mão esquerda, ele resolve pegar o metrô e desce pelas escadas passando por um homem negro e barbudo que toca um saxofone prateado que reflete a imagem distorcida de uma criança que berra o nome de sua mãe a plenos pulmões até ser abordada por um policial gentil que, com um sorriso branco, se abaixa e acalma o menino com as mesmas palavras que ele ouvira de seu pai antes de ele dar no pé com uma mulher 20 anos mais nova e agora, vinte anos depois, ela vende rosas de plástico no Saara e um homem velho compra 14 dessas rosas e as entrega a mulher que ele tem amado por 40 anos enquanto sua esposa escreve um bilhete de despedida que ela entrega ao caseiro que olha para o envelope enquanto o cachorro late alertando a presença de uma estranha que chora no portão segurando um telegrama respingado pelos primeiros pingos de uma chuva que havia sido anunciada pelo homem do tempo que agora se senta em uma grande cadeira de couro observando as sombras que passeiam pelas paredes e pelo retrato de uma menina que receberá uma notícia triste por telegrama e que terá que achar um homem que passeia com uma mala cheia de notas de 10 pratas que serão gastas em uma passagem sem volta para Honolulu onde outro homem observa a chuva que bate na janela depois de acordar de um pesadelo no qual seu filho caçula fugia de casa e era atropelado por um carro de bois, mas foi só um sonho e ele vai até o quarto do filho que de fato passeia ileso pelas ruas até se deparar com um bar aonde uma garota bebe uma taça de vinho barato e contempla o noticiário na TV que narra a estória de um senador que lavava dinheiro em um banco no Rio de Janeiro onde, neste exato minuto, um garoto vestindo uma camiseta com a imagem de Che Guevara observa: uma garota distribui panfletos ultracomunistas na Avenida Brasil.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Julia Debasse&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-3428580237710040582?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/3428580237710040582/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=3428580237710040582' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3428580237710040582'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3428580237710040582'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/avenida-brasil.html' title='AVENIDA BRASIL'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-2155443472817201382</id><published>2007-03-22T07:48:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:49:10.195-07:00</updated><title type='text'>A PARTIDA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Pedro realmente ia partir, a mala estava pronta. Em seu olhar havia o vazio de quem olha sem nada ver, ou, pelo menos, tenta ignorar o outro. Recolhia seus livros e deixava as recordações que juntos viveram. Dora, sentada à beira da cama, nada mais significava.  Ela lembrava dor e tempo perdidos num passado, que logo esqueceria nos braços da nova amada. Uma mancha no canto de seu olho, algo que desprezou. Havia um brilho de recomeço, a estranha sensação de quem diz: “Dessa vez será melhor”. O futuro lhe sorria e as lágrimas dela nada significavam; seus pedidos, suas súplicas. Ele só via o seu futuro. Passado, lembranças, era somente o que restaria para a ex-mulher. A cama onde tantas vezes fizeram amor, os travesseiros, o banheiro, a mesa de café onde tantas vezes riram e brigaram por um sentimento, um círculo de ouro jogado no chão do quarto com desprezo e nojo.&lt;br /&gt;Sala, quarto, escritório. Ele corria contra o tempo, e a esposa contra um amor não correspondido. Onde estavam as promessas, as palavras carinhosas? Dora abriu a gaveta, puxou a arma e o esperou calmamente. Se Deus os uniu, que os recebesse em seus braços agora. Pedro não esperava, a surpresa quase o matou de susto, soltou a mala e ainda debochou. Havia se esquecido da arma. Dora riu amarga, e em suas últimas palavras, um “Eu te amo”. Dois disparos e o silêncio.&lt;br /&gt;Um sonho, uma ilusão. Balançou a cabeça para vê-lo terminar a mala e, cansada de esconder a verdade, falou sem medo:&lt;br /&gt;__Estou grávida.&lt;br /&gt;Ele parou com a mala nas mãos e ficou por algum tempo no meio do quarto. Durante cinco anos de casamento sempre quiseram ter filhos, mas nunca acontecia. E por que agora, quando nada mais significava? Abraçado à mala, sentou na cama e ficou assim por quase meia hora. Pensava, lembrava de seu tempo de infância. Pegou o telefone e diante de Dora dispensou a amante. Ele levou uma semana para que esta entendesse, que ele ia ficar com a esposa, agora grávida. Claro, a amante fez escândalo, ligou muitas vezes, mas Pedro não atendia ao telefone, só Dora. Ele morreu para ela. A casa estava silenciosa, um casal perdido dentro de sua agonia, uma criança sendo gerada e o olhar vidrado do pai.&lt;br /&gt;Pedro não desfez a mala, apenas ia tirando as roupas de dentro dela à medida que precisava e a fechava com uma expressão rígida na face. O guarda-roupa continuava vazio.Era um homem de princípios, não ia abandonar um filho no mundo! Pensava na criança. No que iria sofrer, sem ter a figura do pai para lhe proteger do mundo, como um dia ele mesmo foi desprotegido. Graças a um trauma de infância, ficou ao lado da esposa, mesmo não a amando. Ainda era jovem, poderia suportar algum tempo até que a criança crescesse um pouco. O corpo ficou, mas a alma não, ela estava muito longe.&lt;br /&gt;Dora fingia o tempo todo, era como se ele nunca houvesse lançado a aliança sobre ela e lhe dito coisas tão odiosas. O viu com prazer  procurar a aliança, pôr no dedo. Pedro ficou muito caseiro e sequer falava com os amigos, estava o tempo todo ao lado da mulher. Parecia evitar o mundo. Além do portão de madeira, só havia problemas e tentações. Mudou bastante, não falava muito e até comia seu bolo de milho sem reclamar. Todos o acharam diferente, arredio. Dora o defendia e até tentou levá-lo à igreja, mas mudou de idéia ao ver o carro da amante dele pela vizinhança. Ela ainda o queria. Um mês depois e ela ainda insistia com aquele romance absurdo!&lt;br /&gt;Dora na cama notou que a mão de Pedro estava inchada. Pela manhã acordou e não o viu na cama; a aliança sobre a mesinha de cabeceira. Correu desembalada pela casa e o encontrou no portão conversando com o padeiro. Foi somente um susto, ele ainda estava ao seu lado, e iam criar seu filho, os dois juntos. Segurou o ventre sentindo uma dor aguda e caiu ao chão.&lt;br /&gt;O padeiro a juntou do chão e começou a gritar por ajuda. Ninguém apareceu do interior da casa. Sem alternativas, a tomou nos braços e a levou para dentro, enquanto ela gemia e sangrava. Pela casa, procurou o quarto e logo o achou. A visão é um dos cinco sentidos, provavelmente o mais enganoso deles. Ela lhe prega peças.Uma sombra pode ser um vulto, um vulto pode ser um homem. E um cadáver pode ser um marido fiel.&lt;br /&gt;Pedro não pôde sentir-se aliviado, e muito menos livre. Estava morto há muito tempo para sentir qualquer coisa. Seu corpo apodrecia sobre a cama há um mês. De sua mão a aliança já havia caído há muito tempo com o resto de seu dedo. O padeiro vomitou até quase morrer, e Dora continuava chamando o marido. Logo a casa ficou cheia de gente, a ambulância surgiu e levou Dora para o hospital. Ela perdeu o bebê.Naquela manhã ensolarada, naquele quarto cheio de moscas e mau cheiro, na casa, nos arredores ninguém conseguiu tomar café da manhã. Era por demais nauseante a visão do cadáver e mais ainda em imaginar Dora vivendo com ele durante todo aquele tempo. O assunto virou manchete de jornal. Dora foi internada completamente louca, pensando ainda estar grávida. A amante virou celebridade. O legista encontrou dentro de um cadáver de trinta dias, pedaços de bolo de milho.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Nazarethe Fonseca&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-2155443472817201382?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/2155443472817201382/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=2155443472817201382' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2155443472817201382'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2155443472817201382'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/partida.html' title='A PARTIDA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-3353619493466336091</id><published>2007-03-22T07:46:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:48:15.231-07:00</updated><title type='text'>OCO</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;I.&lt;br /&gt;um feto indesejável, um tumor maligno, um grito que incha até chocar-se contra o  muro do peito, os nervos, os ossos, a carne tépida, o grito de dor, de asco, de náusea querendo  retalhar a cara insossa da noite com a navalha da angústia,  lata de cerveja na mão, pálpebras pesando toneladas, chumbo, manganês, arenito, vou por entre as entrequadras, ela abriu a porta do apartamento, decidida naquela noite, adeus, desceu as escadas com a mala de roupas, cosméticos, revistas, algumas jóias, bijuterias, eu ouvindo o som do salto do sapato decrescendo, sumindo, evaporando-se embaixo da marquise, sob um céu crivado de estrelas, a lua cheia navegando entre rascunhos de nuvens, Leda, Leda, como pode partir numa noite assim, veja a Lua, maravilhosa Lua, dá até pra ver São Jorge espetando o dragão, Leda, vamos andar no parque, olhe pro céu!, não volveu a cabeça, tão decidida,  e eu pensando: não tem nenhum objetivo em mente, lugar algum aonde ir,  vai perambular pelas ruas, talvez entre num café e se arrependa em meio ao incêndio das conversas, se sentirá sozinha, à meia-noite tocará a campainha, vencida, abro os braços sem rancor, sem nenhum  laivo  de vingança, sou todo alegria, meu amor, meu amor, os olhos boiando numa poça d'água salobra, no bar, onde me refugio, o álcool, a nicotina, a coisa gosmenta inchando dentro, nas entranhas, nas entrelinhas, sufocando, ar!, o céu bonito, ornado com pencas de estrelas, eu nem devia  estar triste, me sentindo tão fodido, olha o céu coalhado de estrelas, porra!, estrelas estrelas, de que me servem? se uma ao menos caísse sobre mim, cadente, decadente, eu, só uma massa de pastel distendida sobre esta calçada suja, esburacada, aqui mesmo  a  minha  cova, a paz, o descanso eterno, sem nênias, coroas de flores, orações fúnebres sob uma garoa  gelada, você não sabe o que quer da vida, vou cuidar de mim, olha só o meu corpo, acha que vou me acabar feia e gorda assim?, peguei a lata de cerveja no congelador, geladinha, tec!, dois goles seguidos, sôfregos, procurando uma ou duas palavras para rebater os golpes vindos dela, da sua língua-metralha, onde estavam as malditas palavras?!, torpedos, lâminas, armas que ferissem de morte o inimigo, vou te deixar, está me ouvindo?, vou cuidar de mim!, a lata de cerveja secou,  a última!, restou  a saraivada de palavras me atingindo em cheio, bem na testa, bem no peito, bem bem, eu buscando duas ou três palavras que me salvassem do mutismo, do não-tenho-nada-a-dizer, merda, cinco anos de guerra conjugal e tudo acabando assim, o cara trouxe a carteira de cigarros, dois blocos de gelo no lugar dos olhos, eu poderia até gritar, crápula, não vê que estou sofrendo?, que custa botar um pouco mais de humanidade nesses olhos de capitalista infeliz, aí, o dia todo contando as moedinhas, as notas de cinco, de dez, controlando a maldita fortuna que teima em não chegar, minto?  ah, você está sofrendo? mas quem é que não sofre neste país de bosta? hein, me diz, seu imbecil!, a saraivada de palavras, o murro no balcão,  no meu peito, o cigarro atravessando o trecho turvo, a vida breu, o corpo-nau  sem vontade de atracar, chegar a lugar algum, o sítio arqueológico da utopia, da felicidade, e ela deve estar tranqüila agora, sentindo-se livre, uma nova mulher, um horizonte inteiro à sua frente, me esconjurando, me pondo lá embaixo, no limbo, não vale nada, perdi uma boa parte da minha vida com aquele traste, e eu nem por perto para me defender, colocar o pingo nos is, repartir eqüitativamente os débitos desse caso, o condomínio atrasado, o aluguel prestes a vencer, os sonhos falidos, o cigarro e a lata de cerveja varando a penumbra, sem Cruzeiro do Sul, sem alma, na lama, indo indo, sob escombros, descendo escadas até o centro do nada, o quase-inferno, mendigos revirando contêineres à procura de restos de comida, dando risadas, bêbados bêbados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II.&lt;br /&gt;a palavra descarnada é tudo o que me resta, faca cega, prego rombudo, e não há mais aquela noite tão decantada páginas atrás, a lua navegando entre rascunhos de nuvens, pencas de estrelas, resta o dia claro, duro, cínico com o seus contêineres alimentando a fome dos mendigos, resta a lógica louca do cotidiano, automóveis, celulares, resta, pensa que vou voltar, que não sei pra onde vou?, duvidei, e ainda agora espero, nem posso crer que tenha realmente tomado um rumo definitivo, que tenha traçado, ao final da guerra, um novo mapa no qual não figuro em ponto algum, vou riscar você do meu mapa, falo sério, e eu nem cri, depois de tantas brigas, tanto vou-sair-por-aquela-porta-e-não-volto-mais, pensei, puro blefe, ela sai, mas amanhã estará de volta, o amor renasce em dobro, varamos a noite transando, recuperados os gemidos de antanho, o gozo, a carne rejuvenescida após tanta carnificina do espírito, Leda, a ferrugem corroeu o sentido nupcial do nosso amor, lembra?, a essência, o equilíbrio acima de tudo, sem ternura, jamais!,  deveríamos ter chegado ao extremo de selar esse pacto com sangue? o bar onde me refugio, fumaça, cerveja, o cara de olhos gelados esperando a fortuna matreira, ingrata, tanta dedicação assim merece uma recompensa, das nove da manhã à meia noite, senão mais, agüentando toda espécie  de  bêbado,  ela  simplesmente  abriu  a porta e se foi, entende, cara?, se foi!, e já se passaram três semanas, nem mesmo um telefonema, o que você acha, hein? já arranjou outro, não estou certo?, ele ouvindo, ou fingindo ouvir, cera nos ouvidos, gelo nos olhos, é o seu escudo contra essa merda toda de sofrimento, de corneação, dia seco, a ternura por um fio, resolvi andar no parque da cidade, sem lua, sem nada, fazer uma longa caminhada, mais com a esperança de dar de testa com Leda do que manter a forma, oi, mas que coincidência, pois é, como vão as coisas?, bem, bem, nem uma ruga de sofrimento no rosto dela, sinal de que a liberdade  está lhe fazendo muito bem, vejo que  rejuvenesceu, quanto mal eu lhe fazia!, parece tão feliz, pluf!, a nuvem nefasta se evapora, estou sozinho na pista, loucura pensar que a encontraria aqui, no domingo, no Eixão, a caminhada solitária sob sol intenso, entre patins e bicicletas, nada, nada, a mesma busca em vão, a mesma bosta de esperança,  loucura pensar que a encontraria aqui também, neste exato momento, talvez malhe em alguma academia, ou relaxe num spa, quiçá esteja num motel, numa banheira de hidromassagem, os pés tocando a carne morna de outro homem, canalha! canalha!, filho, esquece, esquece essa mulher, esquece tudo, comece do zero, você precisa é se encontrar, saber da tua alma, um artista sem alma é nulo, essa mulher só te fez mal, nunca te deu segurança, mãe, mãe, isso é implicância de sogra, a voz materna migrando de algum ponto da cidade até os meus ouvidos, andando comigo no parque, entre patins, malhas, óculos escuros, entrando comigo em todos os inferninhos, mosca maldita zunindo dentro do meu ouvido, resvalando entre o martelo, a bigorna e o estribo, a Leda não  sabe  o que quer e você, ah, meu filho, você precisa se decidir, encontrar o seu rumo, o seu estilo, quer ser como o seu pai, que não foi além das obras dos outros? tocando sempre a música alheia, poderia ter sido um excelente compositor, ter ousado, mas, peço-lhe que  deixe a alma do meu pai descansar em paz com seu saxofone, entre querubins e arcanjos, ou no inferno, talvez, tocando blues, papeando com Robert Johnson nalguma encruzilhada em chamas, felizes à beça, Me and the Devil was walking side by side, o velho músico que viveu só para as músicas de Pixinguinha, de Cartola e para o blues, o blues, compreende, filho? não há nada mais belo que isso, mais nervo exposto, me apresentando a essa dor ancestral ali, na sacada do apartamento, terceiro andar, um pôr do sol sangüíneo, lindo lindo, os lábios grossos do meu pai em torno da embocadura do instrumento, vibrando a palheta, as bochechas infladas, lembrando um pouco Gillespie, quase chorei quando a música  penetrou sofrida os meus ouvidos, e dali em diante nunca mais fui o mesmo, avanço para a tela, o pincel ensaia um movimento febril, nervoso, pinceladas furiosas no branco, o vermelho insurgindo-se na vertical e na horizontal, um grito violento, insano, mas me contenho, o suor marejando na testa, recuo até a parede, acuado, caio de joelhos, derrotado, um penitente, abandono a paleta sobre o piso, tudo não passaria de gestos inúteis, repetição, repetição de  experiências estéticas cujo sentido ultrapassa os horizontes da arte,  e o meu gesto não alcançaria nem um terço da essência dos gestos paranóicos, angustiados de Van Gogh, ergo-me decidido, o ego à míngua, mas  algo precisa ser feito, urgente, me castrar? me silenciar definitivamente? avanço e  esmurro  a  tela,  vazo-a com a fúria da mão, a lâmina-mão, oca, violentada,  o não-ocre, o não-verde, recuo, o suor goteja da  testa, a camiseta ensopada, miro a tela, o oco, a obra está pronta, o conceito, a dor expressa com sinceridade, extrema, mas ainda não é isso, merda, merda, e Leda, no limiar da porta, voltou-se e lançou sobre mim um olhar que até agora não sei se era de desprezo ou piedade.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por  Geraldo Lima&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-3353619493466336091?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/3353619493466336091/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=3353619493466336091' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3353619493466336091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3353619493466336091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/oco.html' title='OCO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-8312127458429272231</id><published>2007-03-22T07:45:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:46:54.874-07:00</updated><title type='text'>CATRÂMBIAS!  ( FRAGMENTO )</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;               &lt;br /&gt;Filho o-don-to-lo-gis-ta está chegando apre pobre-diabo azamboado aquele pensa que velhustra dissimulada aqui hã estrabuleguice só hã pensa que não posso catrâmbias! responder por minha própria existência eh-eh simulações à maneira de Ulisses Hamlet Tristão quejandos.&lt;br /&gt;  Apre arre lá! quero de jeito nenhum excitar compaixão eh-eh deixa sua mãe zuruó-zoropitó aqui quietinha no pátio andando aos emboléus deixa filho deixa; huifa nham nham nham ploft gosto do estalejar delas  jabuticabas no céu da boca; AH VOCÊ ESTÁ VENDO SÓ DO JEITO QUE EU FIQUEI E QUE TUDO FICOU UMA TRISTEZA TÃO GRANDE NAS COISAS MAIS SIMPLES QUE VOCÊ TOCOU; huumm eh-eh nham nham nham ploft; apre filho abre mão delas comiserações catrâmbias! mamãe de cachimônia azarotada aqui carece de palavras comiserativas neca neres não senhor de jeito nenhum; A NOSSA CASA QUERIDO ESTAVA ACOSTUMADA GUARDANDO VOCÊ AS FLORES NA JANELA SORRIAM CANTAVAM POR CAUSA DE VOCÊ; huumm eh-eh nham nham nham ploft gosto do estrompido delas jabuticabas no céu da boca; pode sim meu filho a-hã senta aqui comigo no banquinho de madeira aúpa eh-eh desde sempre fiz isso hã desde quando você hã menino ainda puh afaluado que só vendo fiau! mamãe azarotada aqui levantava zás-trás bruscamente ixe filhinho catrapus! rabiosque no chão; sim querido você cresceu aie tempo passa a furta-passo a-hã aniversário mês que vem a-hã quarenta e dois anos; mãe cafangosa aqui hã trancos-barrancos mas diacho conseguiu realizar sonho dele seu avô huifa neto dele huifa odontologista huumm o-don-to-lo-gis-ta huummm gostoso soletrar palavra sonora-bonita deste naipe nham nham nham depois de jabuticaba gostosa ploft no céu da boca; OLHE MEU BEM NUNCA MAIS NOS DEIXE POR FAVOR SOMOS A VIDA E O SONHO NÓS SOMOS O AMOR; a-hã sim bem lembrado querido a-hã bicheiro; seu avô era contraventor; mas esta palavra xô nem pensar hã pronunciada vez em quando muito raramente à capucha pelos cantos da casa; mamãe me dizia tempo todo ad nauseam: seu pai é ban-quei-ro; nham nham nham gosto do som crepitoso delas jabuticabas ploft no céu da boca; ENTRE MEU BEM POR FAVOR NÃO DEIXA O MUNDO MAL LHE LEVAR OUTRA VEZ ME ABRACE SIMPLESMENTE NÃO FALE NÃO LEMBRE NÃO CHORE MEU BEM; arre lá! este nome nunca-jamais apre fúfio aquele cometeu cafrice imperdoável tau! três tiros nele próprio sogro aie hã genro-meu-cunhado-seu aquele puh candeia às avessas com ele deus-preservação ixe descende do anhanga em linha direta; nham nham nham gosto da estalejadura delas jabuticabas ploft no céu da boca; enfermeiro-régulo badalhoco (ozostomia daquelas) ali veja a-hã balandrau aquele fiau! aspereza de palavra em figura de gente puh sujeitinho díscolo apre tempo todo dia inteiro aie atroçoando dedos meus deles internos todos hã camunguengue cheio delas reverências-mesuras falsas puf pego nunca mais na mão dele xô nunca mais hã ao invés de sapatos brancos macios deveria catrâmbias! calçar cáligas ferradas feito eles soldados romanos; aie olhar tabífico dele puh; AH VOCÊ ESTÁ VENDO SÓ DO JEITO QUE EU FIQUEI; nham nham nham ploft; veja querido ah ah ah a-hã último dente molar inferior fu! bodum cabrum daqueles arre melhor fechar a boca ixe quando me olho nele espelho puh vejo o próprio grylle eh-eh imagem da loucura humana; hã hãhã hã hãhãhã hã-hã hã hãhãhã; A NOSSA CASA QUERIDO JÁ ESTAVA ACOSTUMADA GUARDANDO VOCÊ; doutor-científico-enfatuado hã desde sempre fazendo dum argueiro um cavaleiro eh-eh veja belfudo champrudo fogolô ali a-hã ele mesmo hã médico aquele falou que sua mãe-zuruó aqui vai ficar ainda muito tempo nesta cacimba anômala eh-eh doutor-científico-enfatuado diz a flux: ca-cim-ba a-nô-ma-la eh-eh; prefiro dizer alto-bom-som Stultifera Navis a-hã concordo aie horto de estrabuleguices; gosto delas jabuticabas nham nham nham ploft huifa mundo lá fora arre lá! igual eles meus dentes fu! bodum cabrum daqueles; plus ça change, plus ceste la même chose; chora não meu filho vem senta aqui aúpa eh-eh peguei brocoió outra vez; AS FLORES NA JANELA SORRIAM CANTAVAM POR CAUSA DE VOCÊ; a-hã sim entendi: sua-irmã-minha-filha foi visitar marido pantafaçudo nele presídio fiau! nunca gostei de jeito nenhum daquele sujeitinho perrengue petreco duma figa hã vida toda êmulo dele meu pai con-tra-ven-tor eh-eh; homem-limícola; ser-incônscio; sim querido você tem razão: vida toda bruega aquele gluglu laco-paco garganta abaixo; nham nham nham ploft gosto do estalido delas jabuticabas no céu da boca; oi querida a-hã meu filho eh-eh vem bobinha vem pode beijar huifa; OLHE MEU BEM NUNCA MAIS NOS DEIXE POR FAVOR; sim querido entendi a-hã você falou pra ele doutor-científico-enfatuado que ela-eu sua mãe não pode ficar sem Isordil dentro dela pochete aqui a-hã coração de repente cachapuz! hã comprimido minúsculo zás-trás debaixo da língua; ontem aie sonho digamos boscheano ixe vi centenas delas esfinges com élitros de besouros; moça bonita quarto vizinho semana passada ixe mundo pra infeliz apre entojo só hã esplim daqueles gluglu veneno de rato vruummm sofreu eclipse; quem gosta de jabuticaba feito sua mãe-zoropitó aqui nunca-jamais zape! cortar teia da própria vida nham nham nham ploft ainda não descobri diacho se ela jabuticaba é fruta eupéptica; curioso lembrar agora dos tempos em que jovem ainda estudava em Paris; a-hã ele meu-pai-seu-avô queria que filha huifa diplomata de carreira puh burros nágua: jamais on ne vient a bout dune mauvaise nature; nham nham nham ploft gosto de ouvir o estrépito delas jabuticabas no céu da boca; SOMOS A VIDA E O SONHO NÓS SOMOS O AMOR; veja cambanganza ali andando a trouxe-mouxe a-hã ela mesma apre minha-amiga-companheira-de-quarto aquela ixe filha jovenzinha dezenove vinte se tanto vruummm décimo-nono andar hã trapuz! aie parentela toda amigos todos hã esparavonados que só vendo ixe espetáculo desolador apre digo-repito quem gosta de jabuticaba feito sua mãe-zoropitó aqui nunca-jamais zape! cortar teia da própria vida nham nham nham ploft; a-hã entendi: filhinho precisa ir a-hã aliviar o ventre eh-eh fica desconsertado não brocoió ih mãe zuruó-zoropitó aqui ixe limpou rabiosque do menino aí montão de vezes fu! perdi a conta; pobrezinho apre mesmo depois de adulto continua sendo adolescente hebefrênico; aconteceria nunca-jamais comigo aquilo que aconteceu com ele Quirão um dos sete sábios  que morreu de alegria ao abraçar o filho vencedor dos jogos olímpicos; ENTRE MEU BEM POR FAVOR NÃO DEIXE O MUNDO MAL LHE LEVAR OUTRA VEZ ME ABRACE SIMPLESMENTE NÃO FALE NÃO LEMBRE NÃO CHORE MEU BEM.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Filho azamboado aquele pôs os pés em polvorosa hã pobre-diabo digo repito pensa que velha dissimulada aqui hã estrabuleguice só hã pensa que não posso catrâmbias! responder por minha própria existência; simulações à maneira de Ulisses Hamlet Tristão quejandos; trompre-loeil; internamento voluntário; hoje aqui levando ao pé da letra lema epicurista lathe biosas hã viver oculto; endrômina marralhice tratantada pra fugir dela insipidez cotidiana; vida toda apre impossibilidades aos potes; também diacho nem todos têm o privilégio de conhecer feito ele Teodoro o Palácio dos Destinos huifa em que cada andar é um mundo possível; agora huifa guardar clausura perpétua nesta Bastilha vesânica; sinto-me bem melhor diante deles todos aí eh-eh pantomimistas das supostas razões; seres de juízos aparentemente prepósteros; aqui estou encontrando aos poucos minha ipseidade; agora apre preciso adquirir um self coisa nenhuma hã me preocupar com ele lúmen rationale da razão qual nada; vida puh desde sempre fértil em espinhos ervas daninhas que tais; um dégradé de desesperanças; tempo todo ixe redambalando nas incertezas; ser alógeno; gota dágua foi esta marca da cruz recortada aqui na cabeça hã cabeleireiro aquele ficou estupidificado; mas fez feito os tutumumbucas faziam no século XII com eles azamboados-azaranzados de todos os naipes; fingir loucura huummm doce insanidade; parentela toda amigos vizinhos médicos enfermeiras fiau! acham que cérebro da patranheira aqui ixe desmontado hã sem mola engrenagem inteirinha neca neres coisa nenhuma; melhor assim puh mundo lá fora fu! lucidez putrilágica; nham nham nham ploft eh-eh nesta arte de estalejar jabuticabas existe de jeito nenhum alguém mais sophos do que esta matrafona aqui.         &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Huummm vontade súbita de ouvir Judy Garland cantando Over The Rainbow.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Entendi querida a-hã: enfermeira recém-chegada aquela de rabiosque saliente tempo todo andando em bolandas olha pra-você-pra-mim-todos-nós-interrnos com nojo fu! a-hã entendi: você sente-se coberta por apóstemas; bobagem meu bem arre lá! impressão sua puh enfermeira cafangosa liliputiana aquela de fricandó arrebitado aie vive de candeia às avessas com tudo-todos hã pudera diacho veja ixe cambaia zanaga feito ele Quasímodo eh-eh; obrigada quiabo fu! quero não de jeito nenhum apre carne de porco nem pensar hã sou lipófila a-hã também gosto delas batatas assadas huifa nham nham nham huummm cenoura crua nham nham nham  huummm colesterolítico.     &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Sim senhora estou sim atafulhada fiau! exagerei no almoço ixe jabuticabas abriram meu apetite parece sei não eh-eh; doutorzinha- candorosa-de-olhos-amendoados aquela huummm prata sem liga pomba sem fel.  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Gostoso sentar neste banco escamurrengado vis-à-vis dela jabuticabeira neca neres preocupação nenhuma com eles exempli gratia movimentos tropísmicos dos insetos eh-eh; mulher-umbrícola sou sim; vida apre frágil feito jabuticabas ali ixe de repente infarto chega a furta-passo ploft; curioso lembrar agora dele sujeito clunâmbulo aquele hã vivia deitado na calçada pertinho de casa aie dantesca cena aquela puh homem-meio-corpo-quase-sempre-bêbado sobre carrinho de rolimã dizendo palavrões de foz em fora; céu diáfano ixe diacho consigo de jeito nenhum acreditar nele Deus mas mutatis mutandis recíproca eh-eh certamente verdadeira; gostoso olhar horas seguidas pra essa abastança delas jabuticabas; mas felicidade completa é deixar vez em quando tablete mínimo de chocolate suíço ehu! dissolver lentamente no céu da boca ao som de She Was Too Good To Me via-voz-chet-bakeriana; huummm súbito saudade deles quatro anos aqueles em que todo sábado à tarde recostava-me na poltrona 14 da fila “A” do balcão superior daquela sala de espetáculos cuja acústica huummm inexcedível huifa abluída delas máculas-e-imperfeições; genro aldrabão-sambanga (que convenhamos nunca levou uma vida de ascese) vivia dizendo alto-bom-som: estrompa aqui agüentaria de jeito nenhum sessenta/noventa minutos seguidos de som sonífero à base de violinos harpas quejandos; catrâmbias! arrufianado aquele neca neres atingirá nunca-jamais o Nirvana ouvindo-ao-vivo ela Nona de Beethoven exempli gratia; curioso lembrar agora dele amor aquele de juventude cuja morte prematura do rapaz levou consigo a outra metade dela nossa téssera; saudade súbita deles filhos pequenos embarafustando sala adentro gritando mãe queremos sanduíche de pão de queijo com goiabada; sim doutora-candorosa-de-olhos-amendoados a-hã pode sentar aqui comigo neste banco escamurrengado; a-hã entendi: doutora trouxe outro questionário-passatempo pra ela tarde tartarugosa abolorecida vruummm ir de escantilhão; sim senhora estou pronta pra morder a isca:&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;                O que é a esperança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os desde sempre confiosos (entre os quais sinto-me exclusa eh-eh sofro de acloroblepsia: sou incapaz de distinguir o verde) ela esperança é como as cabeças dela Hidra de Lerna huifa renascem assim que são cortadas. &lt;br /&gt;                E Deus?&lt;br /&gt;Invenção de Abraão talvez hã sou ímpia feito ele Zaratustra.&lt;br /&gt;                E o medo?&lt;br /&gt;Estado aflitivo que me acompanha ab aeterno.&lt;br /&gt;                O que é a loucura?    &lt;br /&gt;Instinto básico de resistência à dor&lt;br /&gt;                E o dinheiro?&lt;br /&gt;O comprimento a largura o alfa ômega da vida mas diacho não é suficiente pra conchavar-se com ele (toc toc toc) rigor mortis.&lt;br /&gt;                E a burrice?&lt;br /&gt;Anafrodisíaca.&lt;br /&gt;                E o futuro?&lt;br /&gt;Onde os tirésias pítias pitonisas que tais vivem o presente.&lt;br /&gt;                E a traição?&lt;br /&gt;Não há eufemismo que atenue                                                  &lt;br /&gt;                E o nonsense? o que é o nonsense?&lt;br /&gt;Ah doutora-candorosa-de-olhos-amendoados ixe curioso lembrar agora dele Rousseau que casou-se com uma mulher pobre feia ignorante desdentada.&lt;br /&gt;                E a juventude? Fan-out.&lt;br /&gt;                E a velhice?                                         &lt;br /&gt;Blackout.      &lt;br /&gt;                E a superstição?&lt;br /&gt;Ah doutora prefiro saltar esta que é curiosamente a pergunta de número 13.   &lt;br /&gt;                 O que é a felicidade?&lt;br /&gt;Fogo-fátuo.   &lt;br /&gt;                E o destino?&lt;br /&gt;Catrâmbias! sei não doutora; mas certamente não é algo que se acepilha com uma plaina.&lt;br /&gt;                E a dor?&lt;br /&gt;O ganhão-pão do anestesista.&lt;br /&gt;                E o sucesso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Emanações-eflúvios delas nossas mentes enfatuadas.&lt;br /&gt;                E a audácia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desdenhar do nec plus ultra herculano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a caridade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desconceitua o malthusianismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a morte?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah doutora-candorosa-de-olhos-amendoados ixe já estive perto deles últimos arquejos aie ela (toc toc toc) morte chega modo geral travestida de purgativo à la óleo de rícino invisível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                O que é o anonimato?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fama cabisbaixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a calúnia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um sussurro cancerígeno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a valentia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fanfarrice do medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E as dívidas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São os pródomos da gastrite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o pessimista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É aquele que perde por esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a intolerância?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou intransigente com os intolerantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o nosso planeta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tem convenhamos tanta importância assim apre mais cedo mais tarde eh-eh vamos todos deixá-lo para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o amor? o grande amor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o rochedo de Sísifo da humanidade quase toda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a morbidez? o que é a morbidez?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curioso lembrar agora de minha extinta tia solteirona que ficava exultante lépida trêfega ao participar décadas seguidas de quase todos os préstitos fúnebres da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a vida?&lt;br /&gt;Um epigrama de mal gosto se considerarmos que ela fatalmente desemboca na morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a religião?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ímã fanatizador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a subserviência? o que é a subserviência?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vera-efígie da pequenez humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o casamento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imolação dostoievskiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o livro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bom livro me faz emergir do torpor do tédio dela minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a poligamia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah doutora-candorosa-de-olhos-amendoados huifa curioso lembrar agora da cidade ideal de Platão&lt;br /&gt;eh-eh onde todas as mulheres são esposas comuns de todos os homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o suicídio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assassinato narcíseo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o envelhecimento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Criei outro dia palavra-contígua pra definir esse estado declinante do ser humano hã VELHICE-DANAIDES: envelhecer é encher sem fim nossos tonéis de saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o ódio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apre doutora ele o ódio ixe tem a peremptoriedade da epígrafe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a adolescência?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não saberia definir; sei diacho que pais de adolescentes fiau! não morrem de tédio hã são pára-quedistas cujos pára-quedas teimam em não se abrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a justiça?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cega; no mau sentido.               &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                Limites? O que é ter limites?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei doutora; não sei; mas é convenhamos sem tom nem som confundir ter limites com ser limitado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a metafísica?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na última das hipóteses responsável pela perpetuidade dela palavra INCOGNOSCÍVEL.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o místico?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que sente cócegas na alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a natureza?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah doutora-candorosa-de-olhos-amendoados apre toda vez que me surpreendo diante dele cedro ou carvalho ou teixo ou plátano ou tília por exemplo puh pressinto que provoco nelas árvores centenárias todas um desdenhoso dar de ombros hã também pudera diacho tais seres arboriformes têm por assim dizer consciência da efemeridade do gênero humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o saudosista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Proclama alto-bom-som a inabitabilidade do agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o Purgatório? o que é o Purgatório?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bairro-dormitório estratosférico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o Inferno?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o Et nunc et semper de todos nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o Céu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfadonhamente perfeito talvez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E a sabedoria? o que é a sabedoria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Difícil saber doutora; mas sei o bastante pra desconfiar de quem pensa que sabe bastante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o sexo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dum vivimus, vivamus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o sofrimento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pós-graduação vivencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o pecado?                                &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah se esta velha angurriada aqui tivesse poder digamos bíblico colocaria muitos outros ítens no índex pecaminoso pra ela nossa existência ficar eh-eh mais excitante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                E o vencedor? o que é o vencedor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei não doutora hã sei não apre sou Júlio César versão feminina às avessas: vim, vi, perdi. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Evandro Affonso Ferreira&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;  &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-8312127458429272231?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/8312127458429272231/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=8312127458429272231' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/8312127458429272231'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/8312127458429272231'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/catrmbias-fragmento.html' title='CATRÂMBIAS!  ( FRAGMENTO )'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-7756162800568876873</id><published>2007-03-22T07:43:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:45:00.232-07:00</updated><title type='text'>AVAREZA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Hoje direi que ele é sempre bruto comigo, amanhã que estou com uma dor de cabeça pontiaguda, depois resmungarei que minhas costas doem feito tábuas empilhadas, então estarei estressada como nunca, virá a TPM ou para ser mais precisa um mau humor de cão que me empresta um certo charme de deusa-louca-feiticeira; finalmente, ficarei menstruada, o que me dará mais alguns dias, direi até, só para irritá-lo, uns bons 7 dias. As notícias do jornal me deixarão deprimida (por que não?), a comida cheia de temperos da mãe dele me fará mal, ficarei sensível porque briguei inutilmente com o cachorro que solta pêlos em excesso, minha unha preferida quebrará assim do nada, a ex-namorada dele me tirará do sério, terei um inexplicável dia daqueles, a lavanderia sei-lá-o-quê, o supermercado não-sei-o-que-lá, e assim por diante, desculpas para mantê-lo afastado nunca me faltarão.&lt;br /&gt;O fato é que não quero dar, ele não vai me comer, não vai tirar nem uma lasquinha minha. Não vou dar porque não vai dar e ponto final! Nem que eu tenha que.... o porteiro toca desagradável interrompendo meus pensamentos tiranos. Visto toda a meiguice do mundo para recebê-lo.&lt;br /&gt;- Oi, meu amor lindo, tudo bem? Ai, que saudade... pensava em você agora mesmo…&lt;br /&gt;- Ele dá um amasso forte para que eu possa sentir todos os seus pêlos incontáveis e se inclina para me beijar. Entro fundo em seu perfume égoiste que adoro, mas sou forte, ele não vai conseguir chegar lá, aliás não vai conseguir chegar nem perto! Viro levemente a face e pergunto mandona o que ele trouxe para o jantar.&lt;br /&gt;- Sushi, sashimi, saquê e de sobremesa huramaki de chocolate com sorvete. E não esqueci disso, olha só que picante para o meu docinho!&lt;br /&gt;Ele me mostra, entusiasmado, o tubo de raiz forte. Ahhhhhhhh, eu fico louca com raiz forte. Aproximo o nariz e é tão, tão penetrante, que uma lágrima corre feliz para a minha saboneteira direita. Ele chega com a língua para resgatá-la mas sou mais rápida, com o dedo a entrego sã e salva para o vão dos lábios. Ele acha graça e supõe que eu quero instigá-lo. Tadinho! Mas não é que ele acertou bem na mosca! Quem disse que os homens não têm intuição?&lt;br /&gt;- Ai, que vontade... digo com sentido dúbio para provocá-lo, mas só penso em comer o atum cortado fininho com muita raiz forte, que passo como manteiga, mergulho no shoyu e nhac-nhac.&lt;br /&gt;- Também estou morrendo de vontade…&lt;br /&gt;Se eu disser ninguém acredita, mas este ridículo fala a frase acima encostando a língua na minha orelha, assim de levinho, e sussurrando cada letrinha. Quanta petulância! Pois pode fazer de novo que não tem trégua! Pode fazer mil vezes! UM MILHÃO SE ASSIM PREFERIR!!!&lt;br /&gt;Pensando bem, melhor não. Acho mais prudente não arriscar. Vai que eu me entrego sem querer? Definitivamente, nada pode ser pior que isso, nada pode ser pior do que sucumbir por fraqueza.&lt;br /&gt;Livro minha orelha de qualquer resto de desejo, girando o corpo disfarçadamente, e coloco o nosso jantar na mesinha da sala. Sentamos sobre o tapete, eu encostada no sofá de frente pra ele. A saia de feltro vermelho incendeia minhas pernas sutilmente abertas para que ele veja, não com facilidade, a calcinha branca transparente bordada com singelas florzinhas do campo.&lt;br /&gt;Assim que percebe a abertura (quase instantaneamente), mira sagaz para o meio das minhas coxas. Enquanto mastigo o peixinho dente a dente, ele diz que a comida está deliciosa, mas veja só, ele ainda não experimentou nada...e nem vai. Vidrado na calcinha, acompanha o movimento da minha boca. Prefiro não explicar como para evitar de matá-lo de vergonha.&lt;br /&gt;Pego o hashi pingando shoyu e espeto um pouquinho de wassabe na ponta. Passo a pasta verde pelo lado de dentro do braço esquerdo dele e lambo sutil o traçado que contorna a tatuagem de luminária parisiense. Assim que chego lá, ele tenta pôr as mãos em meus cabelos. Levanto a cabeça jogando os cabelos para trás e pego mais um sashimi. Fingindo bem-estar ele serve o saquê. Coloca sal no cantinho e oferece a bebida cheio de intenções segurando o recipiente com as duas mãos grandes, bastante másculas e decididas. Encosto a boca no sal e, propositadamente, babo um pouco. Ele pensa que é uma espécie de deixa e vem impetuoso em minha direção escondendo a mão direita na parte interna da minha coxa, mas eu seco os lábios com a palma e coloco o hashi entre seus dedos atrevidos.&lt;br /&gt;- Será que você já aprendeu a usar direitinho o hashi? Porque da última vez você não conseguiu segurar nem um inofensivo peixinho morto!&lt;br /&gt;- Olha só que tonta, fazendo pouco de mim. Eu só vou deixar pra lá porque você é muito gostosa.&lt;br /&gt;Abro um pouco mais as pernas agradecendo o elogio e mando um beijo pra ele estalando os lábios - tão bobinho o meu gatinho, nhu-nhu-nhu!&lt;br /&gt;- Aliás, hoje você está especialmente deliciosa, e eu estou perdendo a cabeça!&lt;br /&gt;- É mesmo? Quanto?, digo demonstrando interesse zero.&lt;br /&gt;- Muito, muito, muito. Quer ver?, ele indaga, aflito.&lt;br /&gt;- Não! Agora eu quero a sobremesa!, peço determinada.&lt;br /&gt;- Tudo o que você quiser… Come que eu como depois.&lt;br /&gt;Ele me dá o huramaki com uma colher, mas eu dispenso. Vou comer com as mãos porque quero ser provocante e também porque o sorvete está derretendo como estou eu por dentro. Um pingo de chocolate começa a escapar dos meus dedos para o abdômen, mas eu consigo detê-lo. Chupo o dedo médio.&lt;br /&gt;- Nãaoooooooooo!, ele grita em desespero, deixa que eu faço essa delicadeza pra você, deixa eu lamber a sua barriguinha!&lt;br /&gt;Delicio-me ainda mais, não com o doce, mas com o semblante de “pidão” descarado dele.&lt;br /&gt;- Como você é mesquinha!, ele diz quase com dor no coração.&lt;br /&gt;Olho para os seus olhinhos negros que refletem uma megera de varinha de condão e chupo o dedo mais uma vez, mais uma longa e interminável vez. Pisco vagarosamente, depois olho fixo para ele, pisco de novo e quase perco meu pulso num seqüestro violento.&lt;br /&gt;- Me solta, deixa eu terminar de comer em paz!, reclamo com razão.&lt;br /&gt;- Não, cansei da brincadeira, não tem mais sorvete, você já comeu bastante, agora quem vai comer sou eu!&lt;br /&gt;Ele arranca o huramaki da minha mão, pula para o outro lado da mesinha e começa a passar a mão sobre a minha blusa branca, tão branca e pura que o reflexo quase o transforma num boneco de papel. E o meu bonequinho cheio de energia insiste em me beijar à força, quer me ter toda, mas, como experiente domadora, viro o rosto obrigando-o a parar.&lt;br /&gt;- Você é que vai parar e agora! – ele põe toda a macheza da voz tentando me inibir. Segura meu rosto com a mão, com a outra puxa meu corpo para bem perto e me beija fortemente enquanto arrebenta meu sutiã. Mordo a língua dura até sentir a temperatura agradável do seu sangue.&lt;br /&gt;- Que merda! Você nunca quer transar comigo, só fica me provocando! Qual é a sua? Quer que eu perca a razão?&lt;br /&gt;- Pááááraaaa!!!!, grito encarnando rapidamente uma carpideira – é claro que eu não quero transar, não vê que você me machucou toda, você é um monstro, nunca pensei que você fosse cafajeste desse jeito! Você é um típico homem das cavernas, machista, você é um animal, não consegue controlar seus instintos primitivos nem na hora do jantar! Ele me olha assustado não reconhecendo os seus atos. No fundo é um bom garoto, eu sei disso, ele relutou muito, se segurou muito antes de explodir. O problema é que eu não sou uma boa garota! Olho para o chão fingindo medo enquanto ouço a defesa.&lt;br /&gt;- Se eu sou isso tudo que você disse, você é uma super vaca-vagabunda! Se veste desse jeito, abre as pernas pra mim, me provoca o tempo inteiro e quer que eu faça o quê? Fique olhando pro teto? Eu não sou um homem de ferro, ENTENDEU?&lt;br /&gt;Vejo que é chegada a hora da despedida, não vou ficar aturando um marmanjo deste tamanho tendo chilique do meu lado.&lt;br /&gt;- Não, não entendi nada! Só sei que você é um tosco-cabeludo-asqueroso, VAI EMBORA DAQUI AGORA!&lt;br /&gt;Choro sentada no sofá. Ele está puto e sei que olha pra mim pesando os prós e contras da sua atitude. Deve estar pensando que eu estou de TPM, em como sou sensível, que ele não soube sentir o meu momento e blá blá blá, coisas de mulher que o homem contemporâneo é obrigado a entender se não quiser ficar deslocado. Respira fundo, senta no pufe, pega carinhoso em minhas mãos e pede desculpas.&lt;br /&gt;- Não fica assim, você tem razão, eu sou um bruto. Como pude ser tão violento? É que você me deixa louco, olha só pra você com esta sainha, com este jeitinho, com esta blusinha. Me perdoa? Olha pra mim vai, me perdoa de verdade… por favor…eu te amo…&lt;br /&gt;Com dissimulada timidez balanço a cabeça afirmativamente.&lt;br /&gt;Ahhhhh, estou tão feliz por dentro! Mais uma batalha vencida! Ele não conseguiu nada de mim! Não teve nem um gostinho! Ninguém tira nada de mim!&lt;br /&gt;Faço cara de santa e me despeço.&lt;br /&gt;- Tudo bem, pode ir embora, eu também te amo e pode deixar que vou ficar bem (você nem imagina como...)&lt;br /&gt;Esmago um beijo em seu rosto bem barbeado e fecho a porta antes do elevador chegar. Vai que ele muda de idéia e resolve ficar mais um tempinho comigo até eu me acalmar? Pego o hashi, o wassabe e vou correndo para o meu refúgio secreto que só eu conheço, só só só meu. Hoje vou ter uma noite e tanto!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Mara Liz&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-7756162800568876873?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/7756162800568876873/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=7756162800568876873' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7756162800568876873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7756162800568876873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/avareza.html' title='AVAREZA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-6636238792703352828</id><published>2007-03-22T07:41:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:43:15.869-07:00</updated><title type='text'>FESTA DE GENTE GRANDE</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Vinha o ganso, vinha a anta, vinha o namorado. Todos de carreirinha e se punham a olhar.&lt;br /&gt;Ágata inventa histórias enquanto trança folhas e faz engates de flores e hastes.&lt;br /&gt;Minha prima é muito criativa. Conta histórias esquisitas e compõe aqueles mínimos encantos, construídos de folha e flor. — Trouxe uma lembrancinha — dizia, estendendo o presente. Não escolhia as pessoas. Ia dando aqui e ali, do dentista até a diarista e até mesmo para mim, seu primo distante. Sempre colecionei os presentes de Ágata com um certo fervor e com o mesmo fervor ouvia as suas histórias.&lt;br /&gt;Elas começavam simples. Era aos poucos que se tornavam dramáticas e sujas. Isto porque vinha a anta, o ganso e aquele namorado que era capaz de horrores. O ganso e a anta mal possuíam sentido, porém, o namorado era capaz de amar e de matar.&lt;br /&gt;Ágata me visita regularmente. Traz caldo verde e um cesto com pães, que diz recém-assados. Também sempre tem alguma coisa para beber e daí para começar a festa é um passo bem pequeno.&lt;br /&gt;Nossa família é grande. Moramos todos nesta mansão inteira branca, cheia de quartos, escadas, corredores e desvãos. Ágata ocupa o quarto em frente ao meu, o que nos aproxima. Todas as noites fazemos festas. Ela fica lendo contos policiais e de repente lá vêm com suas histórias. Vinha a anta, vinha o ganso e mais o macaco e o namorado. Todos de carreirinha. Cheia de imaginação inventa mais e mais personagens. O macaco era até novidade, mas o namorado é que sempre se convertia no vilão principal. Ele era perverso. — Por culpa dele nunca mais peguei em meus gatos e em minhas bonecas — explicava. — Ele era imundo. Pegou em minhas mãos e elas se tornaram horríveis- Ágata vive com as mãos recolhidas dentro de bolsos enormes.&lt;br /&gt;E vinha o ganso, a anta, os convidados, o macaco e o namorado.&lt;br /&gt;Nossa casa vive cheia de gente que mal conhecemos. É muita festa. Mas existe um enorme controle, o que faz que seja impossível chegar perto de mim ou de minha prima. É que para essas festas que se realizam na sala nunca somos convidados. Mais que isto: somos escondidos. Que ninguém vá olhar para aqueles dois seres abjetos que ocupam a casa e destroem qualquer vestígio de felicidade.&lt;br /&gt;Fechados no quarto, imaginamos a festa que se arrasta na sala. Diferente da nossa, por lá, brilham os cristais e as pratarias. Tocam música. Riem. — Nós sabemos fazer festas melhores. — Comentamos, cheios de ressentimentos. Gostaríamos de estar naquelas festas, onde o caldo verde é de verdade e os pães não são desenhados.&lt;br /&gt;Às vezes espiamos o que acontece por lá e, desesperados, dizemos que tudo nos parece muito pouco.&lt;br /&gt;Uma casa grande como a nossa tem vantagens e desvantagens. A maior das vantagens é não ficar esbarrando aqui e ali, a todo instante, em pessoas desagradáveis. A desvantagem é que em muitas ocasiões nos perdemos. Minha prima vai para um lado eu para o outro e levamos dias para de novo nos encontrar. Mas esses momentos, de reencontro, são preciosos e então providenciamos outra e mais outra festa, enquanto olhamos as festas de gente grande, despeitadíssimos.&lt;br /&gt;Sempre que nos achamos de volta, Ágata tem muito para contar. Metade verdade, metade mentira. Ela sempre impressiona com histórias esquisitas, meio feitas de sonhos, meio feitas de pesadelos.&lt;br /&gt;Tentando corresponder à sua intensa imaginação, conto que na escada havia uma mulher morta. Ela diz que também viu.&lt;br /&gt;Quem será que matou a mulher? — indaga e começa a desfiar a história: — E vinha o ganso, o macaco, os convidados e a mulher assassinada. Pior! Vinha o namorado. Um cara obsceno que pegava nas mãozinhas dela e sujava tudo. &amp;shy;Foi ele quem matou a mulher — confirma.&lt;br /&gt;Tomamos o caldo verde, do faz-de-conta, e ela apresenta licores que inventou arrancando as cores de papéis de seda. Enche litros e litros. Este é de morango, este de uva, este de sei-lá-o-quê.&lt;br /&gt;Hoje, a mulher morta estava com um vestido verde e usava brincos de esmeraldas. Ontem, ela estava de vermelho.&lt;br /&gt;Minha prima é muito criativa e inventa roupas para a morta.&lt;br /&gt;Em nossa casa, todos são enormes. A mãe, o pai, todos pra lá de seis metros. Eu sou bem pequeno. Já minha prima é maior. — Menos de dois metros? Imagine se... Dizem os pais e os tios quando nos impedem de ir às festas de gente grande, que acusamos de monótonas. Também, todos beirando os 400 anos, não entendem crianças de 90, igual a mim, ou de 150, como minha prima. Por isso é que ficamos confinados nos quartos, preparando nossas festas que declaramos ótimas.&lt;br /&gt;Sabemos quando a mãe se aproxima. O perfume dela se espalha por toda a parte. Ela deve usar litros de perfume, diz a prima, e inventa que a mulher morta estava com este mesmo perfume e vai ainda mais longe: diz que a empregada também está com esse cheiro. Coloca o narizinho esperto no colo da empregada. A coitada nos acusa de feios e impertinentes. – Só fico aqui porque pagam bem, desabafa. – Imagine se vou roubar perfume de patroa. Que o menino diga isso e mais aquilo, tudo bem. Mas você? Quase uma mocinha... Até dói.&lt;br /&gt;A empregada fica magoada e se vai. Minha prima vive imaginando formas de matar a empregada. Conta que já acabou com milhões de pessoas. O namorado também, ela confessa.&lt;br /&gt;Às vezes, ela se põe a imaginar armas. Agora mesmo anda de lá pra cá com uma tesoura minúscula. As mãos ocultas, enroladas em trapos, e afia que afia as lâminas finas que brilham como prata.&lt;br /&gt;Sei que minha prima nunca teve nenhum namorado. Sei que é minha tia que confina as mãos dela em trapos saturados de pimenta para que não roa as unhas. Eu sei.&lt;br /&gt;O tempo passa que passa e as festas diminuem. Tudo porque morreram todos de carreirinha. O pai, a mãe, o tio, a tia, a empregada, os convidados, o namorado. Todos mortos.&lt;br /&gt;Já o macaco, a anta, o ganso, fugiram todos.&lt;br /&gt;Ficamos aqui, minha prima e eu.&lt;br /&gt;Agora imensos, na sala, entre cristais, pratarias, convidados que riem e música, descobrimos, pouco a pouco, que as nossas festas do faz-de-conta eram bem melhores. Bem mais.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Regina Benitez&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-6636238792703352828?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/6636238792703352828/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=6636238792703352828' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6636238792703352828'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6636238792703352828'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/festa-de-gente-grande.html' title='FESTA DE GENTE GRANDE'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-7837053152820973241</id><published>2007-03-22T07:34:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:41:11.262-07:00</updated><title type='text'>EU NÃO TE AMO</title><content type='html'>&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Quais as possibilidades de uma coisa assim acontecer na vida real? Uma em cem? Em mim? Uma em um milhão? Milhares de vezes eu me perguntei isso. E me pergunto mais uma vez agora.&lt;br /&gt;Observo através da janela. (os prédios me espiam. Comprimindo-se contra o céu, eles estacionaram do lado de fora da persiana).&lt;br /&gt;Quando meus olhos estacionaram em Estela meu coração palpitou: é paixão certa. Estava certo. Estela desceu a escada sorrindo. Passou por mim.&lt;br /&gt;Atravessou meu olhar. O sorriso e os cumprimentos eram para o amigo Joca. Joca estava ao lado. Do lado de dentro da garganta atravessei na fala.&lt;br /&gt;Gaguejei. Quais as reais possibilidades de uma coisa assim acontecer na vida de alguém? Uma em cem? Em mil? Em um milhão? Milhares de vezes eu disse a mim mesmo: você não devia ter se apaixonado por Estela. Joca nos apresentou.Estela, Carlos.&lt;br /&gt;Carlos, Estela.&lt;br /&gt;Prazer.&lt;br /&gt;Prazer.Estela sorriu. A vida sorriu. Dizer que Estela iluminou minha vida seria abusar do estômago alheio. Mas é isso aí.  Minha história com Estela é de provocar vômito. (as persianas instigam meu olhar. Acompanho sua fuga com o canto do olho. O ponto existe ao alcance do braço).&lt;br /&gt;Se eu fosse uma persiana eu fugiria de Estela, do sorriso de Estela, da roupa que Estela veste, do cheiro que Estela esquece em minha roupa, da ausência de Estela que preenche meus papéis em branco.&lt;br /&gt;Quais as probabilidades (sei da existência de leis científicas que regem probabilidades) de uma pessoa se apaixonar à primeira vista? Se ao menos a recíproca não tivesse sido verdadeira eu poderia continuar infeliz. Estela me roubou o direito à infelicidade.Nunca acreditei em amor correspondido, correspondências açucaradas, mel derramado. Sempre quis que formigas roessem o cu dos amantes. Minha solidão, minha dor de ser só era algo enraizado, cuidadosamente cultivado uma vida inteira. Sempre achei de uma pieguice extrema amar e ser amado.&lt;br /&gt;Sou um desgraçado.&lt;br /&gt;Estela me desgraçou.&lt;br /&gt;Me amou de volta. Me olhou, baixou os olhos, sorriu. Voltou a olhar. A mão direita de Estela é absolutamente perfeita.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Estela, Carlos.&lt;br /&gt;Carlos, Estela.&lt;br /&gt;Prazer.Prazer.O filho da puta do Joca nos apresentou.&lt;br /&gt;Dali em diante Estela preencheu os buracos de meus poros. Eu sempre aguardando um deslize, um passo em falso, pra cuspir Estela de minha vida. Estou sufocado com tanta felicidade. Estela atravessada em minha garganta.&lt;br /&gt;Quais as probabilidades (quero saber das estatisticamente comprovadas) de duas pessoas se apaixonarem à primeira vista e continuarem assim depois de três anos? Uma em cem? Em mil? Uma em um milhão? Milhares de vezes tenho me perguntado isso. Não encontro eco.(janela fechada não engole dias).&lt;br /&gt;Cada dia que passa odeio mais o amor que sinto por Estela. Estela é uma cadela. É de uma fidelidade canina. A constelação do Cão Maior traçando minha rota.&lt;br /&gt;Giro em torno do pescoço longo de Estela como uma coleira. Colar de amantes. Colado nos olhos, cabresto. Estela só tem olhos pra mim. E eu tenho olhos para espalhar sobre relógios.Fim de expediente. É hora de voltar para Estela. Ah se deus levasse Estela. Mas até ele Estela evita. Estela não reza. A noite de Estela é só minha.&lt;br /&gt;Serei obrigado a matar Estela.&lt;br /&gt;Apago a luz e volto pra casa.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;por Adrienne Myrtes&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-7837053152820973241?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/7837053152820973241/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=7837053152820973241' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7837053152820973241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7837053152820973241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/eu-no-te-amo.html' title='EU NÃO TE AMO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-7729794527780544583</id><published>2007-03-22T07:13:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:32:22.681-07:00</updated><title type='text'>CONTO DE CARNAVAL: A MÁSCARA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Todo cuidado é pouco com essa máscara, viu, Vi? Não, sua boba, empresto com prazer porque você sabe que é a minha neta preferida, e além disso tem outras coisas, sinto um arrepio só de imaginar que a minha máscara negra veneziana nariguda vai se soltar por essas ruas outra vez depois de meio século guardada numa caixa de chapéu com a tampa afundada, devia andar triste, a coitadinha, olha só esses olhos vazados caídos, tão merencórios. Ah, esses olhinhos viram coisa, Vi. Claro que não era como agora, era melhor, era pior. Diferente: eu nunca fui de folia e nem podia ser, sempre fui certinha. Seu avô, sim, aquele se esbodegava inteiro, saía no sábado pra voltar na quarta-feira que nem na música da camisa listrada, só que a fantasia dele, infalível, era de arlequim – conhece a música da camisa listrada? Ainda toca isso? Em vez de tomar chá com torrada ele tomou parati, não, imagine se vai tocar. Agora é diferente, pior, melhor, depende. Por exemplo, quando você casar, duvido que agüente o que eu agüentei. Não agüenta, Vi, mudou demais. Para melhor, nesse ponto eu acho que foi para muito melhor, porque se o seu marido um dia sair por aí com um canivete no cinto e um pandeiro na mão, sossega leão e tal, eu acho que você pode até aceitar, mas conhecendo você como eu conheço, eu sei que mal a porta bateu você vai sair também, você pra lá, eu pra cá, até quarta-feira, lalaiá, lalaiá. Sossega leoa – vai ou não vai? Pois eu acho que está certíssimo, querida, nós é que éramos bobas no meu tempo, eu era. Engolia, agüentava, chorava no travesseiro, noite em cima de noite perdendo o viço. Uma mulher guardada numa caixa de chapéu com a tampa afundada, cheiro de naftalina, ih, estou melosa, estou dramática, mas era assim. Não admira que os olhinhos fossem ficando merencórios, que o marido perdesse o interesse e procurasse cada vez mais passatempos, depois vinha cair na cama sem tirar nem o sapato. O seu avô, por exemplo: um homem bom, trabalhador, mas um patriarcão de antigamente, acho que um dos últimos. Pisada firme, vozeirão, chicote na cinta, chicote é maneira de dizer, que no Rio de 1950 ninguém usava chicote, mas você entende. Sua mãe não era nascida ainda, os outros quatro sim, aquela escadinha, e foi aí que ele me prometeu. O baile de máscaras do sábado de carnaval no casarão da Glorinha Pissaruçuba na Praia do Flamengo – não tinha programa mais cintilante, jóia social mais cobiçada naquele tempo. Era diferente demais, melhor, pior, eu não disse? Melhor, Vi, nesse caso era melhor porque nós íamos pela primeira vez no baile da Glorinha Pissaraçuba, ah, você tinha que ver a minha felicidade! A máscara veneziana eu comprei na Rua do Ouvidor para a ocasião, não foi barata, negra porque assim ficava mais discreto, mais digno, seu avô aconselhou. Aconselhou? Essa é boa, aconselhou nada, mandou, pois é. O vestido ia ser um verde brilhoso de festa que já começava a encardir no armário, mandei tirar, lavar, quarar, engomar, chegou o dia e eu fui fazer o cabelo, as crianças excitadas só de ver a minha felicidade, mamãe vai sambar, vai sambar, sambar, e quando chegou a hora, Vi – sambei, justamente. Seu avô ligou da rua dizendo que a gente não ia mais no baile de máscaras, imprevistos, ele falou, contratempos, uma palavra assim. Eu sabia o tipo de contratempo que ele gostava, aquele que o cabelo não nega mas em compensação a cor não pega, feito dizia o Lamartine. Seu avô não era fácil e a gente era boba demais, triste e amargurada, não tinha essa sabedoria das mulheres de hoje, não tinha o salve o prazer, salve o prazer. Me tranquei no quarto aquele sábado, os olhinhos merencórios dessa máscara negra aí, essa mesma, ficaram me olhando em cima da cama um tempão. Foi a Conceição que pôs as crianças para dormir, apagou a casa toda, você não teve tempo de conhecer a Conceição, até hoje eu sinto saudade. Ela cuidou de tudo enquanto eu ficava sentada na cama de vestido verde e laquê armado ouvindo as risadas, gritinhos, gente batendo na lata e os barulhos todos de carnaval que você conhece, isso não mudou tanto, ainda é assim. Eu nunca fui de folia e nem podia ser, sempre fui certinha, e quando cheguei na esquina de máscara e vestido de festa e vi um grupo de clóvis me olhando do outro lado da rua, me veio um pânico doido, quase dei meia volta. Nem sei como continuei andando, marcando o passo com o meu coração, acho que eu corria. Não lembro de ter entrado no Cadillac que o pierrô de porre parou do meu lado, me deu um branco mas eu sabia que, tendo entrado ou não, a verdade era que eu estava dentro dele agora, sentada no banco do carona com a cabeça girando e a mão do pierrô no meu joelho enquanto a estradinha cheia de curvas passava por nós, o mar rugindo lá embaixo, reconheci a Niemeyer. Quem é você, diga logo que eu quero saber, ele me disse que se chamava Jorge, depois Álvaro, mais tarde Toninho, e com o céu começando a clarear já tinha virado Camilo, Ciro, Ismael. Eu também não pronunciei o nosso nome, Vi, e a máscara negra nariguda eu só tirei enquanto a escuridão nos protegia, o pierrô não soube que eu me chamava Elvira. Mas nunca vou esquecer os olhos verdes dele, aqueles não tinham nada de merencórios, eram da cor do mar de São Conrado quando amanhece num domingo de carnaval – idênticos aos que me olham agora da sua cara espantada, Vi, isso também não mudou, e no fim daquele ano sua mãe nasceu.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Sérgio Rodrigues&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-7729794527780544583?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/7729794527780544583/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=7729794527780544583' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7729794527780544583'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7729794527780544583'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/conto-de-carnaval-mscara.html' title='CONTO DE CARNAVAL: A MÁSCARA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-7707192832586723603</id><published>2007-03-22T07:05:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:13:43.623-07:00</updated><title type='text'>O DOIDO DA GARRAFA</title><content type='html'>&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;  Ele não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas as outras pessoas do mundo insistiam em dizer que ele era doido.Depois que se apaixonou por uma garrafa de plástico de se carregar na bicicleta e passou a andar sempre com ela pendurada na cintura, virou o Doido da Garrafa.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;O Doido da Garrafa fazia passarinhos de papel como ninguém, mas era especialista mesmo em construir barquinhos com palitos. Batizava cada barco com um nome de mulher e, enquanto estava trabalhando nele, morria de amores pela dona imaginária do nome. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Depois ia esquecendo uma por uma, todas elas, com exceção de Olívia, uma nau antiga que levou dezessete dias para ser construída.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Batucava muito bem e vivia inventando, de improviso, músicas especialmente compostas para toda e qualquer finalidade, nos mais variados gêneros. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Uai aí aquela da mulher de blusa verde atravessando a rua apressada, e o Doido da Garrafa imediatamente compunha um samba, uma valsa, um rock, um rap, um blues, dependendo da mulher de blusa verde, do atravessando, da rua e do apressada.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt; Geralmente ficava uma obra-prima.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Gostava muito de observar as pessoas na rua, do cheiro de café, de cantar e de ouvir música. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Não gostava muito do fato de ter pernas, mas acabou se acostumando com elas. De cabelo ele gostava.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt; Em compensação, tinha verdadeiro horror a multidão, bermudão, tubarão, ladrão, camburão, bajulação, afetação, dança de salão, falta de educação e à palavra bife.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Escrevia cartas para ninguém, umas em prosa, outras em poesia, como mero exercício de estilo.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Tinha mania de dar entrevistas para o vento e já sabia a resposta de qualquer pergunta que porventura alguém pudesse lhe fazer um dia.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Ajudava o dicionário a explicar as coisas inventando palavras necessárias, como dorinfinita.Adorava álgebra, mas tinha particular antipatia por trigonometria, pois não encontrava nenhum motivo para se pegar pedaços de triângulos e fazer contas tão difíceis com eles.Conhecia mitologia a fundo.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Tinha angústia matinal, uma depressão no meio da tarde que ele chamava de cinco horas, porque era a hora que ela aparecia, e uma insônia crônica a quem chamava carinhosamente de Proserpina.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Sentia uma paixão azul dentro do peito, desde criança, sempre que olhava o mar e orgulhava-se muito disso.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Acreditava no amor, mas tinha vergonha da frase.Às vezes falava sozinho, Preferia tristeza à agonia.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Todas as noites, entre oito e dez e meia, era visto andando de um lado para o outro da rua, método que tinha inventado para acabar de vez com a preocupação de fazer a volta de repente, quando achava que já tinha andado o suficiente. (Preferia que ninguém percebesse que ele não tinha para onde ir.) &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Enquanto andava, repetia dentro da cabeÇa incessantemente a palavra ecumênico sem ter a menor idéia da razão pela qual fazia isso.Durante o dia o Doido da Garrafa trabalhava numa multinacional, era sujeito bem visto, supervisor de departamento, ganhava um bom salário e gratificações que entregava para a mulher aplicar em fundos de investimento.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;No fim do ano ia trocar de carro.Era excelente chefe de família.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas sempre que ele passava as outras pessoas do mundo pensavam, lá vai o Doido da Garrafa, e assim se esqueciam das suas próprias garrafas um pouquinho.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;por Adriana Falcão&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-7707192832586723603?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/7707192832586723603/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=7707192832586723603' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7707192832586723603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7707192832586723603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/o-doido-da-garrafa.html' title='O DOIDO DA GARRAFA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-2309066555604492758</id><published>2007-03-22T07:00:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T07:04:16.852-07:00</updated><title type='text'>TERRA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Para a Ana&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Há uma porta que encerra a luz no exterior. E eu entro pela porta entrando na escuridão e abrindo muito os olhos com toda a vontade que tenho de ver. A escuridão tapa-me os olhos e eu aguardo que, um dia, um milagre me deixe sentir no fundo do olhar mais do que estas sombras difusas, mais do que este negrume imenso. E eu entro e entrego a minha alma à luz. Entro com o corpo, só. A alma vive de luz e eu, de qualquer maneira, não necessito dela para onde sigo. Ouço o José, que me acompanha os passos, depois de deixar a alma dele lá fora. Ouço-o dizendo           - Despacha-te, homem. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          sempre que o meu andar não obedece às ordens que lhe dou, sempre que o meu andar espera mais um pouco que a alma lhe dê o seu último ânimo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            O José entra atrás de mim, diz &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - Despacha-te, homem.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           porque o seu vagar ainda tem a luz que, timidamente, consegue entrar no elevador da mina. É uma luz ténue mas que ainda o abraça. Já eu sou muito mais a escuridão que nos irá envolver.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Descemos ao túnel e levamos a vida connosco. Levamos o ar e o sol, a minha mulher, os meus filhos, a mulher dele, o filho às vezes e as árvores. Levamos no retrato que ambos beijamos duas vezes e na cruz em que nos benzemos sempre que entramos. Levamos Deus connosco porque a terra é funda, o céu fica longe. Pensamos às vezes como seria se um de nós morresse enfiado naquele buraco onde passamos os dias, os nossos dias que são sempre noite. Penso sempre: como seria?, estaria Deus disposto a descer àquele inferno para me ir buscar? Um dia perguntei ao José            - Homem, achas que se eu morresse na mina ia para o céu?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           estávamos já na mina, naquele carreiro muito escuro que é o túnel, e ele não disse nada. Eu perguntei outra vez, pensando que ele não tinha ouvido por causa do som que a sua picareta fazia, faz sempre, arrastando-se naquela terra que, mesmo já cá no fundo, ainda tenta ver alguma luz &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - Homem, achas que se eu morresse na mina ia para o céu?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           e ele voltou a não responder. O José não respondeu porque tem um filho que saiu de casa sem lhe pedir a bênção. Ainda hoje, já meses depois dessa pergunta, quando entro na mina com a vida que levo comigo e o José sem o filho que se foi embora, eu penso que ele não respondeu por causa do rapaz. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          O filho do José era da idade do meu mais velho. Brincavam juntos em crianças, atirando a terra ao ar e esperando que ela, pelo brilho que os raios de sol lhe dava, caísse em cores e poeira de ouro. Chamavam-lhe ambos as pedras que os nossos pais vão buscar para nós comermos, o raio dos moços. Chamavam-lhe a infância naqueles saltos e naqueles sorrisos, o pó e a terra como um sustento. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          Caminharam ambos para a escola, conheceram as primeiras cachopas, enamoraram-se, zangaram-se, fizeram as pazes e pediram para ser como nós. Eu e o José sorríamos pelo exemplo que lhes dávamos e chorávamos muito por saber que o destino dos rapazes havia de ser mesmo esse. Falávamos, como falamos sempre, enquanto o elevador nos leva para aquele inferno, ou à entrada do túnel, onde a terra ainda tenta ver alguma luz, da alegria que era os moços serem como nós e da tristeza de um dia os sabermos falarem na escuridão que era tanto a nossa. Mas era o destino, não havia como. E um destino é uma coisa de Deus, já dizia o senhor padre na missa de domingo. Haviam de ser como nós, de ter mulheres como nós e filhos como nós. De ser felizes na escuridão mesmo que o céu ficasse um pouco mais longe.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Mas um dia o José chegou com o fogo nas ventas a minha casa. Expelia o diabo pelo corpo, tão fora de si estava. Dizia-me a sofrer que o filho se tinha ido embora e que o meu teria culpa nisso. Eu chamei o meu moço e perguntei-lhe uma vez&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - Moço, que sabes tu disto? &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          e ele nada. Como se a picareta do José estivesse a arrastar pelo chão do túnel, parecia não ouvir. Eu perguntei outra vez &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          - Moço, que sabes tu disto?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           já depois de lhe fazer lembrar que era seu pai, pegando no cinto com força e lembrando-lhe muitas vezes, tantas quantas o dito cinto lhe tocou no corpo. Ele chorava, e eu voltava a perguntar com a voz e com as mãos. E ele chorava, e eu perguntava. E ele dizia&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - Pai, o filho do senhor José, não sei dele. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          como se lhe não soubesse o nome, como se fosse o José quem me fazia perguntar ao meu filho com a voz e com as mãos. Disse muitas vezes&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - Pai, o filho do senhor José, não sei dele.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           tantas quantas o cinto lhe tocou no corpo. E foi quando já o seu corpo parecia não aguentar mais a minha voz que me falou&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - Pai, ele quis fugir, disse que a terra era feita de pó, e não de ouro, que o ouro que via quando atirava a terra ao ar e o sol lhe dava era um engano e que não podia viver a vida dele a procurar um engano metido dentro da terra.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           e o filho do José tinha mesmo fugido. E eu fui dizê-lo ao José, não sem antes ter sentido mais uma vez a minha voz e o meu cinto no corpo do meu moço. É assim que se aprende a não guardar a verdade, já dizia o meu pai. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          Disse ao José o que ele já sabia. O meu moço, esse, só sabia da terra e do sol e do ouro mas nada do verdadeiro porquê da fuga ou de para onde tinha sido. O José continuava com o diabo a sair-lhe do corpo, com ele fora de si como se de um diabo só se tratasse. Estava capaz de maltratar Deus, se ele lhe aparecesse à frente. Felizmente não apareceu - eu quero ir para o céu com o meu amigo José, e se ele maltratasse Deus ainda ia para o inferno com ele e nós já estamos há muito tempo juntos a trabalhar na mina. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          O José saiu de casa com a resignação que lhe consegui dar. Disse-lhe para não se preocupar, que era coisa de criança, que o filho havia de voltar e que depois lhe poderia mostrar com o seu cinto como se tinha sentido na sua falta. Tendo-o acalmado um pouco, fui mostrar ao meu que isso não se faz, precavendo qualquer falta em adiantado. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          Os meses passaram e os anos foram muitos meses. Até que um dia o José recebeu pelo encarregado da mina uma carta que tinha um barco e um mar. Vinha destinada a ele e assinada pelo seu filho. A carta dizia assim, como se fosse o filho do José a dizer ao José&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - Pai, estou mesmo feliz. Tenho uma terra como a tua, só que é feita de água. Descobri que o ouro que procuras também está na água, e que lá há luz e não há escuridão. Que posso ser um bocadinho tu sempre que entro na água e levo comigo uma picareta, uma lâmpada - como tu, porque não há escuridão mas vê-se mal - e mais coisas, que lá em baixo não há ar. Na mina há ar, pai. Mas não há peixes, pai, peixes que riem para ti quando os caças, coisas velhas que apanhas do chão do mar com uma picareta e que são ouro para quem, como o encarregado da mina a ti, me dá o sustento. Pai, eu estou mesmo feliz, e espero que estejas feliz por mim. mas não estava. O filho estava feliz, mas longe. E podia ter uma picareta mas não tinha a escuridão para aprender a usá-la só com a lâmpada que da cabeça nos cai. E podia ter o ouro dele mas o ouro dele não era ouro, eram coisas velhas que apanhava do chão e que outros chamavam de ouro. E podia ter terra, mas era água. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          O José entrou na mina, desceu o elevador, arrastou-se no túnel, magoado. E, enquanto procurava com a sua picareta o que lhe encomendava o encarregado da mina, enquanto procurava em silêncio comigo ao seu lado procurando o que a mim tinham encomendado, o José continuava triste. Na mina, lá no fundo, quando o inferno é muito quente como só o inferno pode ser e o céu é muito longe, nós trabalhamos sempre com o silêncio junto a nós. Procuramos muito que ele fique sempre connosco, fechando as bocas, pensando nas almas que deixámos lá fora. Mas o silêncio foge em cada golpe que a nossa picareta dá na terra dura que há no fundo da mina e que é já rocha. Mas nós procuramos ainda mais, ficando cada vez mais calados, pensando na alma que ficou lá fora e naquilo que trouxemos para dentro, seja o ar e o sol, a minha mulher, os meus filhos, a mulher dele, o filho - às vezes, só às vezes - e as árvores. Ou no retrato que ambos beijamos duas vezes. Ou na cruz em que nos benzemos.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           No dia seguinte à carta, a picareta do José não roçou o chão da poeira do túnel. Ele levantou-a e disse-me que não tinha filho, que aquilo que tinha nascido da mulher dele não tinha nunca existido. Eu perguntei-lhe&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - Porquê, homem? Porque matas assim o teu filho? Ele afinal está feliz, não queres ver o teu filho feliz, homem? &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           e estava, e estava feliz, ou pelo menos assim o fazia notar na carta que enviou e que o José leu como se fosse o filho a falar e a dizer &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          - Pai, estou mesmo feliz.dizia lá. O José não respondeu, talvez porque a picareta lhe tenha caído para o chão e começado a roçar a terra e por isso tenha reparado que eu não ouviria a resposta ou então porque a atirou ele. Fiz-lhe esta pergunta durante muitos dias, tantos que até foram dias que foram semanas. E só quando ele teve força para segurar outra vez a picareta é que me disse&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - Porque fugiu sem a bênção que lhe queria dar e está à procura de ouro onde não há. Ninguém pode ser feliz procurando aquilo que não existe. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           e não pode, nisso tinha o José razão. Eu não respondi, a força do José aguentou pouco a picareta e ela voltou a roçar o chão do túnel.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Meses depois o José recebeu outra carta. O encarregado da mina, antes de entrarmos, voltou a chamar o José&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - José. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          e ele voltou a ter de ir buscar a carta. A desconfiança com que pegara na primeira deu lugar à amargura com que se afastou de mim para ir buscar a segunda. Pegou nela sem um sorriso - não que o José seja um homem de sorrisos, mas a força com que o não tinha não dava azo a qualquer dúvida - e abriu-a. A carta vinha também com um barco e um mar nela e endereçada ao José, mas faltava-lhe a assinatura do filho. O José ficou parado, a entender como duas cartas com o mesmo barco e o mesmo mar podiam vir para ele e só uma trazer o nome do filho. Leu-a já a pensar que era outra pessoa a ler para ele, a dizer&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - Senhor José, o seu filho que se dizia feliz morreu. Temos muita pena em dizê-lo mas a verdade é esta e nós não temos como mentir-lhe. Também não temos o corpo que era o dele para lhe dar e enterrar onde quiser porque desapareceu na água. Um dia desceu mais fundo do que devia, com a picareta às costas, uma lâmpada - como o senhor José, porque não há escuridão na água mas vê-se mal - e mais coisas, que lá em baixo não há ar. Disse-nos que queria encontrar todo o ouro que conseguisse, as coisas todas que nós lhe pedíramos porque esse era o seu ofício e tinha de ser bom nele. Correu mal a viagem ao seu filho, senhor José, que não voltou do encontro, se o teve. Desculpe lá, mas a vida é assim, só com a morte existe e o seu filho viveu porque morreu. Pelo menos feliz, dizia ele. Sentidos pêsames. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          e assinavam algumas pessoas por baixo do nome delas: encarregado, encarregado do encarregado, até o encarregado do encarregado do encarregado assinava. E nós nem sabíamos que havia minas que podiam ter um. Também não conhecíamos as minas de água onde o filho do José era feliz, isso era certo. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          E o José entristeceu outra vez. O filho que ele não tinha acabava de morrer. Ou pelo menos assim o dizia o papel. Podia ter morrido há mais tempo, que escrever uma carta, dar a assinar a tantos encarregados e colocá-la nas mãos de um pai demora o seu tempo, mas o José só soube quando a leu e só aí viu o fim do filho na mina de água que era a sua. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          O José arrastou a picareta pelo chão meses, tantos meses que foram anos. O meu moço mais velho começou finalmente a acompanhar-nos e o José a chorar em silêncio sempre que o via sozinho, sem a companhia do filho que se tinha ido embora sem a bênção de um pai. Fizemos os três o caminho muitas vezes, descendo o elevador, pelo túnel até ao inferno que é esta mina, desde o sol e da alma que o meu filho também aprendeu a deixar à entrada. Fizemos o caminho e continuámos à procura das coisas que nos encomendavam.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Um dia o José bateu com muita força na terra, tão dura que já era rocha, e abriu-lhe um sulco. Do outro lado do sulco o José viu uma câmara enorme onde cabiam muitos de nós e nela um pequeno rio que corria sobre a terra, límpido, tão límpido que, pensei eu, se alguém ali quisesse nadar não precisava de levar a lâmpada que nos cai da cabeça porque não existia escuridão dentro dele. Ficámos muito admirados, eu e o meu filho, pela descoberta que o José tinha feito. Não era o ouro que nos encomendavam mas era um rio de água limpa a correr no meio de uma câmara enorme. E isso nunca ninguém tinha visto. É certo que tinham falado da água que podia correr em câmaras grandes no meio da terra funda e nós sabíamos que existia. Mas a surpresa não deixou de ser tão grande como a câmara onde cabiam muitos de nós. O rio vinha de longe, aos nossos pés, e passava por nós desde uma fenda também grande na terra até outra grande como a primeira onde desaparecia. Eram fendas grandes também, mas onde só aquele rio acabava cabendo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            O rio passou a ser um sítio onde os outros mineiros vinham lavar um pouco as mãos da terra que não era tão dura como a rocha e que por isso os sujava. A picareta bate com força na terra que já é rocha e faz dela outra mais mole, que nos entra dentro dos olhos e dos dedos e nos faz sentir com os olhos e com os dedos que o mundo é todo feito de terra. Com a descoberta do José, eu, o meu filho e os outros mineiros, pudemos ver no meio da terra alguma água que nos lavava, por vezes o próprio espírito que tinha ficado à entrada, ao sol, entregue à luz.           E o José batia com a picareta nas imediações do rio. Ele não sorria muito, o José, mas, notava eu, por vezes havia como que um esgar que lhe batia no rosto, da mesma forma que a nossa picareta bate onde queremos que bata. Perguntei-lhe, num outro dia e quando lhe vi esse esgar de um sorriso à entrada do túnel&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - Estás mais feliz, homem. Que se passa? É o rio que descobriste que te lava a cabeça das tristezas da vida?            e o José, mesmo com a picareta dele a roçar o chão e todo o silêncio tão longe porque a picareta não a levantou ele, respondeu baixinho &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          - Vi o meu filho, homem. Um dia olhei o rio e ele veio à tona da água e olhou a sorrir para mim. Depois as horas passaram muito e foram outro dia e eu vi-o outra vez a olhar para mim e a sorrir. O meu filho descobriu a terra e há-de vir ter comigo pelo meio dela. O meu filho entrou pela terra dentro e agora é parte dela. O meu filho um dia há-de dizer-me o que deve. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          e eu não pude deixar de sorrir também. Disse-lhe, com alguma tristeza&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - José, homem, bem sabes que a morte não traz ninguém de volta, bem sabes que as pessoas quando morrem são sempre levadas para Nosso Senhor, já diz o senhor padre, e não voltam mais.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           mas ele já não ouviu. A picareta começava novamente a roçar como sempre fizera o chão e o José a viver na ilusão de um dia ver o filho a dizer-lhe o que devia. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          Passou-se mais tempo, dias que foram semanas, semanas que foram meses. Eu, perguntei-lhe se quando morresse havia de ir para o céu e o José não me respondeu. Desde que disse que havia de esperar o filho dizer-lhe fosse o que fosse que nunca lhe há-de dizer, que me não respondeu a nada que lhe perguntasse. O silêncio era grande, mesmo com o som da picareta arrastando pela poeira da terra que ainda vê alguma luz.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Até que um dia o José parou a picareta na rocha depois de uma pancada ainda mais forte do que aquela com que descobriu o rio. Quando ouvi o silêncio que a falta da picareta do José fez, a bater na rocha ao ritmo que nos encomendavam, voltei-me para ele, parei o meu filho e vi-o a sorrir, feliz. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          O José era finalmente feliz. Porque tinha visto água a jorrar num fio, como nunca nenhum de nós tinha visto, da terra que de tão dura já era rocha. O José tinha descoberto o rio, mas o rio vinha de longe e era numa câmara grande e vinha de uma fenda grande e ia-se noutra fenda também grande. Aquele fio de água que jorrava da rocha não tinha de onde vir e existia. O José voltou-se a rir muito e disse&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - Vê, homem, podes morrer na mina, que é no meio da terra que está o nosso céu.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           porque no meio da terra, descendo pela terra que de tão dura já era rocha, estava desenhado um rosto. O rosto do filho do José que, como ele tinha dito e eu não acreditara, era feito de terra e pelo meio da terra tinha chegado ao José. E que repetia, alto, tão alto que até nossas almas entregues à luz à entrada da mina ouviam&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           - A sua bênção, meu pai.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por JORGE REIS-SÁ&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;PORTUGAL&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-2309066555604492758?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/2309066555604492758/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=2309066555604492758' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2309066555604492758'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2309066555604492758'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/terra.html' title='TERRA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-5135727471603167149</id><published>2007-03-22T06:58:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T06:59:56.718-07:00</updated><title type='text'>O PEREGRINO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          Comecei a nascer em uma beira de estrada, uma dessas hospedagens baratas onde meus pais conseguiram achar um pouco de paz e algumas horas de amor. Protoplasma dentro de um ventre, migrei para Montes Alvos; era então só uma simbiose de líquidos querendo constância e forma, mas ninguém negará que já era vivo. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Passaram-se nove meses de insucessos e um pouco de felicidade. Finalmente rebentei para a luz. Não foi pequeno o espanto de médicos e familiares quando perceberam que eu não era nada: só um contorno fugidio de membros ainda a serem descobertos, uma expectoração de manchas móveis, enfim, uma ameba do tamanho aproximado de um feto humano. Não imagino qual tenha sido a reação de todos diante de mim; também ignoro as minhas primeiras palpitações vitais sobre a terra. Sei apenas que quem me pôs em definitivo dentro da vida não foram as contrações de minha mãe, mas sim a insinuação assustada de dedos que desfraldaram aquela caixa de papelão que, sem motivo, foi bater à uma das poucas e pobres portas de Cascalho Dourado. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          Foi nesses primeiros anos que a minha forma esférica começou a ganhar alguns prolongamentos estranhos na sua parte inferior; não entendia o porquê daquela mutação. Em um espaço mínimo de tempo já não subia e descia rolando a escada principal da casa da minha aia, mas engastava uma após outra aquelas duas aberrações da natureza que brotavam de mim como duas espátulas. Logo me conformei. Fazer o quê? Mas com o passar dos anos percebi que estava sem querer imitando a anatomia dos meus familiares, e que isso lhes dava prazer. Cada nova semelhança descoberta era, em si, motivo para reuniões e festas comemorativas. Sentia-me o centro das atenções. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          A vida correu suave em Cascalho Dourado. Minha aia era uma mulher doce e brusca, de mãos grandes e um sorriso úmido. Às vezes parecia chorar quando ria, o que era curioso. Foi nessa vila que vim a conhecer pernas, e andar, na acepção mais abrangente e técnica dessas palavras; devo confessar que isso me frustrou; via todos os homens felizes porque andavam, mas eles já nem se lembravam que tinham pernas. Enquanto eu, quando rolava, isso era um fato, um acontecimento que me tomava por inteiro e que me deixava agradecido aos deuses pelo meu corpo. Hoje ando; se não é das melhores experiências do mundo, pelo menos me dá a sensação de estar mais aparentado aos outros e de que isso alimenta minha esperança de um dia ser como eles. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          A temporada naquela cidade não muito maior que um estábulo durou pouco. Ganhei a estrada mal me brotou o décimo dedo do pé. Cruzei a região central do Brasil em boléias de caminhão, caminhando ou na garupa de trens de carga. Vi - se é que podemos chamar de visão as manchas difusas de um órgão em pleno florescimento - coisas belas e horríveis, todas igualmente importantes para a minha formação. Nas regiões campesinas, após alguns anos de viagem, conquistei esse belo par de alicates que hoje me possibilitam a escrita. À essa época, fixei residência em Florais, onde trabalhei na colheita de frutas e verduras. O ar puro que se respira nessa região foi prolongando minha cavidade facial até compor o nariz, finalizado com um espirro. Não sei se é certo o ditado que diz que a ocasião faz o homem, e não saberia dizer se a minha forma ia mudando por uma necessidade de me adequar ao meio ou se já trazia essas metamorfoses embutidas dentro de mim de maneira latente. Enfim, não me ative muito a esse ofício; algo me dizia que era importante migrar, pois só assim ficaria a sós comigo mesmo e conheceria o mundo tal como ele é. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          Em Olho d'água descobri o amor. Uma jovem tímida, de cabelos negros longos e uma saia rodada até o tornozelo, encantada com a minha estranheza, como essas criaturas que cultivam um universo imaginário alheio às convenções e acabam se apaixonando pelos seus próprios fantasmas, me tomou num beco escuro, suspendeu meu corpo com um beijo histriônico e seus dedos longos acariciaram meu púbis com tanta ênfase que brotou dele uma protuberância rija, inexplicavelmente. O que senti foi bom, e desde então inflo cada vez que me lembro dela. E assim fui levando minha vida: cada aventura me dava de presente uma nova feição, delineava em meus traços os traços corriqueiros dos homens; animava-se em mim um símil de cada ser que cruzava o meu caminho e fixava em meu corpo, como em cera ou argila líquida, suas iniciais e sua importância; de cada ente querido gravava algumas formas, que se uniam a mim, inextricáveis, e de cada ato vil que sofria guardava a cicatriz para evitar que ele se repetisse.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Defini os cinco sentidos muito tardiamente. Lembro-me bem quando. Numa tarde de inverno, sentei-me em um dos bancos da praça de Sensinóplis: as azaléias abriam-se par a par num corredor simétrico que lembrava o de jardins suspensos; o alecrim expelia seu néctar aéreo, e raios de sol fracos refletiam-se multicores na cortina de gotículas de um chafariz em forma de deus grego. Notei então que captava o espaço em todas suas dimensões, definia cada matiz de cor, cheiro, textura, ritmo, cadência, intensidade, volume e forma. Debrucei-me em suas águas e me vi homem, idêntico em cada expressão ao Apolo de mármore que pairava incólume sobre o calor da minha descoberta. Entristeci sem qualquer motivo aparente; uma parte do percurso estava completa. Os traços finos que vibravam no espelho d'água davam uma maleabilidade à minha pele que a desfazia e a recompunha, como se vivessem a nostalgia de um passado amorfo, onde eu fui feliz e solitário, e quando os homens ainda não haviam plasmado deles próprios a minha primeira inocência.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Muitos anos se passaram desde esse episódio. Tornei-me, enfim, um homem, e isso parece não ter acrescentado nada à miséria de estarmos vivos, animados sob o céu que um dia será testemunha do nosso último suspiro. Hoje tudo o que passei se reduz a memória, a cacos de sentido que recolhi na minha viagem. Tudo isso me serviu e me formou, me deu a sobrevivência diária e me fez ser o que sou hoje. Sei que é impossível retroceder, e inútil querer possuirmos a nós mesmos sem antes atravessar esse deserto de escombros que são a nossa pátria mais íntima e irredutível, essa experiência única de guardar gestos, esboços, sorrisos e paisagens na tabula rasa do pensamento sabendo que, assim como eles nos constituem, eles também nos aniquilam, porque não se pode recuperar o vivido em sua integridade. Hoje tenho juízo, discernimento, razão, vontade, ou seja, todas as faculdades humanas desenvolvidas; tenho um corpo sólido e bem talhado, e passei ileso por todas as fases da minha peregrinação. Estou finalmente pronto, de posse de todas as minhas potências e de seu exercício. Mas sei que é tarde. Da minha cama, o sol declina no horizonte frio da janela semi-aberta, dia após dia, como se fosse sempre a última vez. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por RODRIGO PETRONIO&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-5135727471603167149?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/5135727471603167149/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=5135727471603167149' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/5135727471603167149'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/5135727471603167149'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/o-peregrino.html' title='O PEREGRINO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-5553731033244122796</id><published>2007-03-22T06:56:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T06:58:27.004-07:00</updated><title type='text'>SEGUNDA OU TERÇA-FEIRA</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;     Preguiçosa e indiferente, vibrando facilmente o espaço com suas asas, conhecendo seu rumo, a garça sobrevoa a igreja por baixo do céu. Branca e distante, absorta em si mesma, percorre e volta a percorrer o céu, avança e continua. Um lago? Apaguem suas margens! Uma montanha? Ah, perfeito - o sol doura-lhe as margens. Lá ele se põe. Samambaias, ou penas brancas para sempre e sempre.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;      Desejando a verdade, esperando-a, laboriosamente vertendo algumas palavras, para sempre desejando - (um grito ecoa para a esquerda, outro para a direita. Carros arrancam divergentes. Ônibus conglomeram-se em conflito) para sempre desejando - (com doze batidas eminentes, o relógio assegura ser meio-dia; a luz irradia tons dourados; crianças fervilham) - para sempre desejando a verdade. O domo é vermelho; moedas pendem das árvores; a fumaça arrasta-se das chaminés; ladram, berram, gritam "Vende-se ferro!" - e a verdade?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;       Radiando para um ponto, pés de homens e pés de mulheres, negros e incrustados a ouro - (Este tempo nublado - Açúcar? Não, obrigado - a comunidade do futuro) - a chama dardejando e enrubescendo o aposento, exceto as figuras negras com seus olhos brilhantes, enquanto fora um caminhão descarrega, Miss Fulana toma chá à escrivaninha e vidraças conservam casacos de pele. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;      Trêmula, leve-folha, vagueando nos cantos, soprada além das rodas, salpicada de prata, em casa ou fora de casa, colhida, dissipada, desperdiçada em tons distintos, varrida para cima, para baixo, arrancada, arruinada, amontoada - e a verdade? &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;      Agora recolhida pela lareira, no quadrado branco de mármore. Das profundezas do marfim ascendem palavras que vertem seu negrume. Caído o livro; na chama, no fumo, em momentâneas centelhas - ou agora viajando, o quadrado de mármore pendente, minaretes abaixo e mares indianos, enquanto o espaço investe azul e estrelas cintilam - verdade? Ou agora, consciente da realidade?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;       Preguiçosa e indiferente, a garça retoma; o céu vela as estrelas; e então as revela. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por VIRGINIA WOOLF&lt;br /&gt;tradução de Roberto Schmitt-Prym&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-5553731033244122796?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/5553731033244122796/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=5553731033244122796' title='62 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/5553731033244122796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/5553731033244122796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/segunda-ou-tera-feira.html' title='SEGUNDA OU TERÇA-FEIRA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>62</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-914488370561540896</id><published>2007-03-22T06:55:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T06:56:38.111-07:00</updated><title type='text'>ESTRANHA LOJA DE DOCES</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            Sempre sofria por vontades inusitadas, a moça. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            Certa noite, teve um desejo furioso de tomar uma bebida forte, destilada, que tivesse gosto de livro velho. Não qualquer coisa, mas literatura boa de verdade. Um livro que sempre quisesse ter lido e descobrisse, por acaso, no fundo de um armário de esquecidos. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Depois, quis mudar o perfume. Havia lido, fascinada, sobre a existência de uma loja obscura em Londres, onde eram vendidos perfumes de bolo de aniversário, funerária, lagosta, vestido de noiva de avó. Mas ela teve uma idéia diferente: Imaginou o cheiro de um filme do Fellini. Talvez de lua no poço. Lua no fundo do poço no fundo do quintal. Sim! Era esse o perfume que ela queria.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            E as roupas? Onde encontrar um vestido de espelhos, sapatos de vento, lingerie líquida? Sem falar no casaco tecido com fios de cabelo de pequenos anjos caídos.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            Mas o pior eram as fomes. E acordando de madrugada quis comer alguma coisa como um luminoso de néon de posto de gasolina. Sendo assim, pegou o carro e saiu procurando.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            Passou por um posto como o desejado e sentiu-se parcialmente satisfeita. Logo adiante, havia uma estranha loja de doces. Entrou. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           -Já experimentou nossa novidade, o dessert doré?- perguntou a vendedora.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            A moça viu um doce amarelo pálido, coberto com um merengue poroso, quase como claras em neve.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            -Não, o que é?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            -É uma receita nova, feita com margaridas e neblina de começo de primavera. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Ela comprou e comeu. Não gostou muito. Mas já estava acostumada. Afinal, sempre sofria por vontades inusitadas, a moça. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por GRETA BENITEZ&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-914488370561540896?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/914488370561540896/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=914488370561540896' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/914488370561540896'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/914488370561540896'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/estranha-loja-de-doces.html' title='ESTRANHA LOJA DE DOCES'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-8296574218515264044</id><published>2007-03-22T06:38:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T06:51:36.483-07:00</updated><title type='text'>VENITE ADOREMUS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;(ou "DIAS DE ANJOS DOURADOS")      &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; Seu Domênico tinha trancinhas e cheirava mal. Com o cabelo oleoso e comprido dos lados da cabeça ele tecia as trancinhas que amarrava atrás. Ela nunca tinha visto um homem com tranças. Cutucou a mãe e começou a rir. A mãe disse que ele era napolitano e que na terra dele os homens usavam o cabelo assim.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Seu Domênico era um dos homens muito importantes que iam cantar a Novena de Natal nos bancos da frente do Santuário. Esses homens todos parecidos com seu pai, meio gordos, meio velhos, se cumprimentavam levantando o chapéu na porta da igreja, alguns falavam italiano como seu Domênico e foi assim que ela aprendeu que Buona sera queria dizer boa-noite e não tinha nada que ver com a cera vermelha marca Parquetina que passavam no assoalho.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Importantes, separados das mulheres como se nem as conhecessem, eles avançavam pela ala central da igreja, que naqueles dias de anjos dourados estava toda acesa, e se dirigiam para os bancos da frente. Mas ela, única criança, única menina, ia com eles, os importantes, pela mão do Pai. Descobria risinhos nos olhos fugidios das senhoras que ficavam enroladas nos seus véus, de joelhos, cabeça baixa, enquanto o grupo dos vencedores caminhava de cabeça erguida, se dirigindo diretamente à divindade.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Os homens eram os da Irmandade do Santíssimo Sacramento, porque o mundo todo era dividido por idades, sexos, estado civil. E por cores. As moças solteiras eram Filhas de Maria - usavam vestido branco e sobre ele uma fita em V, verde e estreita para as aspirantes, azul e larga para as já admitidas. Uma fita com a medalha da Imaculada. Quando acabava a bênção elas tiravam a fita, beijavam a medalha, guardavam a fita dobrada na bolsa, um ritual que ela não via a hora de crescer e ficar moça para também poder fazer, de tão lindo que era.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Branco e azul eram as cores de Nossa Senhora e das moças virgens, porque Nossa Senhora tinha sido virgem antes, durante e depois do parto, e quem sabe o que aquilo queria dizer.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;As mulheres casadas não podiam mais ser Filhas de Maria e nem usar vestido branco. Vestiam cores escuras, ou preto, e tinham uma fita vermelha. Eram todas meio gordas. E tristes, viviam suspirando. Por isso ela não ia casar nunca.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Os homens solteiros eram Filhos de Maria? Todo mundo tinha rido. As pessoas estavam sempre rindo das suas perguntas.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;- Congregado Mariano, é assim que se diz, tinha corrigido o tio, que também usava uma fita azul sobre o terno cinzento.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Mas o mais bonito e importante mesmo eram os homens da Irmandade do Santíssimo, que usavam uma capinha vermelha chamada opa e tinham privilégios, levar tochas, carregar o pálio, que era um pano vermelho feito uma casinha de brinquedo estendida sobre quatro bastões, e que cobria o Santíssimo na procissão. Os homens, só eles, podiam carregar o pálio e chegar tão perto do Santíssimo, os homens mais velhos, sérios, casados e gordos, será que eles não tinham medo do Santíssimo? Ela tinha muito medo, de tão Santíssimo que era que até o Padre só podia pegar nele dentro daquela caixa dourada chamada ostensório e segurando com uma toalha dourada - senão queimava?       Porque o Santíssimo, ah, o Santíssimo, a gente não devia nem olhar para Ele quando o Padre levantava a hóstia consagrada, na missa.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;- Abaixa a cabeça, menina.      &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; Se olhasse, ficava cega?       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;O Santíssimo estava sempre relacionado com raios. O ostensório tinha raios dourados cercando o corpo de Nosso Senhor e quem pegasse na Hóstia Consagrada que era o corpo e o sangue de Nosso Senhor, vinha um raio do céu e fulminava. Chamava Sacrilégio.      &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; Era um pecado que não tinha jeito. O pior pecado.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Mas o Padre pegava na hóstia. Porque ele lavava as mãos antes, numa bacia toda de ouro, enquanto o coroinha de vermelho podia ficar perto dele, porque era menino. E só o Padre, porque era Padre e porque era homem, podia pegar na hóstia. Mulher não pegava, não podia pegar nunca.      &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; - Nem se eu lavar bem a mão antes?       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;- Nem.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;E quando mais tarde, cinco escassos aninhos depois, aos dez, ficou menstruada, um dia estava ajudando a mãe a fazer a massa do pão e a massa azedou por sua culpa e então ela compreendeu porque mulher não podia pegar no corpo de Nosso Senhor, porque senão azedava o corpo de Nosso Senhor.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;...O sangue da menstruação tinha um cheiro meio azedo, ser mulher era isso, então, o sangue escondido, a humilhação, o secreto, o manter-se sempre nos cantos, na sombra, ajoelhada nos bancos do fundo da igreja enquanto os homens passavam de cabeça empinada buscando nos bancos da frente o lugar que lhes pertencia por direito divino.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Mas ela - diferente de todos seria, das mulheres, das outras crianças - ela, porque somente ela admitida, com afagos, nos seus cinco anos de cachinhos cor de avelã, no coro dos homens, na Novena de Natal, e se tivesse sorte conseguia puxar o pai para um banco bem longe do seu Domênico, que tinha trancinhas e cheirava mal.       O coro masculino lá perto do órgão cantava em latim. Naqueles dias Dona Francisca, a organista, descansava. Vinha um organista de fora, um homem, porque mulher só servia para o todo-dia mesmo, dizia o Pai. Os padres da Congregação entoavam, e o coro dos irmãos do Santíssimo respondia, num refrão:       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Rege venturum Domine       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Venite adoremus      &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; E a mãe, e a tia, riam dela, diziam que tinham ouvido uma vozinha desafinada que cantava:       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Lege ventulum Domine       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Venite adolemus       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Mas ela nem ligava. Ela sabia latim. Ela cantava com os homens. Ela era diferente.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Tinha conquistado o direito à fala.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por CECILIA PRADA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-8296574218515264044?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/8296574218515264044/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=8296574218515264044' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/8296574218515264044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/8296574218515264044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/venite-adoremus.html' title='VENITE ADOREMUS'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-13077522795024680</id><published>2007-03-22T06:37:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T06:38:19.901-07:00</updated><title type='text'>SOPROS DE AMPULHETA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;[dez] Dirige uns quilômetros, encosta. Uma rajada de vento atinge a lataria do carro, a água do mar chacoalha dentro da garrafa plástica. Sente que não conseguirá prosseguir. Outra rajada, e mais outra. Sente que não conseguirá esquecer. [nove] É noite. Sem redemoinhar, uma lufada brusca e contrária o atinge, cobrindo-o de areia (os grãos miúdos grudam na pele). Ele volta pro carro, manobra apressado, arranca em direção a Porto Alegre. [oito] Pronto!, ele a solta julgando-se infalível, viu? Não foi nenhum monstro de sete cabeças. Homem estúpido!, antes os monstros... vira-lhe as costas e se deixa levar pela ventania. Ele fica parado. É quase noite. Os contornos dela se desmancham na crescente escuridão (algo mais que distância a desfaz). Ele aguarda. Grita por ela. Aguarda. [sete] Pelo amor de Deus, o que tu vai fazer? Hoje, tu vai perder essa fobia boba. Como meu avô dizia, nada nesta vida é por acaso, ele pára o carro, sai. Ela tranca a porta por dentro. Ele destranca com o controle remoto, segura sua mão (estranha a aspereza): um dia vamos rir disso tudo, conduzindo-a até quase a beira do mar. Tu não tem idéia do que está fazendo, ela resmunga sem resistir. [seis] Ele surge, limpando as mãos em lenços de papel, diz estar tudo resolvido, caminha até o carro, abre a porta, ela vem correndo, fica encolhida no banco do carona. Ele dirige até a praia, ela está de olhos cerrados (não percebe). Vou te contar um segredo, quando menino sentia um medo enorme do escuro; uma noite, estava na casa do meu avô e faltou luz, sabendo da fobia, ele aproveitou, pegou-me pela mão e me levou ao quintal, disse para eu respirar fundo que o medo passaria, e passou. Os olhos dela abrem, as pupilas quase rebentam a íris acinzentada. [cinco] Seis horas, ela desperta sem dar-se conta do quanto cochilou. O céu está nublado, o vento nordeste sopra com força. Vamos embora, diz aflita. Ele surge na porta: só mais quinze minutos. Maldita hora, ela se põe de pé, olha através da janela, maldita hora. [quatro] Perde mais tempo do que pensou, uma das peças não está encaixando. São exatamente quatro e trinta e dois. Ela aguarda na recepção. Ele aparece na porta, pergunta se ela não prefere sair, aproveitar o resto de sol. Está começando a ventar, é a única resposta que recebe. [três] Chegam à praia (não há uma brisa sequer), ele estaciona em frente ao mar e a acorda. Ela boceja, abre a porta e sai, caminha até à beira. Ele vai ao seu encontro, convida-a para molhar os pés, ela recusa. Caminham em direção ao norte. Ela toma a dianteira, pára sobre uma pequena duna, há uma garrafa de água mineral enterrada ali, pede-lhe para enchê-la até a metade com água do mar, quero levar de lembrança. Ele atende o pedido. De volta ao carro, ela ajeita a garrafa atrás do banco do motorista. [dois] Ele diz que pesquisa as variações eólicas no litoral, ela diz ter nascido no litoral. Ele pergunta como alguém pode ficar meia hora de pé numa livraria, olhando a mesma página dum levantamento fotográfico sobre a ação das ventanias no hemisfério... Medo, ela o interrompe. Como? Medo, pavor... Nos dias de ventania não suporto sequer olhar pela janela... o balançar dos galhos, as rajadas contra portas e paredes me aterrorizam. O sinal fecha, ele freia: pode parecer loucura o que vou propor, mas, nesse exato momento, estou indo até o litoral trocar as peças dum gerador gráfico que fundiu... o dia está lindo, não irá ventar... gostaria muito que tu viesse comigo. Estaremos de volta antes das quatro. Não posso... apesar da saudade que sinto do mar, é arriscado, ela responde. Não ventará, garanto. Ela pensa... concorda, pede pra ele ligar o ar-condicionado e não descer os vidros enquanto o carro estiver em movimento. Seus olhos acinzentados contrastam com a luminosidade do dia e logo se fecham para dormir. Não trocam palavras durante a viagem. [um] Sai de carro pela Lima e Silva, ela está na parada de ônibus, oferece carona, ela aceita. [meio-dia] Entra na livraria, pergunta à atendente sobre o álbum que encomendou. É o que está com a moça ali de pé, ela responde sem desviar os olhos da tela do computador. Ele escolhe um catálogo qualquer no balcão, folheia. Os minutos passam, ela continua lá: no mesmo lugar, com aquela expressão de agonia no rosto. Meia hora de espera. Sem constrangimento, passa a observá-la. Vestido de seda cor da pele, sandálias rasas de tiras verdes, tão irregulares e delicadas que parecem tatuadas ao redor dos tornozelos. Enfim, à mercê do próprio abandono (ele pondera consigo mesmo). Ela fecha o álbum abruptamente, assustando-o, vem em sua direção, e, sem lhe dirigir o olhar, bem próxima, surpreende-o: não acredito que uma pessoa espere todo esse tempo por algo que poderá não sair mais das mãos da outra, estende-lhe o álbum, ele segura com as duas mãos. E se eu tivesse comprado?, ela pergunta e lhe vira as costas. Teria valido à pena do mesmo jeito, responde meio embolado. Então, espero que faça bom uso, ela abre a porta e se vai. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por PAULO SCOTT&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-13077522795024680?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/13077522795024680/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=13077522795024680' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/13077522795024680'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/13077522795024680'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/sopros-de-ampulheta.html' title='SOPROS DE AMPULHETA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-2185932131176632790</id><published>2007-03-22T06:35:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T06:37:17.192-07:00</updated><title type='text'>O MÁGICO DO AZAR</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;      Um dia Carlos imaginou: se fosse mágico, mágico mesmo, ou melhor, um santo, capaz de - não prestidigitações - de milagres. Sim, milagres. Porque no reino do real o que poderia se transformar mesmo seria somente pela ação do milagre, do fenômeno, nunca do truque.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            Mas só há truques em disponibilidade, só enganações, só respostas para um mistério que, uma vez vindo à tona, tornam-se, essas respostas, num inevitável esvaziamento desses mistérios. E Carlos então pensou: santo, sim, mas não santo. Isto é, com o poder miraculoso dos santos mas a trajetória dos mágicos. Os santos são graves, dramáticos, bons, curam, salvam, perdoam. Os mágicos são cínicos, cômicos, maus, flertam com o perigo, ameaçam, condenam. Depois de um santo, nasce a fé mais fervorosa no maior dos céticos. Depois de um mágico, cresce o riso ateu. Um mágico nunca acredita em Deus. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Carlos imaginou-se um mágico santo, ou seja, com a malícia dos mágicos e o poder dos santos. Capaz de, santo, fazer brotar o impensável; capaz de, mágico, criar confusão. O sonho de Carlos era real, ele não queria facilidades, queria pagar o preço necessário. E para essa combinação, o preço, alto, era este: faria mágicas poderosíssimas, mágicas mesmo, jamais truques, mas todas para o mal. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Pegaria um ovo de plástico, cortaria com uma faca dentada, e de dentro sairia uma pomba morta.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            Pegaria uma mulher morta, poria num caixote com uma incisão na metade. Nessa incisão, Carlos enfiaria um serrote. Gritos e sangue anunciariam a ressurreição: a mulher voltava à vida, mas perdia os membros inferiores. Virava, rediviva, um toco humano, triste de se ver, pela dificuldade de locomoção, pela perda da beleza, e pelo estigma de ser alguém que já fora defunto. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;           Um homem, cego de um olho, postar-se-ia diante do mágico Carlos. Este tocaria com a ponta dos dedos no olho doente do homem; em seguida, com a mesma ponta de dedo, tocaria o olho bom. A um sinal seu, o olho bom perderia a visão imediatamente, os protestos de desespero do homem vencendo o ruído da admiração tensa e abafada da platéia.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            E ainda outra mágica. Carlos mostra um copo d'água, água cristalina, límpida, pura, desejável. Passa um lenço em volta do copo, cobre o copo, e logo a seguir dá um puxão no lenço e o copo surge&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;, vermelho. Chama uma assistente que, horas antes de passar mal, bebe o líquido e confirma: é sangue, sangue velho, sangue contaminado.&lt;br /&gt;            A fama de Carlos, naturalmente, é controversa. Temem-no pelo gênio e também pelo risco que sua mágica representa. Gênio não, gênios são humanos, fazem parte do mesmo triste cortejo de todos nós. Carlos é mais, um milagre, e mesmo as vítimas de suas mágicas demoníacas não contestam a força de seu poder. Ele, é verdade, se comove com o sacrifício imposto a essa gente: mas é necessário, são provas de que o que ele faz não é prestidigitação barata, não se resume a mero truque. Quem é tocado por sua magia sucumbe diante de uma condenação que talvez tenha, no mais profundo de sua missão, um papel purificador.&lt;br /&gt;            O ilusionismo não passa de uma ilusão. Ou aceitamos a realidade real, pequena, previsível, óbvia sempre, ou passamos ao outro lado, o oposto de tudo o que conhecemos. Carlos atravessou até chegar nessa região remota. Os que o desafiarem serão transformados, e depois dessa metamorfose já não poderão salvar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por Paulo Bentancur&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-2185932131176632790?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/2185932131176632790/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=2185932131176632790' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2185932131176632790'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2185932131176632790'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/o-mgico-do-azar.html' title='O MÁGICO DO AZAR'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-2438736250099713726</id><published>2007-03-22T06:30:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T06:35:14.151-07:00</updated><title type='text'>OLHO  MÁGICO: CIDADE DOS SONHOS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            A avenida mais iluminada do planeta, protegida por dois paredões de concreto e aço, projeta-se sonho adentro. Ele torce o nariz, não acredita no que digo. Ela me pede que continue, que lhe conte tudo. Ele dá de ombros. Ela abraça o sonho. Eu avivo o fogo, mexo nos gravetos que ardem na clareira enluarada e aviso a quem quiser me ouvir, esqueçam o que sabem, desliguem o cérebro, fechem os olhos e durmam, porque a metrópole vem aí, não adianta querer preservar o presente pra sempre, a avalanche é inevitável. Falo de São Paulo, paraíso e pesadelo. Falo dos bairros sujos de São Paulo, das ruas violentas de São Paulo, do céu enfumaçado de São Paulo. Pra ele e pra ela é como se falasse da cidade futura, da invasão do lixo e da miséria, de viadutos rachados e vagabundos de outro planeta tentando contato via rádio de pilha - estática, grupo de pagode, as putas da General Osório sintonizadas na alta do dólar. Mais curiosos vão se juntando ao redor da fogueira, querem saber quando São Paulo finalmente chegará aqui, em pouco tempo somos vinte, trinta aborígenes muito preocupados com a grande invasão: tribo extinta antes mesmo da morte do último indivíduo. Falo da cidade que se aproxima erguendo altas colunas de poeira, fazendo chover óleo diesel, monóxido de carbono e ácido clorídrico nas plantações de soja e cana-de-açúcar. Falo do edifício mais alto da América Latina, do edifício de mais de quarenta andares, de onde se enxerga tudo o que há em torno, de onde se enxerga a Paulista e todas as outras avenidas, pra onde o Centro Velho, a estação Júlio Prestes e a praça da Sé olham com mais atenção e raiva, pra onde o Pátio do Colégio, o Teatro Municipal e o Minhocão jogam beijos de galã de novela, para onde os marginais e as marginais do rio Pinheiros e as do rio Tietê, o pico do Jaraguá e a serra da Cantareira escapam nas noites de lua cheia. Falo de escadas e elevadores, de tudo o que serve pra nos levar pra cima. Porque é de cima, sempre do alto, que a vida começa a fazer sentido. Guindastes, escavadeiras, betoneiras, bate-estacas, pás, picaretas, os paulistanos construíram a torre de Babel do nosso tempo, ergueram-na camada após camada na direção do sol, ergueram-na com arrogância e soberba mas diferente do que se esperava não foram fulminados por isso. Não tocaram as nuvens, muito menos a morada dos deuses, mesmo assim receberam seu prêmio. Não ultrapassaram as estrelas, muito menos o coração da galáxia, mesmo assim ganharam a mais empolgante das visões: São Paulo de horizonte a horizonte, trezentos e sessenta graus de janelas, cabos e asfalto. As crianças se assustam, já não sei se comigo - com as rugas irritadas da minha voz - ou se com as explosões demoníacas dentro da fogueira. Ele esfrega as mãos, alisa o cabelo e se afasta, não quer saber dessa história maluca, desse conto de fadas. Ela está cansada, sua boca está cansada, seus olhos estão brancos, cansados e encolhidos, ela sente frio apesar de estar tão perto do fogo que por pouco ainda não se queimou. Alguém traz várias garrafas de café e chá, o ronco e o rangido dos carros que chegam e param embaixo da mangueira e do eucalipto, os pneus dianteiros afundados no barro ao lado da cerca de bambu, não me tiram a concentração. Continuo dando volta à fogueira, contando a respeito das tubulações de gás rompidas, dos postes partidos por árvores doentes, das bocas de lobo que durante a chuva deixam de engolir água, dos quarteirões inundados, da merda, dos ratos e dos restos de comida que flutuam pra dentro das casas, da lama dos esgotos colada nas paredes fedorentas. Falo dos cães de guarda de São Paulo, das crianças violentadas de São Paulo, dos seqüestros de São Paulo. Falo de dobermanns e rottweilers, falo de entregadores de flores e de pizza, falo de pistolas semi-automáticas, granadas e submetralhadoras. Ela está toda encolhida, enrolada num cobertor fino. Ao passar devagar ao seu lado acaricio seu cabelo vermelho. Ele continua longe, encostado na cerca de bambu, a ponta do cigarro fazendo sinais, comunicando-se em código morse com a fogueira. Eu continuo falando, encavalando rinocerontes e girafas na entrada do Jardim Zoológico, mandando bola nas traves do estádio do Morumbi, jogando jatinhos contra boeings no aeroporto de Congonhas. As crianças não querem ouvir mais, pegam gravetos com a ponta em brasa e riscam o ar pra longe de nós. Falo de bangue-bangue e golpes de jiu-jítsu, falo de guarda-costas e escudos humanos, falo de automóveis blindados, com vidros de vinte milímetros e pneus envolvidos em cinta de metal. Querem saber como impedir o avanço da metrópole, querem que eu lhes prometa que isso não vai acontecer, que São Paulo jamais chegará aqui. Duas velhas oferecem bolo de fubá e biscoitos de milho, as bandejas tremem de medo, os brincos pressentem a aproximação de algo terrível - as velhas, as bandejas e os brincos não querem morrer soterrados pelo MASP e pelo Viaduto do Chá. A invasão é inevitável, eu digo a todos. E repito, inevitável, enfiem os olhos na fogueira e vejam por si sós, amanhã a esta hora São Paulo terá encampado a cidadezinha onde vocês nasceram, terá destruído as plantações e os pastos, terá recoberto cada centímetro quadrado de suas vidas com a película do progresso, com as cinzas e o sangue da explosão urbana. Porque São Paulo não pára, é apenas boca, estômago e cu, come e caga o dia todo. Porque São Paulo não tem olhos nem ouvidos nem tato: feito fogo na floresta, tem é muita fome. Porque São Paulo é círculo de paladar refinado, é vegetariana, carnívora, macrobiótica, visita todas as mesas, expande-se em todas as direções. Trouxeram mais gravetos para a fogueira, a temperatura cai rapidamente mas ninguém pensa em sair daí, no colo de metade da audiência as crianças dormem o sono dos injustiçados, balbuciam bolhas de guaraná e de pesadelos em miniatura, sonham com a teia de fios elétricos e de antenas telefônicas, com doze mil ônibus e cinco milhões de carros buzinando nas suas orelhinhas. Pelo olho mágico do centro da fogueira assistimos à chegada dos trilhos e dos vagões do metrô, das escadas rolantes e dos painéis de aviso que nos informam, ríspidos como os alto-falantes, que o tempo de espera entre um trem e outro é de dois minutos. A hora do rush me pega de surpresa justo quando, seguindo o exemplo dos outros, eu também me preparo para alimentar a fogueira. Parte do piso do shopping Eldorado salta do fogo para o graveto e depois para o meu braço estendido, o metrô passa, o chão treme e em meio minuto estou inteiro em chamas. A linha de ônibus 4111 (V. Monumento-Pça. da República) atraca-se com a 408-A (Machado de Assis-Cardoso de Almeida) na altura do meu ombro, esfarelando os ossos. Não sinto nenhuma dor. Minha língua queima, meu cabelo queima, sou o Tocha Humana: pelado, iluminando a noite. Ela tenta segurar meu braço mas é arrastada pela correnteza que escorre pra fora da fogueira, ele nada na sua direção, mergulha no tonel de azeitonas do Mercado Central, engole vinho, salta pra fora da gôndola de salmão e acaba tragado pelo redemoinho. Ergue-se a onda de mais de cento e cinqüenta metros de altura, os patos e os marrecos do parque Ibirapuera voam através da roda-gigante do Playcenter, que rola e quica e atropela os carros embaixo do eucalipto. Ouço o chiado da minha própria carne que apesar da água insiste em queimar. A onda metropolitana quebra sobre nossas cabeças - brincos, sapatos e óculos sobram pra todos os lados, misturados com os sushis e os chucrutes servidos pelo Grupo XPTO. Lá adiante a Vila Madalena enrola-se em si mesma e se choca contra os recifes, o oceano recua pra voltar com mais força, em cima de nós o Tatuapé e a Mooca espirram espuma e sal, afogando os mais velhos, divertindo as crianças, apagando meu fogo e gelando meu ânimo. O espírito da Rebouças, da 23 de Maio, da Lins de Vasconcelos e de todas as grandes avenidas de São Paulo rodopia em torno de nós, atravessa a floresta, entra no centro da cidade e reduz à poeira o que já é pequeno: destrói nossa igreja, nossas casas comerciais e nossas residências, pulveriza tudo e ergue no seu lugar viadutos, edifícios, pavilhões e shopping centers. A correnteza devagar vai perdendo a força, os novos quarteirões e as novas placas de rua já não rodopiam tão rápido, os luminosos começam a piscar na freqüência tolerável para o olho humano e o trânsito, onde antes havia apenas pasto e desolação, apesar de intenso não dá mostra de querer desrespeitar o sinal fechado. Meus antigos amigos, as pessoas com quem estive ao redor da fogueira, não me reconhecem mais, deixaram metade da memória nas dependências do Memorial da América Latina, a outra metade perderam por aí. Eu também aos poucos começo a me esquecer de todos: novas roupas, novos endereços, novas identidades. A última lufada de ar põe na minha mão o guia da cidade, as linhas do metrô, a Casa das Rosas e o Monumento às Bandeiras. Graças ao empurra-empurra cada peça encaixa-se no seu devido lugar. São Paulo instala-se confortavelmente sob nossos pés, sobre nossas cabeças: a madrugada provinciana, nossa amada madrugada úmida e estrelada, é agora a madrugada paulistana, seca e fuliginosa. Mas nem tudo está perdido, existe alguém de quem não consigo me esquecer. Em questão de minutos, ela, minha amiga nos momentos difíceis, renascendo mais bonita do que nunca desembarca na estação da Luz. Ela está cansada, sua boca está cansada, seus olhos estão brancos, cansados e encolhidos, ela sente frio e não há mais fogueira com a qual se esquentar. Compro-lhe flores na banca mais charmosa da Dr. Arnaldo. Na mesma banca que, ao que tudo indica - meu nome está pintado na fachada -, sempre me pertenceu e onde trabalho há anos.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por NELSON DE OLIVEIRA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-2438736250099713726?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/2438736250099713726/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=2438736250099713726' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2438736250099713726'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2438736250099713726'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/olho-mgico-cidade-dos-sonhos.html' title='OLHO  MÁGICO: CIDADE DOS SONHOS'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-3785167132498975187</id><published>2007-03-22T06:28:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T06:30:24.271-07:00</updated><title type='text'>INSÔNIA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;  Eu devia ter dito alguma coisa, pensava Antocha Tchekonté, a revirar-se na cama. A consciência, dilatada pelo silêncio e pelo calor, cobrava-lhe, tardiamente, uma atitude. O Diretor Administrativo, diante de vários membros do Gabinete, na reunião da tarde, que se estendera por várias horas, apresentara documentos incômodos, indícios de incúria, de má gestão. "Exijo uma Sindicância", disse, sem erguer a voz, e fitou o amigo Antocha, como que a buscar apoio para aquele procedimento. "Para proteger o Ordenador de Despesas", continuou. Sem encontrar posição na cama, Tchekonté levantou-se, foi à janela e fumou um cigarro no escuro. Do apartamento, podia ver a avenida iluminada, por onde trafegavam escassos automóveis. Recordou-se do Secretário, a pontificar, exaltado, na cabeceira da mesa, sobre o perigo da "pequena política, que nos faz perder de vista o Projeto". Ah, pensou Antocha, se o Projeto fosse como a avenida, linear, balizado por lâmpadas potentes, asfaltado.      &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; Era um técnico competente, o funcionário de terceiro escalão. Aposentado pelo Tribunal de Contas, acumulava ao salário os rendimentos do cargo de confiança, desde que seu partido assumira o poder. Merecia o que ganhava. Zeloso e pontual, jamais esquivava-se ao trabalho. Conhecia bem a legislação federal, a constituição estadual e o estatuto do servidor público. Com freqüência, auxiliava o próprio Departamento Jurídico, cujos advogados, em início de carreira, perdiam-se ainda nos labirintos burocráticos. No dia em que o Secretário o convocou "a fazer parte do Gabinete" – seria uma espécie de assessor político –, Antocha refugiou-se no banheiro e enxugou as lágrimas. Enfim, o reconhecimento. Pena que o pai, o velho sapateiro comunista do bairro, não estivesse ali, para vê-lo. Morrera antes, nos porões da ditadura.      Nas primeiras reuniões, o novo membro do Conselho Político, Antocha Tchekonté, entusiasmou-se. Houve um dia em que arriscou até um pequeno discurso. Ao retornar do almoço, foi chamado à sala do Chefe de Gabinete. Que se contivesse, recomendava o superior. O Secretário não gostava de gente muito saliente. Desde então, Antocha encolhia-se, afundava na cadeira, distraía-se com uma revista ou um jornal durante as intermináveis discussões, a contemplar os pássaros sobre os telhados da vizinhança. Tudo não passava, mesmo, de um jogo, a vontade férrea do Secretário sempre se impunha, e ele não estava disposto a participar da encenação, seu talento para o teatro esgotara-se no final da adolescência. Contra a força, não há argumento, passou a sentenciar Antocha pelos corredores aos mais jovens, aos recém-chegados. Havia sempre a quem ensinar, que a ciranda de novos assessores não cessava nunca. Assim, loquaz antes e depois das reuniões, no transcorrer delas fechava-se num mutismo mineral. Desta forma, sobreviveu à movimentação frenética no quadro funcional da Secretaria. Dos velhos colegas, restava ainda o Diretor Administrativo, com quem compartilhava angústias partidárias e preocupações teóricas. Só até amanhã, recordou-se o funcionário. No dia seguinte, o Diário Oficial estamparia a demissão do Diretor Administrativo.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Antocha arrastou-se ao banheiro, urinou, deu a descarga, sempre no escuro. Se acendesse a luz, iria sentir-se obrigado a olhar para o espelho. E não queria ver a própria face. Bebeu água, molhou o rosto e os cabelos que ainda lhe restavam. Por um segundo, a aflição cessou. Teve, nesse momento, a ilusão de que seria capaz de adormecer, bastava tornar a deitar-se. "Eu quis falar", disse, para si mesmo, com a voz grave, empostada. "Eu quis falar, pai", repetiu.      O funcionário Antocha Tchekonté era honesto consigo mesmo, sempre fora. Sim, ele quisera falar, revoltar-se, fazer valer a sua condição de membro do partido, de contribuinte assíduo e generoso, mas algo, não sabia se a desilusão, o medo ou a vergonha, o fazia calar-se. Silenciou, e agora o silêncio reverberava dentro dele, crescia, quase o sufocava.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Retornou ao quarto, sentou-se na cama, cobriu as orelhas com as mãos espalmadas. As palavras, dos outros, por que a sua não fora ouvida, e ele devia ter-se feito ouvir, retumbavam nos seus ouvidos.     &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; "Fetichista da lei", gritava o Secretário ao Diretor Administrativo.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;"Na sua opinião, o ordenamento jurídico é um entrave burocrático", retrucava o subordinado.      &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; "Reizinho da ética", desabafava a Autoridade.      &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; "Peço exoneração", dizia o amigo de Antocha a recolher os papéis sobre a mesa, um a um, as faturas, as notas de empenho, as notas fiscais, com a mesma paciência de sempre e o mesmo sorriso nos lábios.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;E o funcionário Antocha Tchekonté lá, em silêncio, sentindo-se humilhado, quase com ânsia de vômito. Fora daqueles militantes que tinham sonhado com uma administração decente, dedicara-se ao partido com ardor, engrossara comícios e plenárias, sacrificara os horários de almoço para panfleteações e bandeiraços nas esquinas da cidade, e não conseguia falar, não conseguia solidarizar-se com o companheiro que defendia os valores que todos diziam defender, não conseguia condenar as práticas que tornavam o seu partido em tudo semelhante aos outros partidos.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Antocha Tchekonté não suportou mais permanecer no escuro. Acendeu a lâmpada de cabeceira, tateou atrás dos óculos. Tão logo as pupilas acostumaram-se à nova situação, apanhou o livro que o Secretário lhe emprestara, e retomou a leitura. Percebeu, então, que as lentes estavam fracas.      &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; Amanhã, pensou, vou ao oculista. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por CHARLES KIEFER&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-3785167132498975187?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/3785167132498975187/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=3785167132498975187' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3785167132498975187'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3785167132498975187'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/insnia.html' title='INSÔNIA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-7224283023432434787</id><published>2007-03-22T06:27:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T06:28:48.671-07:00</updated><title type='text'>NAÇÃO  ZUMBI</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;          E o rim não é meu? Logo eu que ia ganhar dez mil, ia ganhar. Tinha até marcado uma feijoada pra quando eu voltar, uma feijoada. E roda de samba pra gente rodar. Até clarear, de manhã, pelas bandas de cá. E o rim não é meu, saravá? Quem me deu não foi Aquele-Lá-de-Cima, Meu Deus, Jesus e Oxalá?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;              O esquema é bacana. Os caras chegam aqui e levam a gente pra Luanda ou Pretória. No maior conforto e na maior glória. Puta oportunidade só uma vez na vida, quando agora? Dar um pulinho na cidade de Nampula. Quem sabe, tirar fotografia? Abraçar outro negrão igual a mim, conversar noutra língua mesmo sem saber conversar.              Assim: lorotar, contar piada. Dançar no fogo, sei não. Em cima de brasa, dentro de caldeirão. Sumir na mata fechada. Espinho de flecha, pedra de amolar. Disseram que na África tem muita macacada. Tem muito leão e zebra. Hipopótamo-pigmeu, quem já ouviu falar? Nem eu.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;              Dizem que é bonito o hospital de lá. Bom de se internar. De se recuperar. Livre comércio de rim, sim. Isso mesmo, o que é que há? Meu sonho não foi sempre o de voar, feito um Orixá? Pôr meus pés em cabine de avião. Diz aí, meu irmão, minha asa quem mandou cortar? Quando irei sorrir quando a nuvem me pegar? Ver o chão lá de cima? Recife comendo as beiradas de Olinda. De longe, as pedras de Itamaracá.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;              Que merda!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;              Por que não cuidam eles deles, ora essa? O rim é meu ou não é? Até um pé eu venderia e de muleta eu viveria. Na minha. Arrancaria um dedo, deixaria uma mão sozinha. Um olho enxerga pelos dois ou não enxerga? Se é pra livrar minha barriga da miséria, até cego eu ficaria. Depois eu ia ali na ponte, ao meio-dia, ganhar mais dinheiro. Diria que foi um acidente, que esses buracos apareceram de repente, em cima do meu nariz. Quem quer ver a agonia de um doente, assim, infeliz, hein, companheiro?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;              Fácil é denunciar, cagar regra e cagüetar. O que é que tem? O rim não é meu, bando de filho da puta? Cuidar da minha saúde ninguém cuida. Se não fosse eu mesmo me alimentar. Arranjar batata e caruá, pirão de caranguejo. Não tenho medo de cara feia, não tenho medo. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;             Por que vocês não se preocupam com os meninos aí, soltos na rua? Tanta criança morta e inteirinha, desperdiçada em tudo que é esquina. Tanta córnea e tanta espinha. Por que não se aproveita nada no Brasil, ora bosta? Viu? Aqui se mata mais que na Etiópia, à míngua. Meu rim ia salvar uma vida, não ia salvar? Diz, não ia salvar? Perdi dez mil, e agora? &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;            A polícia em minha porta, vindo pra cima de mim. Puta que pariu, que sufoco! De inveja, sei que vão encher meu pobre rim de soco.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por MARCELINO FREIRE&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-7224283023432434787?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/7224283023432434787/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=7224283023432434787' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7224283023432434787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7224283023432434787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/nao-zumbi.html' title='NAÇÃO  ZUMBI'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-4836193160404811580</id><published>2007-03-22T06:20:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T06:27:25.975-07:00</updated><title type='text'>MISTÉRIOS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Somos nós garotas pequenas no espelho da caixinha de música, que para o voltear da branca bailarina de plástico em saia de gaze toca a Pour Élise [música que sei tocar no piano ganho de meu pai]; posso ver, abaixo das cortinas que também dançam na noite quente, a dentadura amarela e preta do piano, por trás dos meus olhos azuis, através do espelho - e é como se ele nos quisesse devorar em tons menores, eu e eu, bailarina e bailarina. Porém, entre uma oitava e outra se interpõe o cinto metálico do meu pai.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;- Graça!       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Meu pai me nomeia não com a doçura ou uma certa vaidade como de sempre, nas vezes em que me ensina a tocar valsas, mas de um jeito que minha pele toda se arrepia, da nuca ao final da espinha; e tudo que posso fazer é virar meu pescoço - que parece estalar quando ele meu pai me dá um tapa:      &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; - O que era aquilo que você escreveu no seu diário, hein, menininha? - Me levanta pelos ombros com suas mãos calejadas e precisas. - Sua menina suja! - As mãos dele têm pêlos pretos, como aqueles, arrepiados, de cima da boca de sussurro, um mustache de gato no cio; meu rosto parece uma floresta de pêlos vermelhos enquanto ele me empurra: - Você vai queimar o seu diário e é já, na minha frente, viu? Sua… Você contou alguma coisa disso para alguém? Contou? - Eu quero dizer que não, mas a minha boca treme e eu não consigo olhar para ele meu pai, os ouvidos explodindo com a contínua musiquinha, eu quero ser a bailarina, eu quero ser a - Contou? Você contou, né? - me sacode de novo pelo meu quarto de princesa cujo corpo não a obedece, eu quero falar - Fala! Fala pra quem você contou? - um bigode de retrato sépia ele tem, penso ao mesmo tempo em que meus ossos chacoalham sob os pulsos e só agora percebo-me nua vinda do banho distraída com saudade da bailarina presente de aniversário - Pra quem foi, menina imunda? Pra quem? - é sangue isso que sai da boca? outro tapa - Diz, menina, se não quiser apanhar de verdade! - me aperta e desembesta pra todo lado e eu vou fugindo de costas mas minha espinha só encontra atrás o espelho onde caio e me corto e me rompo até o corpo, meu maior inimigo, dançar uma valsa de choro e grito em que um calor de vidros me lambe e me lanha e então são só as mãos dele meu pai me pegando de novo agora leves desculpas - meu Deus, que loucura, o papai não quis - , enquanto a música e a bailarina cada vez mais remansosas. E detrás do abraço quente a verde tarde, lá fora.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Minutos depois estou sentada nesta mesa rodeada de plantas e seus cheiros de pássaros em vôos breves, a observar a drosera comer mais uma drosophila melanogaster. Sou eu mesma quem traz as mosquinhas para o almoço da planta carnívora aqui no escritório do meu primeiro emprego - escondida do seu Horácio, é claro, ele não se conformaria com o meu prazer em observar a planta em raiz de ratoeira e o lento trabalho de ressecamento a que o inseto é submetido até virar dois olhos secos. O telefone toca e eu atendo:       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;- A GPA Paisagismo informa: hoje, 20 de janeiro, é o dia do músico, do médico rural e de São Jerônimo. Bom dia. Seu Horácio? Quem gostaria? É de onde?       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Transfiro a ligação para meu chefe, com voz atapetada - ele tem ouvidos de vidro - e volto a preencher, obstinada, as palavras cruzadas, meu passatempo favorito. Um lápis na boca e os dedos nos cabelos que uso compridos e lisos, último ciclo da lagarta? Seu Horácio aprecia gravatas borboletas sempre e quase tanto o mesmo terno cor de ferrugem que combina bem com o tom de seus solitários cabelos. Ele é baixinho e me manda toda vez que eu atendo ao telefone dar esse serviço de utilidade pública [como ele declama] de citar as efemérides e datas comemorativas todo santo telefonema, embora isso não tenha nada a ver nem a ouvir com esta firma. O telefone outra vez: é a voz de Geraldo, um cara do meu curso técnico de propaganda; então só digo mesmo       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;- Alô? Oi, tudo bem?       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;e ele me convida para a pré-estréia do filme Frankenstein, história que sabe que eu adoro. Um rapaz tão gozado e bacana, tem um tique de subir e abaixar a cabeça enquanto fala, e adora me contar lorotas; gosto mais dele pelo telefone [pelo mistério], apesar de ele ser bonitinho, lá do seu desajeito. Mas logo que desligo:       - Senhorita Maria das Graças, preciso lhe falar uma coisa.      &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; - Sim?       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;- Percebi que a senhorita não informou há pouco as efemérides, que são nosso cartão de visita.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;- Não?       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;- E já não é a primeira vez. - Hoje está de suspensórios. Olhos pequenos enviesados pela tartaruga dos óculos e mãos incríveis para avencas e orquídeas, como orgulhou-se a mim certa vez, muito bem assentado em seus sapatos de castanho verniz, Seu Horácio enquadra-me como se eu fosse capim. - Já não é a primeira vez que a senhorita tem esse lapso, tenho reparado…       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Jogando ao ar estas reticências, coloca-me no coração uns pulos; minhas papilas secas e minhas pupilas acendem-se quando ele me dá as costas e pega o regador de alumínio, brilhante ao sol das vidraças abertas. Os suspensórios desenham em marrom um X por suas costas e seu olhar, ora refletido na vidraça dirigindo-se a meus olhos, ora demorado na samambaia em que ele asperge água francesa [suas plantas só bebem de outras terras], endurece-se quando ele me diz, doce:       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;- A senhorita está despedida. Justa causa.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Uma espécie de formigamento na nuca: os pêlos se eriçando, é o meu terceiro mês no primeiro emprego, o segundo ano após a morte de meu pai e a mensalidade do curso é para depois de amanhã. Vem um vento fresco da janela junto à mansa voz:       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;- Dia 20 de janeiro, dia da senhorita Graça esvaziar as gavetas…      &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; Não sei por quê, penso no saco cheio de pobres mosquinhas, escondido na minha bolsa. No entanto, algum tempo após vários homens passeiam à frente de minha mesa transportando vidros longos e cheirosos de suor e massa de fixar, costas musculosas e fibrosas eles têm. Do outro lado da vidraçaria, no imenso galpão, o doutor Adolfo dá de comer ao seu mastim negro, acarinhando-o:      &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt; - Onde está o meu pretinho? O pretinho meu amiguinho? Meu amiguinho Bidu!       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Alimentado o bicho, doutor Adolfo - um senhor muito enorme, gordíssimo de seu nariz adunco e profundos olhos gris e que se veste um tanto desleixadamente - me recomenda que devo melhorar a minha letra. Segundo ele, ela está       - Muito pouco caprichada. Quem sabe um pouco mais de treino, hein? É simples: é só tentar. O erro é o primeiro passo para o acerto. E o primeiro acerto é o primeiro passo para o sucesso. Não posso ficar entregando essas faturas com essa letrinha de criança! E olha que a senhora já está bem crescidinha… já procurou o professor De Franco?       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Este último é de um curso de caligrafia; entretanto, agora não tenho tempo para essas coisas, agora que estou grávida e preciso fazer as roupinhas do Marcos. Meu chefe sai da loja para a rua distribuindo ordem aos seus comandados, que colocam as grandes lâminas luminosas na caminhonete. Fico só. Olho para o teclado da máquina de escrever elétrica na mesa do doutor Adolfo [ele gosta de ser chamado assim, embora não tenha passado do ginásio, como descobri] - e então meu olhar caminha pelo meu dedo médio esquerdo, calejado pela escrita de notas fiscais e faturas e duplicatas que secam pelo menos todo o azul de um dia de caneta. Sinto um seio estranho: parece algo grudando no sutiã; discretamente deslizo meu dedo pelo mamilo - minha mão esquerda retorna com cheiro quente de leite, uma gota, que eu chupo. Penso em fazer um pouquinho de crochê: abro a gaveta e entrevejo, meio aos novelos, uma velha revista do meu curso de propaganda. Fecho de novo a gaveta, desistindo.        &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Doutor Adolfo não quer que eu use a máquina de escrever pois acredita na força e na verdade da palavra caligrafada. Já eu acredito que teria grande prazer em pousar meus dedos naquele teclado, como pássaros descansam num fio de alta tensão meus dedos queriam fechar um pouco suas asas. Puxa, que interessante essa revelação caída sobre a mesa: um fio de cabelo branco. Deve ser o primeiro. Nesse momento, percebo que o doutor Adolfo, após despedir-se de seus homens suados, entra com muita dificuldade em seu grande carro azul de quatro portas, o mastim Bidu atrás, crivando de baba os banco de preto couro.       &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Distraidamente, acompanho o mover-se de meu chefe. Liga o carro; porém parece que ele se esqueceu de alguma coisa, e pára de repente. Abre a porta e prepara-se para descer - quando nota que algo o prende. Aguço a visão: uma ponta do cinto de sua calça se engancha com o cinto de segurança. Suando um pouco [como é gordo!], ele se vira - mas foi pior: a calça se enroscou de todo, doutor Adolfo puxa e não consegue se soltar. Tenta se virar para um lado e outro e só o que acontece é se prender cada vez mais, a barriga já aparece por sob a camisa de listas sedosas, um peludo umbigo salta como um palavrão na tarde ensolarada, na tarde em que os homens trabalham e nada percebem dos percalços de seu patrão. Patrão que não oculta um enorme palavrão, eu posso vê-lo mas ele não, escondida que estou atrás do vidro fumê da porta. Na rua deserta, somente um caminhão de gás aponta na esquina, e eu começo a sentir pontadas por todo o abdômen; penso que deve ser o bebê, deve ser o bebê, minha barriga dói - enquanto que a de seu Adolfo, quer dizer, doutor Adolfo, explode em triunfo pelas dobras da camisa. Enquanto o cão late, doutor Adolfo xinga, rexinga e me chama, pois a caminhonete com os vidros já foi embora, ele está sozinho e precisa de ajuda; no entanto, meu corpo, tomado de eletricidade, sentada aqui a esta cadeira como se fosse elétrica, não há ninguém por perto e o doutor Adolfo berra Graça! Graça! Graça, venha já aqui!. Serão chutes na barriga, o Marcos será um bom jogador de futebol?        &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Meu chefe se contorce e meu corpo envenenado por flechas estremece-se de queimações, lanças de mistérios e horrores frios, fazendo-me retesar os ouvidos para a música que os alto-falantes do caminhão de gás toca para anunciar sua chegada e é, música de Beethoven com 9 letras, muito popular, Pour Élise; Bidu, imaginando que é tudo uma brincadeira, late feliz, pula e lambe as costas do doutor Adolfo, que, preso pela bunda feito uma mulher do século XVII à armação da saia, me joga através do fumê preto um olhar de ódio, eu não sei se deveria ir ajudá-lo ou fazer que não vejo e continuar acompanhando seu circo, só sei estremecer de terror, cair no chão, contrair-me, e então puxar o vestido, baixar a calcinha e escancarar-me, Marcos!, vou parir um monstro!, vou parir-me, vou-me, perdida, perdida, perdida saúdo o mundo com minha substância mais profunda - onde foi parar o bebê? Ah, meu pai, não posso vê-lo com esse sangue todo em cima... Meu corpo, essa desgraça, encontra no galpão um espelho, no meio desse ar cheio de ventos como antes da chuva, mas eu não consigo de forma alguma compreender de que mulher são aqueles olhos azuis que me olham.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por RONALDO BRESSANE &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-4836193160404811580?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/4836193160404811580/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=4836193160404811580' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/4836193160404811580'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/4836193160404811580'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/mistrios.html' title='MISTÉRIOS'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-141655506754494761</id><published>2007-03-21T21:12:00.000-07:00</published><updated>2007-03-21T21:17:13.537-07:00</updated><title type='text'>A ARANHA</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;br /&gt; &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;— Quer assunto para um conto? — perguntou o Enéias, cercando-me no corredor.Sorri.— Não, obrigado.— Mas é assunto ótimo, verdadeiro, vivido, acontecido, interessantíssimo!— Não, não é preciso... Fica para outra vez...— Você está com pressa?— Muita!— Bem, de outra vez será. Dá um conto estupendo. E com esta vantagem: aconteceu... É só florear um pouco. — Está bem... Então... até logo... Tenho que apanhar o elevador...Quando me despedia, surge um terceiro. Prendendo-me à prosa. Desmoralizando-me a pressa.— Então, que há de novo?— Estávamos batendo papo... Eu estava cedendo, de graça, um assunto notável para um conto. Tão bom, que até comecei a esboçá-lo, há tempos. Mas conto não é gênero meu — continuou o Enéias, os olhos muito azuis transbordando de generosidade.— Sobre o quê? — perguntou o outro.Eu estava frio. Não havia remédio. Tinha que ouvir, mais uma vez, o assunto.— Um caso passado. Conheceu o Melo, que foi dono de uma grande torrefação aqui em São Paulo, e tinha uma ou várias fazendas pelo interior?Pergunta dirigida a mim. Era mais fácil concordar:— Conheci.— Pois olhe. Foi com o Melo. Quem contou foi ele. Esse é o maior interesse do fato. Coisa vivida. Batatal. Sem literatura. É só utilizar o material, e acrescentar uns floreios, para encher, ou para dar mais efeito. Eu ouvi a história, dele mesmo, certa noite, em casa do velho. Não sei se você sabe que o Melo é um violinista famoso. Um artista. Tenho conhecido poucos violões tão bem tocados quanto o dele. Só que ele não é profissional nem fez nunca muita questão de aparecer. Deve ter tocado em público poucas vezes. Uma ou duas, até, se não me engano, no Municipal. Mas o homem é um colosso. O filho está aí, confirmando o sangue... fazendo sucesso.— Bem... eu vou indo... Tenho encontro marcado. Fica a história para outra ocasião. Não leve a mal. Você sabe: eu sou escravo.Ora essa! Claro! Até logo.Palmadinha no ombro dele. Palmadinha no meu. Chamei o elevador.— É um caso único no gênero — continuou Enéias para o companheiro. — O Melo tinha uma fazenda, creio que na Alta Paulista. Passava lá enormes temporadas, sozinho, num casarão desolador. Era um verdadeiro deserto. E como era natural, distração dele era o violão velho de guerra. Hora livre, pinho no braço, dedada nas cordas. No fundo, um romântico, um sentimental. O pinho dele soluça mesmo. Geme de doer. Corta a alma. É contagiante, envolvente, de machucar. Ouvi-o tocar várias vezes. A Madrugada que Passou, O Luar do Sertão, e tudo quanto é modinha sentida que há por aí tira até lágrima da gente, quando o Melo toca...— Completo! — gritou o ascensorista, de dentro do elevador, que não parou, carregado com gente que vinha do décimo andar, acotovelando-se de fome.Apertei três ou quatro vezes a campainha, para assegurar o meu direito à viagem seguinte.Enéias continuava.— E não é só modinha... Os clássicos. Música no duro... Ele tira Chopin e até Beethoven. A Tarantela de Liszt é qualquer coisa, interpretada pelo Melo... Pois bem... (Isto foi contado por ele, hein! Não estou inventando. Eu passo a coisa como recebi.) Uma noite, sozinho na sala de jantar, Melo puxou o violão, meio triste, e começou a tocar. Tocou sei lá o quê. Qualquer coisa. Sei que era uma toada melancólica. Acho que havia luar, ele não disse. Mas quem fizer o conto pode pôr luar. Carregando, mesmo. Sempre dá mais efeito. Dá ambiente.O elevador abriu-se. Quis entrar.— Sobe!Recuei.— Você sabe: nessa história de literatura, o que dá vida é o enchimento, a paisagem. Um tostão de lua, duzentão de palmeira, quatrocentos de vento sibilando na copa das árvores, é barato e agrada sempre... De modo que quem fizer o conto deve botar um pouco de tudo isso. Eu dou só o esqueleto. Quem quiser que aproveite... O Melo estava tocando. Luz, isso ele contou, fraca. Produzida na própria fazenda. Você conhece iluminação de motor. Pisca-pisca. Luz alaranjada.— A luz alaranjada não é do motor, é do...— Bem, isso não vem ao caso... Luz vagabunda. Fraquinha...— Desce!Dois sujeitos, que esperavam também, precipitaram-se para o elevador.— Completo!— O Melo estava tocando... Inteiramente longe da vida. De repente, olhou para o chão. Poucos passos adiante, enorme, cabeluda, uma aranha caranguejeira. Ele sentiu um arrepio. Era um bicho horrível. Parou o violão para dar um golpe na bruta. Mal parou, porém, a aranha, com uma rapidez incrível, fugiu, penetrando numa frincha da parede, entre o rodapé e o soalho. O Melo ficou frio de horror. Nunca tinha visto aranha tão grande, tão monstruosa. Encostou o violão. Procurou um pau, para maior garantia, e ficou esperando. Nada. A bicha não saía. Armou-se de coragem. Aproximou-se da parede, meio de lado, começou a bater na entrada da fresta, para ver se atraía a bichona. Era preciso matá-la. Mas a danada era sabida. Não saiu. Esperou ainda uns quinze minutos. Como não vinha mesmo, voltou para a rede, pôs-se a tocar outra vez a mesma toada triste. Não demorou, a pernona cabeluda da aranha apontou na frincha...O elevador abriu-se com violência, despejando três ou quatro passageiros, fechou-se outra vez, subiu.O Enéias continuava.— Apareceu a pernona, a bruta foi chegando. Veio vindo. O Melo parou o violão, para novo golpe. Mas a aranha, depois de uma ligeira hesitação, antes que o homem se aproximasse, afundou outra vez no buraco. "Ora essa!" Ele ficou intrigado. Esperou mais um pouco, recomeçou a tocar. E quatro ou cinco minutos depois, a cena se repetiu. Timidamente, devargazinho, a aranha apontou, foi saindo da fresta. Avançava lentamente, como fascinada. Apesar de enorme e cabeluda, tinha um ar pacífico, familiar. O Melo teve uma idéia. "Será por causa da música?" Parou, espreitou. A aranha avançaria uns dois palmos...— Desce! — Eu vou na outra viagem.— Dito e feito... — continuou Enéias. — A bicha ficou titubeante, como tonta. Depois, moveu-se lentamente, indo se esconder outra vez. Quando ele recomeçou a tocar, já foi com intuito de experiência. Para ver se ela voltava. E voltou. No duro. Três ou quatro vezes a cena se repetiu. A aranha vinha, a aranha voltava. Três ou mais vezes. Até que ele resolveu ir dormir, não sei com que estranha coragem, porque um sujeito saber que tem dentro de casa um bicho desses, venenoso e agressivo, sem procurar liquidá-lo, é preciso ter sangue! No dia seguinte, passou o dia inteiro excitadíssimo. Isto sim, dava um capítulo formidável. Naquela angústia, naquela preocupação. "Será que a aranha volta? Não seria tudo pura coincidência?" Ele estava ocupadíssimo com a colheita. Só à noite voltaria para o casarão da fazenda. Teve que almoçar com os colonos, no cafezal. Andou a cavalo o dia inteiro. E sempre pensando na aranha. O sujeito que fizer o conto pode tecer uma porção de coisas em torno dessa expectativa. À noite, quando se viu livre, voltou para casa. Jantou às pressas. Foi correndo buscar o violão. Estava nervoso. "Será que a bicha vem?" Nem por sombras pensou no perigo que havia ter em casa um animal daqueles. Queria saber se "ela" voltava. Começou a tocar como quem se apresenta em público pela primeira vez. Coração batendo. Tocou. O olho na fresta. Qual não foi a alegria dele quando, quinze ou vinte minutos depois, como um viajante que avista terra, depois de uma longa viagem, percebeu que era ela... o pernão cabeludo, o vulto escuro no canto mal iluminado.— (Desce!— Sobe!— Desce!— Sobe!)— A aranha surgiu de todo. O mesmo jeito estonteado, hesitante, o mesmo ar arrastado. Parou a meia distância. Estava escutando. Evidentemente, estava. Aí, ele quis completar a experiência. Deixou de tocar. E como na véspera, quando o silêncio se prolongou, a caranguejeira começou a se mover pouco a pouco, como quem se desencanta, para se esconder novamente. É escusado dizer que a cena se repetiu nesse mesmo ritmo uma porção de vezes. E para encurtar a história, a aranha ficou famosa. O Melo passou o caso adiante. Começou a vir gente da vizinhança, para ver a aranha amiga da música. Todas as noites era aquela romaria. Amigos, empregados, o administrador, gente da cidade, todos queriam conhecer a cabeluda fã de O Luar do Sertão, e de outras modinhas. E até de música boa. Chopin... Eu não sei qual é... Mas havia um noturno de Chopin que era infalível. Mesmo depois de acabado, ele ainda ficava como que amolentada, ouvindo ainda. E tinha uma predileção especial pela Gavota, ela surgia. O curioso é que o Melo tocava todas as noites. Havia ocasiões em que custava a aparecer. Mas era só tocar a Gavota, ela surgia. O curioso é que o Melo se tomou de amores pela aranha. Ficou sendo a distração, a companheira e Ela, com E grande. Chegou até a pôr-lhe nome, não me lembro qual. E ele conta que, desde então, não sentiu mais a solidão incrível da fazenda. Os dois se compreendiam, se irmanavam. Ele sentia quais as músicas que mais tocavam a sensibilidade "dela"... E insistia, nessas, para agradar a inesperada companheira de noitadas. Chegou mesmo a dizer que, após dois ou três meses daquela comunhão — o caso já não despertava interesse, os amigos já haviam desertado — ele começava a pensar, com pena, que tinha de voltar para São Paulo. Como ficaria a coitada? Que seria dela, sem o seu violão? Como abandonar uma companheira tão fiel? Sim, porque trazê-la para São Paulo, isso não seria fácil!... Pois bem, uma noite, apareceu um camarada de fora, que não sabia da história. Creio que um viajante, um representante qualquer de uma casa comissária de Santos. Hospedou-se com ele. Cheio de prosa, de novidades. Os dois ficaram conversando longamente, inesperada palestra de cidade naqueles fundos de sertão. Negócios, safras, cotações, mexericos. Às tantas, esquecido até da velha amiga, o Melo tomou do violão, velho hábito que era um prolongamento de sua vida. Começou a tocar, distraído. Não se lembrou de avisar o amigo. A aranha quotidiana apareceu. O amigo escutava. De repente, seus olhos a viram. Arrepiou-se de espanto. E, num salto violento, sem perceber o grito desesperado com que o procurava deter o hospedeiro, caiu sobre a aranha, esmagando-a com o sapatão cheio de lama. O Melo soltou um grito de dor. O rapaz olhou-o. Sem compreender, comentou: — Que perigo, hein? O outro não respondeu logo. Estava pálido, numa angústia mortal nos olhos.— E justamente quando eu tocava a Gavota de Tárrega, a que ela preferia, coitadinha...— Mas o que há? Eu não compreendo...E vocês não imaginam o desapontamento, a humilhação com que ele ouviu toda essa história que eu contei agora...— Desce!Desci. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Orígenes Lessa&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;(Omelete em Bombaim, 1946.)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-141655506754494761?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/141655506754494761/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=141655506754494761' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/141655506754494761'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/141655506754494761'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/aranha.html' title='A ARANHA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-4439244702313469001</id><published>2007-03-21T21:08:00.002-07:00</published><updated>2007-03-21T21:12:54.372-07:00</updated><title type='text'>COMO NASCE UMA HISTÓRIA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Quando cheguei ao edifício, tomei o elevador que serve do primeiro ao décimo quarto andar. Era pelo menos o que dizia a tabuleta no alto da porta.&lt;br /&gt;- Sétimo - pedi.&lt;br /&gt;Eu estava sendo aguardado no auditório, onde faria uma palestra. Eram as secretárias daquela companhia que celebravam o Dia da Secretária e que, desvanecedoramente para mim, haviam-me incluído entre as celebrações.&lt;br /&gt;A porta se fechou e começamos a subir. Minha atenção se fixou num aviso que dizia:&lt;br /&gt;É expressamente proibido os funcionários, no ato da subida, utilizarem os elevadores para descerem.&lt;br /&gt;Desde o meu tempo de ginásio sei que se trata de problema complicado, este do infinitivo pessoal. Prevaleciam então duas regras mestras que deveriam ser rigorosamente obedecidas, quando se tratava do uso deste traiçoeiro tempo de verbo. O diabo é que as duas não se complementavam: ao contrário, em certos casos francamente se contradiziam. Uma afirmava que o sujeito, sendo o mesmo, impedia que o verbo se flexionasse. Da outra infelizmente já não me lembrava. Bastava a primeira para me assegurar de que, no caso, havia um clamoroso erro de concordância.&lt;br /&gt;Mas não foi o emprego pouco castiço do infinitivo pessoal que me intrigou no tal aviso: foi estar ele concebido de maneira chocante aos delicados ouvidos de um escritor que se preza.&lt;br /&gt;Ah, aquela cozinheira a que se refere García Márquez, que tinha redação própria! Quantas vezes clamei, como ele, por alguém que me pudesse valer nos momentos de aperto, qual seja o de redigir um telegrama de felicitações. Ou um simples aviso como este:&lt;br /&gt;É expressamente proibido os funcionários...&lt;br /&gt;Eu já começaria por tropeçar na regência, teria de consultar o dicionário de verbos e regimes: não seria aos funcionários? E nem chegaria a contestar a validade de uma proibição cujo aviso se localizava dentro do elevador e não do lado de fora: só seria lido pelos funcionários que já houvessem entrado e portanto incorrido na proibição de pretender descer quando o elevador estivesse subindo. Contestaria antes a maneira ambígua pela qual isto era expresso:&lt;br /&gt;. . . no ato da subida, utilizarem os elevadores para descerem.&lt;br /&gt;Qualquer um, não sendo irremediavelmente burro, entenderia o que se pretende dizer neste aviso. Pois um tijolo de burrice me baixou na compreensão, fazendo com que eu ficasse revirando a frase na cabeça: descerem, no ato da subida? Que quer dizer isto? E buscava uma forma simples e correta de formular a proibição:&lt;br /&gt;É proibido subir para depois descer.&lt;br /&gt;É proibido subir no elevador com intenção de descer.&lt;br /&gt;É proibido ficar no elevador com intenção de descer, quando ele estiver subindo.&lt;br /&gt;Descer quando estiver subindo! Que coisa difícil, meu Deus. Quem quiser que experimente, para ver só. Tem de ser bem simples:&lt;br /&gt;Se quiser descer, não tome o elevador que esteja subindo.&lt;br /&gt;Mais simples ainda:&lt;br /&gt;Se quiser descer, só tome o elevador que estiver descendo.&lt;br /&gt;De tanta simplicidade, atingi a síntese perfeita do que Nelson Rodrigues chamava de óbvio ululante, ou seja, a enunciação de algo que não quer dizer absolutamente nada:&lt;br /&gt;Se quiser descer, não suba.&lt;br /&gt;Tinha de me reconhecer derrotado, o que era vergonhoso para um escritor.&lt;br /&gt;Foi quando me dei conta de que o elevador havia passado do sétimo andar, a que me destinava, já estávamos pelas alturas do décimo terceiro.&lt;br /&gt;- Pedi o sétimo, o senhor não parou! - reclamei. O ascensorista protestou:&lt;br /&gt;- Fiquei parado um tempão, o senhor não desceu. Os outros passageiros riram:&lt;br /&gt;- Ele parou sim. Você estava aí distraído.&lt;br /&gt;- Falei três vezes, sétimo! sétimo! sétimo!, e o senhor nem se mexeu — reafirmou o ascensorista.&lt;br /&gt;- Estava lendo isto aqui - respondi idiotamente, apontando o aviso.&lt;br /&gt;Ele abriu a porta do décimo quarto, os demais passageiros saíram.&lt;br /&gt;- Convém o senhor sair também e descer noutro elevador. A não ser que queira ir até o último andar e na volta descer parando até o sétimo.&lt;br /&gt;- Não é proibido descer no que está subindo? Ele riu:&lt;br /&gt;- Então desce num que está descendo.&lt;br /&gt;- Este vai subir mais? - protestei: - Lá embaixo está escrito que este elevador vem só até o décimo quarto.&lt;br /&gt;- Para subir.  Para descer, sobe até o último.&lt;br /&gt;- Para descer sobe?&lt;br /&gt;Eu me sentia um completo mentecapto. Saltei ali mesmo, como ele sugeria. Seguindo seu conselho, pressionei o botão, passando a aguardar um elevador que estivesse descendo.&lt;br /&gt;Que tardou, e muito. Quando finalmente chegou, só reparei que era o mesmo pela cara do ascensorista, recebendo-me a rir:&lt;br /&gt;- O senhor ainda está por aqui?&lt;br /&gt;E fomos descendo, com parada em andar por andar. Cheguei ao auditório com 15 minutos de atraso. Ao fim da palestra, as moças me fizeram perguntas, e uma delas quis saber como nascem as minhas histórias. Comecei a contar:&lt;br /&gt;- Quando cheguei ao edifício, tomei o elevador que serve do primeiro ao décimo quarto andar. Era pelo menos o que dizia a tabuleta no alto da porta.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Fernando Sabino&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-4439244702313469001?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/4439244702313469001/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=4439244702313469001' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/4439244702313469001'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/4439244702313469001'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/como-nasce-uma-histria.html' title='COMO NASCE UMA HISTÓRIA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-656098927606636288</id><published>2007-03-21T21:08:00.001-07:00</published><updated>2007-03-21T21:08:56.041-07:00</updated><title type='text'>A SAFRA DE TATUS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;- Como foi aquele negócio dos tatus que a senhora principiou a semana passada, minha madrinha? Perguntou Das Dores. O rumor dos bilros esmoreceu e Cesária levantou os óculos para a afilhada: - Tatus? Que invenção é essa, menina? Quem falou em tatu? - A senhora, minha madrinha, respondeu a benzedeira de quebranto. Uns tatus que apareceram lá na fazenda no tempo da riqueza, da lordeza. Como foi? Cesária encostou a almofada de renda à parede, guardou os óculos no caritó, acendeu o cachimbo de barro ao candeeiro, chupou o canudo  de taquari: - Ah! Os tatus. Nem me lembrava. Conte a história dos tatus, Alexandre. - Eu? Exclamou o dono da casa, surpreendido, erguendo-se da rede. Quem deu seu nó que o desate. Você tem cada uma! Dirigiu-se ao copiar e ficou algum tempo olhando a lua. - Se os senhores pedirem, ele conta, murmurou Cesária aos visitantes. Aperte com ele, seu Libório. Ao cabo de cinco minutos Alexandre voltou desanuviado, pediu o cachimbo a mulher, regalou-se com duas tragadas: - Ora muito bem. Restituiu o cachimbo a Cesária e foi sentar-se na rede. Mestre Gaudêncio curandeiro, seu Libório cantador, o cego preto Firmino e Das Dores exigiram a história dos tatus, que saiu deste modo. - Saberão vossemecês que este caso estava completamente esquecido. Cesária tem o mau costume de sapecar umas perguntas em cima da gente, de supetão. Às vezes não sei onde ela quer chegar. Os senhores compreendem. Um sujeito como eu, passado pelos corrimboques do diabo, deve ter muitas coisas no quengo. Mas essas coisas atrapalham-se: não há memória que segure tudo quanto uma pessoa vê e ouve na vida. Estou errado? - Está certo, respondeu mestre Gaudêncio. Seu Alexandre fala direitinho um missionário. - Muito agradecido, prosseguiu o narrador. Isso é bondade. Pois a história de Cesária puxou tinha-se esvaído sem deixar mossa no meu juízo. Só depois de tomar um deforete pude recordar-me dela. Vou dizer o que se deu. Faz vinte e cinco anos. Hem, Cesária? Quase vinte e cinco anos. Como o tempo caminha depressa! Parece que foi ontem. Eu ainda não tinha entrado forte na criação de  boi, que me rendeu uma fortuna, já sabem. Ganhava bastante e vivia sem cuidado, na graça de Deus, mas as minhas transações voavam baixo, as arcas não estavam cheias de patacões de ouro e rolos de notas. Comparado ao que fiz depois, aquilo era pinto. Um dia Cesária me perguntou: - Xandu, porque é que você não aproveita a vazante do açude com uma plantação de mandioca?” – “Han? Disse eu distraído, sem notar o propósito da mulher. Que plantação?” E ela, interesseira e sabia, a criatura mais arranjada que Nosso Senhor Jesus Cristo botou no mundo: - “Farinha está pela hora da morte, Xandu. Viaja cinqüenta léguas para chegar aqui, a cuia por cinco mil-réis. Se você fizesse uma plantação de mandioca na vazante do açude, tínhamos farinha de graça.” – “É exato, gritei. Parece que é bom. Vou pensar nisso.” E pensei. Ou antes, não pensei. O conselho era tão razoável que, por mais que eu saltasse para um lado e para outro, acabava sempre naquilo: não havia nada melhor que uma plantação de mandioca, porque estávamos em tempo de seca braba, a comida vinha de longe e custava os olhos da cara. Íamos ter farinha a dar com o pau. Sem dúvida. E plantei mandioca. Endireitei as cercas, enchi a vazante de mandioca. Cinco mil pés, não, catorze mil pés ou mais. No fim havia trinta mil pés. Nem um canto desocupado. Todos os pedaços de maniva que peguei foram metidos debaixo do chão. – “Estamos ricos, imaginei. Quantas cuias de farinha darão trinta mil pés de mandioca? Era uma conta que eu não sabia fazer, e acho que ninguém sabe, porque a terra é vária, às vezes rende muito, outras vezes rende pouco, e se o verão apertar, não rende nada. Esses trinta mil pés não renderam, isto é, não renderam mandioca. Renderam coisa diferente, uma esquisitice, pois, se plantamos maniva, não podemos esperar de modo nenhum apanhar cabaças ou abóboras, não é verdade? Só podemos esperar mandioca, que isto é a lei de Deus. A gata dá gato, a vaca dá bezerro e a maniva dá mandioca, sempre foi assim. Mas este  mundo, meus amigos, está cheio de trapalhadas e complicações. Atiramos num bicho, matamos outro. E sina Terta, que mora aqui perto, na ribanceira, escura e casada com homem escuro, teve esta semana um filhinho de cabelo cor de fogo e olho azul. Há quem diga que sinha Terta não seja séria? Não há. Sinha Terta é um espelho. E por estas redondezas não existe vivente de olho azul e cabelo vermelho. Boto a mão no fogo por sinha Terta e sou capaz de jurar que o menino é do marido dela. Vossemecês estão-se rindo? Não se riam não, meus amigos. Na vida há muito surpresa, e Deus Nosso Senhor tem esses caprichos. Sinha Terta é mulher direita. E as manivas que plantei não deram mandioca. Seu Firmino esta aí fala não fala, com a pergunta na boca, não é seu Firmino? Tenha paciência  e escute o resto. Ninguém ignora que plantação em vazante não precisa de inverno. Vieram umas chuvinhas e a roça ficou uma beleza, não havia coisa parecida por aquelas beiradas. – “Valha-me Deus, Cesária, desabafei. Onde vamos guardar tanta farinha?” mas estava escrito que não íamos arrumar nem uma prensa. Quando foi chegando o tempo da arranca, as plantas começaram a murchar. Supus que a lagarta estivesse dando nelas. Engano. Procurei, procurei, e não descobri lagarta. – “Santa Maria! cismei. A terra é boa, aparece chuva, a lavoura vai para diante e depois desanda. Não entendo. Aqui há feitiço.” Passei uns dias acuado, remexendo os miolos e não achei explicação. Tomei aquilo como castigo de Deus, para desconto dos meus pecados. O que é certo, é que a praga continuou: no fim de S. João todas as folhas tinham caído, só restava uma garrancheira preta. – “Caiporismo, disse comigo. Estamos sem sorte. Vamos ver se conseguimos levar ao fogo uma fornada.” Encangalhei um animal, pendurei os caçuás nos cabeçotes, marchei para a vazante. Arranquei um pau de mandioca, e o meu espanto não foi deste mundo. Esperava tamboeira choca, mas, acreditem vossemecês, encontrei uma raiz enorme, pesada, que se pôs a bulir. A bulir, sim senhor. Meti-lhe o facão. Estava oca, só tinha casca. E, por baixo da casca, um tatu-bola enrolado. Arranquei outra vara seca: peguei o segundo tatu. Para encurtar razões, digo aos amigos que passei quinze dias desenterrando tatus. Os caçuás enchiam-se, o cavalo emagreceu de tanto caminhar e Cesária chamou as vizinhas para salgar aquela carne toda. Apanhei uns quarenta milheiros de tatus, porque nos pés de mandioca fornidos moravam às vezes casais, e nos que tinham muitas raízes acomodavam-se famílias inteiras. Bem. O preço do charque na cidade baixou, mas ainda assim apurei alguns contos de réis, muito mais que se tivesse vendido farinha. A princípio não atinei  com a causa daquele despotismo e pensei num milagre. É o que sempre faço: quando ignoro a razão das coisas, fecho os olhos e aceito a vontade de Nosso Senhor, especialmente se há vantagem. Mas a curiosidade nunca desaparece do espírito da gente. Passado um mês, comecei a matutar, a falar sozinho, e perdi o sono. Afinal agarrei um cavador, desci a vazante, esburaquei  tudo aquilo. Achei a terra favada, como um formigueiro. E adivinhei por que motivo a bicharia tinha entupido a minha roça. Fora dali o chão era pedra, cascalho duro que só dava coroa-de-frade, quipá e mandacaru. Comida nenhuma. Certamente um tatu daquelas bandas cavou passagem para a beira do açude, topou uma raiz de mandioca e resolveu estabelecer-se nela. Explorou os arredores, viu outras raízes, voltou, avisou os amigos e parentes, que se mudaram. Julgo que não ficou um tatu na caatinga. Com a chegada deles as folhas da plantação murcharam, empreteceram e caíram. Estarei errado, seu Firmino? Pode ser que esteja, mas parece que foi o que se deu. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Graciliano Ramos&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-656098927606636288?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/656098927606636288/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=656098927606636288' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/656098927606636288'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/656098927606636288'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/safra-de-tatus.html' title='A SAFRA DE TATUS'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-7887630383584667090</id><published>2007-03-21T20:45:00.000-07:00</published><updated>2007-03-21T21:05:17.929-07:00</updated><title type='text'>UMA ESPERANÇA</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.&lt;br /&gt;Houve um grito abafado de um de meus filhos:&lt;br /&gt;- Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.&lt;br /&gt;- Ela quase não tem corpo, queixei-me.&lt;br /&gt;- Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.&lt;br /&gt;Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.&lt;br /&gt;- Ela é burrinha, comentou o menino.&lt;br /&gt;- Sei disso, respondi um pouco trágica.&lt;br /&gt;- Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.&lt;br /&gt;- Sei, é assim mesmo.&lt;br /&gt;- Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.&lt;br /&gt;- Sei, continuei mais infeliz ainda.&lt;br /&gt;Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.&lt;br /&gt;- Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.&lt;br /&gt;Andava mesmo devagar - estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.&lt;br /&gt;Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia "a" aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:&lt;br /&gt;- É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...&lt;br /&gt;- Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.&lt;br /&gt;- Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros - falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.&lt;br /&gt;O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.&lt;br /&gt;Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.&lt;br /&gt;Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por Clarice Lispector&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;in "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-7887630383584667090?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/7887630383584667090/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=7887630383584667090' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7887630383584667090'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7887630383584667090'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/uma-esperana.html' title='UMA ESPERANÇA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-8395570955830385681</id><published>2007-03-21T20:39:00.000-07:00</published><updated>2007-03-21T20:41:17.963-07:00</updated><title type='text'>O EXTRATERRESTRE</title><content type='html'>&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;Após anos de namoro e noivado, Eduardo e Josefa casaram-se. Nutriam intensa paixão um pelo outro. As juras de amor e fidelidade multiplicavam-se a cada oportunidade. Ela era psicóloga e montara pequena clínica pediátrica. Ele se diplomou em direito e dividia escritório com um colega de turma. Entre altos e baixos, na média as coisas estavam bem. Até pequena poupança se arrumava na Caixa Econômica Estadual. Ainda não completado um ano de casados, contrataram financiamento para aquisição da casa própria. Tudo era felicidade; inclusive, a situação econômica acenava para uma gravidez sem percalços. Mas eis que uma tragédia se abate sobre o casal. Numa noite chuvosa, retornando do trabalho, o ônibus em que viajava derrapou e despencou de uma ribanceira, estatelando-se sobre montes de pedras Vários passageiros ficaram gravemente feridos. Eduardo fraturou o pescoço. Ficou tetraplégico. Foram meses de sofrimento. Um seguro providencial, aliado à atividade de Josefa, manteve certa regularidade econômica no lar. Mas e os sonhos? Alguns se realizavam, outros se transformaram em utopia, como, por exemplo, o filho ansiado. Seis meses se passaram após o infortúnio. Certa noite, Josefa chega em casa espavorida, fazendo relato fantástico ao marido, este que muito mal movia a cabeça. Seus olhos indicavam a perplexidade com o que ouvira da esposa. Contou-lhe Josefa que seu carro saiu da estrada geral, rumando em direção à Lagoa de Iriry, um local ermo, após lançarem sobre ele forte facho de luz amarela, vermelha e lilás. Dois seres esverdeados levaram-na para dentro de uma enorme nave, estacionada entre a lagoa e o mar, a cerca de quatro metros de altura. Não reagiu; parecia hipnotizada. Tiraram sua roupa e a colocaram sobre uma espécie de maca, logo perdendo os sentidos. Em diante, não viu mais nada. Ao despertar dentro do carro, agora vestida, verificou que passara mais de quatro horas em poder dos extraterrestres.  "Fantástico!"- Foi o que disse Eduardo, sem nada acrescentar, lançando os olhos para o alto, pensando sabe-se lá em quê. Dois meses depois, Josefa aproximou-se de Eduardo meio chorosa, dizendo-lhe estar grávida. "Foram eles, Eduardo, tenho certeza! E agora?" Eduardo olhou dentro dos olhos de Josefa e respondeu: "Seria bom se tivéssemos um filho marciano, jupiteriano, mercuriano, sei lá de onde. Não acha?" Josefa, olhos marejados, fungando, perguntou-lhe se falava sério; respondeu que nunca falara tão sério. Oito meses depois, nascia um guri. Ao ser apresentado a Eduardo, este disse: "É bonito. Seu olhar é parecido com o dos extraterrestres vistos nos filmes." Não fossem as limitações físicas de Eduardo, seria um casal muito feliz. Ou protagonista da manchete mais sangrenta do ano.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;ANTONIO KLEBER MATHIAS NETTO&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-8395570955830385681?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/8395570955830385681/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=8395570955830385681' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/8395570955830385681'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/8395570955830385681'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/o-extraterrestre.html' title='O EXTRATERRESTRE'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-2448100784305930640</id><published>2007-03-20T23:11:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T23:12:43.738-07:00</updated><title type='text'>O OLHAR</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Quem me conhece bem sabe que eu tenho uma obsessão pelo olhar. E vivo dizendo que o olho é o caminho mais curto da alma para tudo que está aqui fora, no mundo vivido; mas nem sempre foi assim — houve um tempo em que ele significava o mesmo que o olfato, o gosto e outros sentidos vulgares.&lt;br /&gt;E se hoje não consigo mais olhar alguém nos olhos, não é por fraqueza... essa covardia comum a qualquer indivíduo medroso, e sim uma espécie de medo que me consome desde a juventude.&lt;br /&gt;Descobri o poder de um olhar no dia mais infeliz da minha vida. Explico: desde a mocidade eu planejava uma vingança contra um sujeito que bateu no rosto de meu pai, em meio a uma discussão besta, por causa de não sei que teima. Era uma tarde morta, triste — daquelas em que os únicos barulhos ouvidos eram os gritos de crianças, vindos com o vento de um bairro distante. Lembro como fosse hoje, no entanto já se passaram setenta anos desde aquela tarde.&lt;br /&gt;Começaram conversando baixo, depois as vozes foram aumentando, até silenciarem com um tabefe seco, que meu pai engoliu fundo, baixou a vista, apanhou o chapéu do chão... e eu fui seguindo seus passos de longe (nunca o caminho de nossa casa fora tão longo): desde este dia nunca mais foi o mesmo, e até o último instante de sua vida ele jamais haveria de levantar a vista — morreu com os olhos baixos, como se fosse (desde aquela maldita tarde) indigno de olhar os outros nos olhos.&lt;br /&gt;No dia de sua morte jurei para mim mesmo que o responsável por tudo aquilo pagaria com a vida pelo que fizera. Planejei durante muito tempo, teria de ser uma ocasião singular; não poderia acontecer rápido, exigir a uma ocasião especial. Levei quarenta anos estudando a situação, e por várias vezes estive lado a lado com ele, só eu o conhecendo; vezes houve em que trocamos algumas palavras; depois o perdi de vista por quase dez anos. Eu não tinha pressa, estava certo de que logo ele estaria em minhas mão, inevitavelmente.&lt;br /&gt;Um dia eu soube através de um tio que continuava residindo no vilarejo de minha infância que o meu desafeto regressara para passar os últimos dias de sua velhice na terra natal. Havia chegado a hora, não poderia deixar para depois, era agora ou nunca. Convenci minha esposa e os filhos já rapazes de que precisava ir ajudar a família em uma questão de terras, mas que logo estaria de volta a casa.&lt;br /&gt;Cheguei pela manhã, no primeiro trem — e foi como se a vida toda desfilasse em minha mente, as idéias tornavam—se confusas: o passado e o presente se misturavam como se fosse em um sonho. Passei o resto da manhã meio perdido, não conseguia reconhecer ninguém. Da janela da hospedaria fiquei esperando a saída dele para um passeio, e que fosse à tarde, do jeitinho de outrora.&lt;br /&gt;Quando ele despontou na esquina da farmácia já era boquinha da noite. Eu me aproximei: olhei-o nos olhos, bem fundo, puxei vagarosamente a faca e, quando notei que o seu olhar me reconhecia (tive certeza disso), afundei-a toda em seu peito, depois outra e mais outra. Da surpresa inicial de seus olhos passou para não mais reagir tentando se proteger com as mãos, agora aceitava tudo parado a me olhar tristemente - as feições de surpresa e dor deram lugar a uma calma superior, quase arrogante. Olhou-me bem fundo. Neste instante meu braço jazia parado no ar, um último golpe inútil fora contido por aqueles olhos. E o que vi em seguida, teria preferido a morte, um simples olhar sereno, mais forte que toda a minha raiva guardada, um único olhar que eu jamais vira em toda a minha vida, um olhar de quem não estava mais neste mundo, um olhar que (com certeza) nunca mais me dará paz nesta vida. Fugi como o diabo foge da cruz, depois me apresentei com advogado e cumpro (em parte devido à idade) a pena em domicílio; porém sinto que já não vivo depois daquele olhar. E desde aquele dia não levanto a vista, pois não sou mais digno de olhar para mais ninguém neste mundo. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;por Pedro Salgueiro&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-2448100784305930640?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/2448100784305930640/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=2448100784305930640' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2448100784305930640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2448100784305930640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/o-olhar.html' title='O OLHAR'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-7304848334365950083</id><published>2007-03-20T23:06:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T23:11:15.399-07:00</updated><title type='text'>NINGUÉM É POETA POR ACASO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Os primeiros poemas são lavras mínimas. Talvez até odes avulsas. Quando o poeta aprendiz pega o manejo daquilo que se lhe é íntimo, vira arauto pós-moderno e, no fazer poético propriamente dito, interpreta a alma das coisas, traduz o indizível, lastra-se por atacado, errando mãos e tecendo o indefinido.&lt;br /&gt;Sensível pela própria natureza. Como poesia não é necessariamente rima, métrica, mas a Poesia mesmo, em si, com bilros e rocas, ele vai, feito singer íntimo, compondo versos do ser de si, ora verde, ora na moenda do Sentir, tocando o sagrado, porque arte é coisa espiritual, fogueiras de vaidades a parte.&lt;br /&gt;Assim, tenho para comigo, que Poeta simplesmente É. E isso por si só já é muito. Enluos, ninhais, encantários.&lt;br /&gt;Mais as sofrências do desdizer, gracezas, tristices pegajentas como se tivesse o dom-direito de sentir primeiro, sofrer mais, carregar o mundo nas costas. E ele, o mundo, como disse Drumond de Andrade (nosso maior poeta desse lado do oceano), não pesa mais do que a mão de uma criança.&lt;br /&gt;Depois que o poeta pega o traquejo da palavra, no frever o íntimo, com sua angústia-vívere, com sua solidão-albatróz, vai se norteando por mundos e fungos. Antena da época, só para citar Rimbaud, o poeta cisma, reina, orna.&lt;br /&gt;Com heterônimos (como Pessoa) ou de próprio punho e cunha, com sua poesia descalça, rueira, com sua maneira diferente de ver-(pensar) as coisas, vai vertendo salmos, mantras, blues e acontecências adjacentes.&lt;br /&gt;E respeita sua tristeza que é sábia.&lt;br /&gt;Com sua poesia feito metralhadora cheia de lágrimas, no confeito do sentir e escrever, o poeta mal cabe em si quando cria, porque, afinal, nesses tempos tenebrosos de muito ouro e pouco pão (neoliberalismo globalizador), ninguém é de ferro e, perdão, o bom cabrito é o que berra.&lt;br /&gt;Ou, como dizem os poetas brasileirinhos, FAZ ESCURO MAS EU CANTO - Ou, ainda, o importante é que a Poesia sobreviva. Citando Manuel Bandeira: não acredito em arte que não seja libertação.&lt;br /&gt;Daí que o poeta se faz - e de perto ninguém é normal, citando Caetano Veloso - ele pode se aventurar em naus catarinetas de prosas surrealistas, em naus (dos insensatos) de crônicas marginais, haikais clandestinos, porque quem sabe a Poesia, deita e rola, conhece sinais e parecenças, voa.&lt;br /&gt;E destila o vinho-verbo em prosa, ficcção, ensaio, romances, porque poesia é esteio, epifania, bordel excelência, lagar, estuário, hangar de todas as honras.&lt;br /&gt;Quase todos os poetas escrevem bem qualquer coisa. Meno male.&lt;br /&gt;Já, nem todo Ser que só faz prosa, se aventura (com o cinzel do íntimo) em poetar versos emplumados de contentezas e filosofias que são confeitos do poema mal cabendo em si.&lt;br /&gt;Amigos meus, poetas radicais (e não somos todos?), sobrevivem bem em todas as áreas, bons jornalistas, ótimos cronistas, compõem e cantam, se deixarem - ai os arautos donalistas, ótimos cronistas, compõem e cantam, se deixarem - ai os arautos dos deuses - até mesmo fazem strepe-tease ou, dando nós em pingos d´água, maroteiam sacolejantes em mambos, calipsos e twistes.&lt;br /&gt;Os proseadores não ousam tanto. Escrevem muito, bem, gardênias narrativas, mas sabem que as águas dos poemas são lingotes pingando luz de algas íntimas. Isso pelo menos penso eu, pequeno poeta que tenho muito que aprender, boêmio pela própria natureza...&lt;br /&gt;E se for para o bem da irrazão com curtumes, decantários ou estrias de alma, digam ao povo que Poeto. Aliás, tenho um poemeto antigo (quase haikai) que digo:&lt;br /&gt;Naufrágio no saveiroPoetasE grávidas primeiroO último a sair apague o sol. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(Rascunho Um - Texto Inédito &lt;feito&gt; da Série: Confesso Que Bebi)&lt;br /&gt;Silas Corrêa Leite&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-7304848334365950083?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/7304848334365950083/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=7304848334365950083' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7304848334365950083'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7304848334365950083'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/ningum-poeta-por-acaso.html' title='NINGUÉM É POETA POR ACASO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-3140325962184323801</id><published>2007-03-20T22:59:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T23:06:30.993-07:00</updated><title type='text'>O HOMEM NU</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Ao acordar, disse para a mulher:&lt;br /&gt;-- Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- Explique isso ao homem -- ponderou a mulher. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar -- amanhã eu pago. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Bateu com o nó dos dedos: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- Maria! Abre aí, Maria. Sou eu -- chamou, em voz baixa. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;o homem da televisão! &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- Maria, por favor! Sou eu! &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;o embrulho do pão. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;começa a descer. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- Ah, isso é que não! &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- fez o &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;homem nu,sobressaltado. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;autêntico e desvairado Regime do Terror! &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- Isso é que não &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- repetiu, furioso. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;elevador subir. O elevador subiu. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- Maria! Abre esta porta! -- gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;atrás de si. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;apartamento vizinho: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- Bom dia, minha senhora -- disse ele, confuso. -- Imagine &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;que eu... &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;grito: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- Valha-me Deus! O padeiro está nu! &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- Tem um homem pelado aqui na porta! &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;passava: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- É um tarado!&lt;br /&gt;-- Olha, que horror!&lt;br /&gt;-- Não olha não! Já pra dentro, minha filha! &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;restabelecida a calma lá fora, bateram na porta. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;-- Deve ser a polícia -- disse ele, ainda ofegante, indo &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;abrir. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Não era: era o cobrador da televisão. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Este é um dos contos mais famosos do grande escritor mineiro Fernando Sabino. Extraída do livro de mesmo nome, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 65.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-3140325962184323801?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/3140325962184323801/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=3140325962184323801' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3140325962184323801'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3140325962184323801'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/ao-acordar-disse-para-mulher-escuta.html' title='O HOMEM NU'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-5707730699706950288</id><published>2007-03-20T22:58:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T22:59:01.655-07:00</updated><title type='text'>O RETRATO OVAL</title><content type='html'>&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;O castelo que meu criado resolvera arrombar a fim de evitar que eu, gravemente ferido estava, passasse a noite ao relento, era uma dessas construções portenhosas, a um só tempo lúgubre e grandiosa, que há séculos assombram a paisagem dos Apeninos e também povoam a imaginação da senhora Radcliffe (1). Ao que tudo indicava, o edifício fora abandonado há pouco e de modo temporário. Acomodamo-nos num dos aposentos menores, mobiliado com menos suntuosidade que os demais e localizado num torreão afastado od castelo. A decoração rica, embora degastada e antiga. As paredes, cobertas por tapeçarias, também eram adornadas não só por inúmeros troféus de armas dos mais variados formatos, bem como por uma quantidade excessiva de pinturas modernas muito vivazes, emolduradas por ricos arabescos dourados. Talvez o delírio que meacometera tivesse sido a verdadeira causa de meu profundo interesse por essas pinturas, por esses quadros que pendiam não apenas diretamente da superfície das paredes, como também se revelavam nos incontáveis nichos ali presentes, criados conforme o estranho estilo arquitetônico do castelo. Assim sendo, como já anoitecera, ordenei que Pedro fechasse as pesadas venezianas do quarto, acendesse as velas do grande candelabro junto à cabeceira de minha cama e abrisse completamente o cortinado de veludo negro arrematado por franjas, que circundava todo o leito. Desejei que tudo isso fosse executado o mais brevemente possível para que, se acaso não conseguisse me entregar ao sono, ao menos pudesse me dedicar à contemplação das pinturas, acompanhando-a da leitura de um pequeno livro, encontrado ao acaso em cima de meu travesseiro, que continha descrições e apreciação crítica das obras. Passei um longo espaço de tempo lendo, relendo e contemplando as obras com muita admiração. No decorrer desses momentos gloriosos as horas se passaram num instante até soarem as badaladas profundas da meia-noite. Como o candelabro não estivesse mais numa posição que me favorecesse a leitura e, por não quere perturbar o descanso de meu criado já adormecido, preferi eu mesmo, embora com alguma dificuldade, estender o braço e ajeitar a luz de modo a iluminar melhor as páginas do livro. Porém, esse simples gesto meu produziu um resultado totalmente inesperado. Vindos das inúmeras velas (havia muitas no candelabro), os raios de luz foram bater justamente num dos nichos do quarto que até o momento estivera completamente envolto na sombra projetada por uma das colunas de minha cama. Só assim pude ver plena à plena luz um quadro que me passara despercebido até então. Era o retrato de uma moça na flor da juventude prestes a entrar na plenitude de sua femilidade. Olhei o quadro num relance, fechando os olhos logo em seguida. De imediato, nem eu mesmo pude perceber por que motivo agira assim. Entretanto, ainda com as pálpebras cerradas, pus-me a pensar sobre a causa desse meu ato. Na verdade, fora apenas um movimento impulsivo que me permitira ganhar tempo para refletir - para me certificar de que meus olhos afinal não me haviam enganado -, para me recobrar e dominar a fantasia a fim de poder então lançar-lhe novo olhar, com mais calma e segurança. Pouco depois fixei outra vez o olhar na pintura, demoradamente. Dessa vez não havia a menor dúvida de que não estivesse enxergando direito, pois aquele primeiro momento em que a luz das velas incidira sobre a tela servira para dissipar uma vez o vago estupor que começara a entorpecer-me os sentidos, despertando-me completamente para a realidade a meu redor. Como já disse, tratava-se do retrato de uma jovem. Utilizando a técnica a que se costuma denominar "vignette", o quadro reproduzia-lhe apenas a cabeça e os ombros e assemelhava-se muito ao estilo das melhores cabeças pintadas por Sully (2). Os braços, o colo e até mesmo as pontas dos cabelos esplêndidos misturavam-se imperceptivelmenteà sombra indeterminada e profunda que formava o plano de fundo. A moldura era oval e dourada, enfeitada por ricas filigranas à moda mourisca. Como obra de arte nada poderia se igualar à pintura em si. Contudo, a emoção tão avassaladora e repentina que se apoderara de mim não poderia ter sido ocasionada pela maestria do pintor ou pela imortal beleza daquela fisionomia. E tampouco poderia ter sido fruto da minha imaginação abalada que desperta de sua semi-sonolência, tivesse-me feito confundir a imagem ali representada com a cabeça de uma mulher de carne e osso. Logo constatei que as peculiaridades do desenho, a técnica do vinhetista e da moldura deviam ter bastado para eliminar tal idéia imediatamente, impedindo que eu a tivesse nutrido ainda que por um breve momento. Passei talvez uma hora inteira a refletir sobre essas questões, meio debruçado para a frente, com os olhos cravados no retrato. Por fim, satisfeito com o verdadeiro segredo do seu efeito, recostei-me à cama outra vez. Descobri que a mágica da pintura residia na absoluta verossimilhança daquela expressão que inicialmente me sobressaltar, para enfim me confundir, dominar e aterrorizar. Foi com profundo temor e reverência que recoloquei o candelabro na posição anterior. Uma vez que o motivoda minha profunda inquietação estava assim fora do meu campo visual, passei a examinar avidamente o livro que tratava dessas pinturas e de seu histórico. Depois de folheá-lo rapidamente até encontrar o número referente ao retrato oval, procedi à leitura do texto curioso e fantástico que transcrevo a seguir: "Era uma jovem de rara beleza, cheia de encantos e alegria. Infeliz a hora em que encontrou o pintor, apaixonou-ser e com ele se casou. Ele, um homem passional, estudioso e austero, já tendo a Arte por sua amada. Ela, uma jovem de rara beleza, cheia de encantos e alegria, plena luz e sorrisos, travessa como uma gazela nova, afetuosa e cheia de amor à vida; odiando somente a paleta, os pincéis e demais instrumentos aborrecidos que a privavam da companhia do amado. Foi, portanto, com profundo pesar que essa jovem ouviu o pintor expressar o desejo de retratá-la a ela, sua bela esposa. Porém, por ser dócil e meiga, posou para ele por várias semanas, imóvel em meio à penumbra daquele aposento do alto da torre, iluminado apenas por um único foco de claridade que descia do teto e incidia diretamente sobre a tela, deixando o resto na escuridão. Já o pintor rejubilava-se com o trabalho, prosseguindo hora após hora, por dias a fio. Era um homem obcecado, irreverente e temperamental, sempre a perder-se em desvaneios; tanto assim que recusava-se a perceber que a luz nefasta daquela torre deserta consumia a saúde e o ânimo de sua esposa a qual definhava aos olhos de todos, exceto aos seus. E no entanto ela sempre sorria e continuava a sorrir sem se queixar porque notava que o pintor (artista de grande renome) desfrutava um prazer ardente e avassalador ao executar a obra sem jamais esmorecer, trabalhando dia e noite para retratar aquela que tanto o amava, mas que se tornava cada vez mais fraca e melancólica. Na verdade, aqueles que puderam ver o retrato comentaram em voz baixa a total fidelidade entre modelo e obra, atribuindo-a a um prodígio excepcional, prova cabal não só da perícia do pintor como do amor profundo que dedicava àquela a quem retratava com tanta perfeição. Porém, com o tempo, à medida que se aproximava a conclusão do trabalho, ninguém mais obteve permissão para entrara na torre, pois o pintor entregava-se à loucura de sua obra e raramente desviava os olhos da tela, nem mesmo para olhar o rosto de sua mulher. E recusava-se a perceber que as cores que ia espalhando por sobre a tela eram arrancadas das faces daquela que posava a seu lado. Passados alguns meses, quando quase mais nada restava a ser feito a não ser uma pincelada sobre a boca e um retoque de cor sobre os olhos, o espírito da jovem reacendeu-se ainda uma vez, tal qual chama de uma vela a crepitar por um instante. E então executou-se o retoque necessário e deu-se a pincelada final e, por um momento o pintor caiu em transe, extasiado com a obra que criara. Porém, no momento seguinte, ainda a contemplar o retrato, estremeceu, ficou lívido e, tomado de espanto, exclamou com um grito: "Mas isto é a própria vida!" E quando afinal virou-se para olhar a própria amada... estava morta!" &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;(Edgar Allan Poe).&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-5707730699706950288?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/5707730699706950288/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=5707730699706950288' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/5707730699706950288'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/5707730699706950288'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/o-retrato-oval.html' title='O RETRATO OVAL'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-2367987186549639776</id><published>2007-03-20T22:55:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T22:58:14.259-07:00</updated><title type='text'>PLEBISCITO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;  "Plebiscito"&lt;br /&gt;A cena passa-se em 1890. A família est  toda reunida na sala de jantar. O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balan‡o. Acabou de comer como um abade. Dona Bernardina, sua esposa, est  muito entretida a limpar a gaiola de um can rio belga. Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o can rio. Ele, encostado … mesa, os p‚s cruzados, lˆ com muita aten‡ão uma das nossas folhas di rias. Silˆncio. De repente, o menino levanta a cabe‡a e pergunta: - Papai, o que ‚ plebiscito? O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme. O pequeno insiste: - Papai? Pausa: - Papai? Dona Bernardina interv‚m: - O seu Rodrigues, Manduca est  lhe chamando. Não durma depois do jantar que lhe faz mal. O senhor Rodrigues não tem rem‚dio senão abrir os olhos. - Que ‚? Que desejam vocˆs? - Eu queria que papai me dissesse o que ‚ plebiscito. - Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que ‚ plebiscito? - Se soubesse não perguntava. O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola: - O senhora, o pequeno não sabe o que ‚ plebiscito! - Não admira que ele não saiba, porque eu tamb‚m não sei. - Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que ‚ plebiscito? - Nem eu, nem vocˆ, aqui em casa ningu‚m sabe o que ‚ plebiscito. - Ningu‚m alto l ! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante! - A sua cara não me engana. Vocˆ ‚ muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que ‚ plebiscito! Então? A gente est  esperando! Diga! - A senhora o que quer ‚ enfezar-me! - Mas, homem de Deus, para que vocˆ não h  de confessar que não sabe? Não ‚ nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. J  outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era prolet rio. Vocˆ falou, e o menino ficou sem saber! - Prolet rio, acudiu o senhor Rodrigues, ‚ o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado. - Sim, agora sabe porque foi ao dicion rio; mas dou-lhe um doce, se me disser o que ‚ plebiscito sem se arredar dessa cadeira! - Que gostinho tem a senhora em tornar-me rid¡culo na presen‡a destas crian‡as! - Oh! Rid¡culo ‚ vocˆ mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: - Não sei, Manduca, não sei o que ‚ plebiscito; vai buscar o dicion rio, meu filho. O senhor Rodrigues ergue-se de um ¡mpeto e brada: - Mas eu sei! - Pois se sabe, diga! - Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o bra‡o a torcer! Quero conservar a for‡a moral que devo ter nesta casa! V  para o diabo! E o senhor Rodrigues, exasperad¡ssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta. No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de  gua de flor de laranja e um dicion rio... A menina toma a palavra: - Coitado do papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que ‚ tão perigoso! - Não fosse tolo - observa D. Bernardina - e confessasse francamente que não sabia o que ‚ plebiscito! - Pois sim - acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involunt rio de toda aquela discussão; - pois sim, mamãe; chame papai e fa‡am as pazes. - Sim, sim, fa‡am as pazes! - Diz a menina em tom meigo e suplicante. - Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangarem-se por causa do plebiscito! Dona Bernardina d  um beijo na filha, e vai bater … porta do quarto: - Seu Rodrigues, venh  sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco. O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente. Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balan‡o. -  boa - brada o senhor Rodrigues depois de largo silˆncio -  muito boa! Eu, eu ignorar a significa‡ão da palavra plebiscito! Eu!.. A mulher e os filhos aproximam-se dele. O homem continua num tom profundamente dogm tico: - Plebiscito... E olha para todos os lados a ver se h  por ali mais algu‚m que possa aproveitar a li‡ão. - Plebiscito ‚ uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em com¡cios. - Ah! - suspiram todos, aliviados. - Uma lei romana, percebem! E querem introduz¡-la no Brasil!  mais um estrangeirismo!... &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;por artur azevedo&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-2367987186549639776?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/2367987186549639776/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=2367987186549639776' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2367987186549639776'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/2367987186549639776'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/plebiscito.html' title='PLEBISCITO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-5324441737030898802</id><published>2007-03-20T22:52:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T22:55:13.076-07:00</updated><title type='text'>MORTE DO LEITEIRO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Há pouco leite no país, é preciso entregá-lo cedo. Há muita sede no país, É preciso entregá-lo cedo. Há no país uma legenda, que ladrão se mata com tiro.&lt;br /&gt;Então o moço que é leiteiro de madrugada com sua lata sai correndo e distribuindo leite bom para gente ruim. Sua lata, suas garrafas, e seus sapatos de borracha vão dizendo aos homens no sono que alguém acordou cedinho e veio do último subúrbio trazer o leite mais frio e mais alvo da melhor vaca para todos criarem força na luta brava da cidade.&lt;br /&gt;Não mão a garrafa branca não tem tempo de dizer as coisas que lhe atribuo nem o moço leiteiro ignaro, morador na Rua Namur, empregado no entreposto, com 21 anos de idade, sabe lá o que seja impulso de humana compreensão. E já que tem pressa, o corpo vai deixando à beira das casas uma apenas mercadoria.&lt;br /&gt;E como a porta dos fundos também escondesse gente que aspira o pouco de leite disponível em nosso tempo, avancemos por esse beco, peguemos o corredor, depositemos o litro... Sem fazer barulho, é claro, que barulho nada resolve.&lt;br /&gt;Meu leiteiro tão sutil de passo maneiro e leve, antes desliza que marcha. É certo que algum rumor sempre se faz: passo errado, vaso de flor no caminho, cão latindo por princípio, ou um gato quizilento. E há sempre um senhor que acorda, resmunga e torna a dormir.&lt;br /&gt;Mas este acordou em pânico (ladrões infestam o bairro), não quis saber de mais nada. O revólver da gaveta saltou para sua mão. Ladrão? Se pega com tiro. Os tiros na madrugada liquidaram meu leiteiro. Se era noivo, se era virgem, se era alegre, se era bom, não sei, é tarde para saber.&lt;br /&gt;Mas o homem perdeu o sono de todo, e foge pra rua. Meu Deus, matei um inocente. Bala que mata gatuno também serve pra furtar a vida de nosso irmão. Quem quiser que chame médico, polícia não bota a mão neste filho de meu pai. Está salva a propriedade. A noite geral prossegue, a manhã custa a chegar, mas o leiteiro estatelado, ao relento, perdeu a pressa que tinha.&lt;br /&gt;Da garrafa estilhaçada, no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite, sangue... não sei. Por entre objetos confusos, mal redimidos da noite, duas cores se procuram , suavemente se tocam, amorosamente se enlaçam, formando um terceiro tom a que chamamos aurora. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;por Carlos Drummond de Andrade&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-5324441737030898802?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/5324441737030898802/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=5324441737030898802' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/5324441737030898802'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/5324441737030898802'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/morte-do-leiteiro.html' title='MORTE DO LEITEIRO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-496715174739079353</id><published>2007-03-20T22:51:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T22:52:14.971-07:00</updated><title type='text'>UM ESPINHO DE MARFIM</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Amanhecia o sol e lá estava o unicórnio pastando no jardim da Princesa. Por entre flores olhava a janela do quarto onde ele vinha cumprimentar o dia. Depois esperava vê-la no balcão, e, quando o pezinho pequeno pisava no primeiro degrau da escadaria descendo ao jardim, fugia o unicórnio para o escuro da floresta.&lt;br /&gt;Um dia, indo o Rei de manhã cedo visitar a filha em seus aposentos, viu o unicórnio na moita de lírios.&lt;br /&gt;Quero esse animal para mim. E imediatamente ordenou a caçada.&lt;br /&gt;Durante dias o Rei e seus cavaleiros caçaram o unicórnio nas florestas e nas campinas. Galopavam os cavalos, corriam os cães e, quando todos estavam certos de tê-lo encurralado, perdiam sua pista, confundindo-se no rastro.&lt;br /&gt;Durante noites o rei e seus cavaleiros acamparam ao redor de fogueiras ouvindo no escuro o relincho cristalino do unicórnio.&lt;br /&gt;Um dia, mais nada. Nenhuma pegada, nenhum sinal de sua presença. E silêncio nas noites.&lt;br /&gt;Desapontado, o rei ordenou a volta ao castelo. E logo ao chegar foi ao quarto da filha contar o acontecido. A princesa penalizada com a derrota do pai, prometeu que dentro de três luas lhe daria o unicórnio de presente.&lt;br /&gt;Durante três noites trançou com fios de seus cabelos uma rede de ouro. De manhã vigiava a moita de lírios do jardim. E no nascer do quarto dia , quando o sol encheu com a primeira luz os cálices brancos, ela lançou a rede aprisionando o unicórnio.&lt;br /&gt;Preso nas malhas de ouro, olhava o unicórnio aquela que mais amava, agora sua dona, e que dele nada sabia.&lt;br /&gt;A princesa aproximou-se. Que animal era aquele de olhos tão mansos retido pela artimanha de suas tranças? Veludo do pelo, lacre dos cascos, e desabrochando no meio da testa, espinho de marfim, o chifre único que apontava ao céu.&lt;br /&gt;Doce língua de unicórnio lambeu a mão que o retinha. A princesa estremeceu, afrouxou os laços da rede, o unicórnio ergueu-se nas patas finas.&lt;br /&gt;Quanto tempo demorou a princesa para conhecer o unicórnio? Quantos dias foram precisos para amá-lo?&lt;br /&gt;Na maré das horas banhavam-se de orvalho, corriam com as borboletas, cavalgavam abraçados. Ou apenas conversavam em silêncio de amor, ela na grama, ele deitado aos seus pés, esquecidos do prazo.&lt;br /&gt;As três luas porém já se esgotavam. Na noite antes da data marcada o rei foi ao quarto da filha lembrar-lhe a promessa. Desconfiado, olhou nos cantos, farejou o ar. Mas o unicórnio comia lírios tinha cheiro de flor, e escondido entre os vestidos da princesa confundia-se com os veludos, confundia-se com os perfumes.&lt;br /&gt;Amanhã é o dia. Quero sua palavra comprida, disse o rei- virei buscar o unicórnio ao cair do sol.&lt;br /&gt;Saído o rei, as lágrimas da princesa deslizaram no pelo do unicórnio. Era preciso obedecer ao pai, era preciso manter a promessa. Salvar o amor era preciso.&lt;br /&gt;Sem saber o que fazer, a princesa pegou o alaúde, e a noite inteira cantou sua tristeza. A lua apagou-se. O sol mais uma vez encheu de luz as corolas. E como no primeiro dia em que haviam se encontrado a princesa aproximou-se do unicórnio. E como no segundo dia olhou-o procurando o fundo de seus olhos. E como no terceiro dia aproximou a cabeça do seu peito, com suava força, com força de amor empurrando, cravando o espinho de marfim no coração, enfim florido.&lt;br /&gt;Quando o rei veio em cobrança da promessa, foi isso que o sol morrente lhe entregou, a rosa de sangue e um feixe de lírios.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;por Marina Colassanti&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-496715174739079353?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/496715174739079353/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=496715174739079353' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/496715174739079353'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/496715174739079353'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/um-espinho-de-marfim.html' title='UM ESPINHO DE MARFIM'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-7211005403090385861</id><published>2007-03-20T22:32:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T22:50:44.439-07:00</updated><title type='text'>VENHA VER O PÔR-DO-SOL</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Minha querida Raquel.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância...Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui? - perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. - Hem?!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Ah, Raquel... - e ele tomou-a pelo braço rindo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado...Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal? &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Podia ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério?Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. - Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Brandamente ele a tomou pela cintura.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Ver o pôr do sol!...Ah, meu Deus...Fabuloso, fabuloso!...Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- E você acha que eu iria?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada...- disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento –Você fez bem em vir.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Mas eu pago.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.- Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Delicadamente ele beijou-lhe a mão.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Ele é tão rico assim?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.- Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã...Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como agüentei tanto, imagine um ano.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?- Nenhum - respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: - A minha querida esposa, eternas saudades - leu em voz baixa. Fez um muxoxo.- Pois sim. Durou pouco essa eternidade.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas...Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face. - Chega Ricardo, quero ir embora.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Mais alguns passos...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para atrás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio – lamentou ele, impelindo-a para frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. – E, tomando-a pela cintura: - Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Sua prima também?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos...Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas...Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.- Vocês se amaram?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Ela me amou. Foi a única criatura que...- Fez um gesto. – Enfim não tem importância.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Eu gostei de você, Ricardo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Esfriou, não? Vamos embora.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- E lá embaixo? &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó- murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. – A cômoda de pedra. Não é grandiosa?Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Todas estas gavetas estão cheias?- Cheias?...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Vamos, Ricardo, vamos.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Você está com medo?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? Estou bonita?...- Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos...Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt; - Pegue, dá para ver muito bem...- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça...- Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.- Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida...- Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso? Brincadeira mais cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma, ouviu?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ela sacudia a portinhola.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. - Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Boa noite, Raquel.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... - gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Não, não...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Boa noite, meu anjo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Não...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- NÃO!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;por Lygia Fagundes Telles&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-7211005403090385861?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/7211005403090385861/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=7211005403090385861' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7211005403090385861'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7211005403090385861'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/venha-ver-o-pr-do-sol.html' title='VENHA VER O PÔR-DO-SOL'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-3847785376262439559</id><published>2007-03-20T22:30:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T22:32:29.513-07:00</updated><title type='text'>O OVO E A GALINHA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo.&lt;br /&gt;Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantêm no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento; não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.&lt;br /&gt;Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas vêem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente. O amor pelo ovo é supersensível. A gente não sabe que ama o ovo. – Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo. – Só quem visse o mundo veria o ovo. Como o mundo o ovo é óbvio. &lt;br /&gt;O ovo não existe mais. Como a luz de uma estrela já morta, o ovo propriamente dito não existe mais. – Você é perfeito, ovo. Você é branco. – A você dedico o começo. A você dedico a primeira vez.&lt;br /&gt;Ao ovo dedico a nação chinesa.&lt;br /&gt;O ovo é uma coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, não foi ele quem pousou. Foi uma coisa que ficou embaixo do ovo. – Olho o ovo na cozinha com atenção superficial para não quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto. – Será que sei do ovo? É quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. – O que eu não sei do ovo é o que realmente importa. O que eu não sei do ovo me dá o ovo propriamente dito. – A Lua é habitada por ovos.&lt;br /&gt;O ovo é uma exteriorização. Ter uma casca é dar-se.- O ovo desnuda a cozinha. Faz da mesa um plano inclinado. O ovo expõe. – Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.&lt;br /&gt;O ovo é a alma da galinha. A galinha desajeitada. O ovo certo. A galinha assustada. O ovo certo. Como um projétil parado. Pois ovo é ovo no espaço. Ovo sobre azul. – Eu te amo, ovo. Eu te amo como uma coisa nem sequer sabe que ama outra coisa. – Não toco nele. A aura de meus dedos é que vê o ovo. Não toco nele – Mas dedicar-me à visão do ovo seria morrer para a vida mundana, e eu preciso da gema e da clara. – O ovo me vê. O ovo me idealiza? O ovo me medita? Não, o ovo apenas me vê. É isento da compreensão que fere. – O ovo nunca lutou. Ele é um dom. – O ovo é invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu. – O ovo terá sido talvez um triângulo que tanto rolou no espaço que foi se ovalando. – O ovo é basicamente um jarro? Terá sido o primeiro jarro moldado pelos etruscos ? Não. O ovo é originário da Macedônia. Lá foi calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macedônia um homem com uma vara na mão desenhou-o. E depois apagou-o com o pé nu.&lt;br /&gt;O ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso. – O ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época. – O ovo por enquanto será sempre revolucionário. – Ele vive dentro da galinha para que não o chamem de branco. O ovo é branco mesmo. Mas não pode ser chamado de branco. Não porque isso faça mal a ele, mas as pessoas que chamam ovo de branco, essas pessoas morrem para a vida. Chamar de branco aquilo que é branco pode destruir a humanidade. Uma vez um homem foi acusado de ser o que ele era, e foi chamado de Aquele Homem. Não tinham mentido: Ele era. Mas até hoje ainda não nos recuperamos, uns após outros. A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer “um rosto bonito”, mas quem disser “O rosto”, morre; por ter esgotado o assunto.&lt;br /&gt;Com o tempo, o ovo se tornou um ovo de galinha. Não o é. Mas, adotado, usa-lhe o sobrenome. – Deve-se dizer “o ovo da galinha”. Se eu disser apenas “o ovo”, esgota-se o assunto, e o mundo fica nu. – Em relação ao ovo, o perigo é que se descubra o que se poderia chamar de beleza, isto é, sua veracidade. A veracidade do ovo não é verossímil. Se descobrirem, podem querer obrigá-lo a se tornar retangular. O perigo não é para o ovo, ele não se tornaria retangular. (Nossa garantia é que ele não pode: não poder é a grande força do ovo: sua grandiosidade vem da grandeza de não poder, que se irradia como um não querer.) Mas quem lutasse por torná-lo retangular estaria perdendo a própria vida. O ovo nos expõe, portanto, em perigo. Nossa vantagem é que o ovo é invisível. E quanto aos iniciados, os iniciados disfarçam o ovo.&lt;br /&gt;Quanto ao corpo da galinha, o corpo da galinha é a maior prova de que o ovo não existe. Basta olhar para a galinha para se tornar óbvio que o ovo é impossível de existir.&lt;br /&gt;E a galinha? O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva a morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido.&lt;br /&gt;É necessário que a galinha não saiba que tem um ovo. Senão ela se salvaria como galinha, o que também não é garantido, mas perderia o ovo. Então ela não sabe. Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe. Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar não fazia parte de nascer. Gostar de estar vivo dói. – Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer chamada. A galinha é diretamente uma escolhida. – A galinha vive como em sonho. Não tem senso de realidade. Todo o susto da galinha é porque estão sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono. – A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido é o ovo. – Ela não sabe se explicar: “ sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a vida, “não sei mais o que sinto”, etc.&lt;br /&gt;“Etc., etc., etc.,” é o que cacareja o dia inteiro a galinha. A galinha tem muita vida interior. Para falar a verdade a galinha só tem mesmo é vida interior. A nossa visão de sua vida interior é o que chamamos de “galinha”. A vida interior na galinha consiste em agir como se entendesse. Qualquer ameaça e ela grita em escândalo feito uma doida. Tudo isso para que o ovo não se quebre dentro dela. Ovo que se quebra dentro de galinha é como sangue.&lt;br /&gt;A galinha olha o horizonte. Como se da linha do horizonte é que viesse vindo um ovo. Fora de ser um meio de transporte para o ovo, a galinha é tonta, desocupada e míope. Como poderia a galinha se entender se ela é a contradição de um ovo? O ovo ainda é o mesmo que se originou na Macedônia. A galinha é sempre tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha. Enquanto meu vizinho atende ao telefone ele redesenha com lápis distraído a galinha. Mas para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir a si própria. Sendo, porém, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino o ovo, a sua vida pessoal não nos interessa.&lt;br /&gt;Dentro de si a galinha não reconhece o ovo, mas fora de si também não o reconhece. Quando a galinha vê o ovo pensa que está lidando com uma coisa impossível. É com o coração batendo, com o coração batendo tanto, ela não o reconhece.&lt;br /&gt;De repente olho o ovo na cozinha e vejo nele a comida. Não o reconheço, e meu coração bate. A metamorfose está se fazendo em mim: começo a não poder mais enxergar o ovo. Fora de cada ovo particular, fora de cada ovo que se come, o ovo não existe. Já não consigo mais crer num ovo. Estou cada vez mais sem força de acreditar, estou morrendo, adeus, olhei demais um ovo e ele me foi adormecendo.&lt;br /&gt;A galinha não queria sacrificar a sua vida. A que optou por querer ser “feliz”. A que não percebia que, se passasse a vida desenhando dentro de si como numa iluminura o ovo, ela estaria servindo. A que não sabia perder-se a si mesma. A que pensou que tinha penas de galinha para se cobrir por possuir pele preciosa, sem entender que as penas eram exclusivamente para suavizar, a travessia ao carregar o ovo, porque o sofrimento intenso poderia prejudicar o ovo. A que pensou que o prazer lhe era um dom, sem perceber que era para que ela se distraísse totalmente enquanto o ovo se faria. A que não sabia que “eu” é apenas uma das palavras que se desenham enquanto se atende ao telefone, mera tentativa de buscar forma mais adequada. A que pensou que “eu” significa ter um si-mesmo. As galinhas prejudiciais ao ovo são aquelas que são um “eu” sem trégua. Nelas o “eu” é tão constante que elas já não podem mais pronunciar a palavra “ovo”. Mas, quem sabe, era disso mesmo que o ovo precisava. Pois se elas não estivessem tão distraídas, se prestassem atenção à grande vida que se faz dentro delas, atrapalhariam o ovo.&lt;br /&gt;Comecei a falar da galinha e há muito já não estou falando mais da galinha. Mas ainda estou falando do ovo.&lt;br /&gt;E eis que não entendo o ovo. Só entendo o ovo quebrado: quebro-o na frigideira. É deste modo indireto que me ofereço à existência do ovo: meu sacrifício é reduzir-me à minha própria vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado. E ter apenas a própria vida é, para quem viu o ovo, um sacrifício. Como aqueles que, no convento, varrem o chão e lavam a roupa, servindo sem a glória de função maior, meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a modéstia de viver.&lt;br /&gt;Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe a casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo. É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de protegê-lo. Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem. Nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, há um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então, não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente.&lt;br /&gt;A todos os agentes são dadas muitas vantagens para que o ovo se faça. Não é o caso de se ter inveja pois, inclusive algumas das condições, piores do que as dos outros, são apenas as condições ideais para o ovo. Quanto ao prazer dos agentes, eles também o recebem sem orgulho. Austeramente vivem todos os prazeres: inclusive é o nosso sacrifício para que o ovo se faça. Já nos foi imposta, inclusive uma natureza adequada a muito prazer. O que facilita. Pelo menos torna menos penoso o prazer.&lt;br /&gt;Há casos de agentes que se suicidam: acham insuficientes as pouquíssimas instruções recebidas e se sentem sem apoio. Houve o caso do agente que revelou publicamente ser agente porque lhe foi intolerável não ser compreendido, e ele não suportava mais não ter o respeito alheio: morreu atropelado quando saía de um restaurante. Houve um outro que nem precisou ser eliminado: ele próprio se consumiu lentamente na sua revolta, sua revolta veio quando ele descobriu que as duas ou três instruções recebidas não incluíam nenhuma explicação. Houve outro também eliminado, porque achava que “a verdade deve ser corajosamente dita”, e começou em primeiro lugar a procurá-la; dele se disse que morreu em nome da verdade com sua inocência; sua aparente coragem era tolice, e era ingênuo o seu desejo de lealdade, ele compreendera que ser leal não é coisa limpa, ser leal é ser desleal para com todo o resto. Esses casos extremos de morte não são por crueldade. É que há um trabalho, digamos cósmico, a ser feito, e os casos individuais infelizmente não podem ser levados em consideração. Para os que sucumbem e se tornam individuais é que existem as instituições, a caridade, a compreensão que não discrimina motivos, a nossa vida humana enfim.&lt;br /&gt;Os ovos estalam na frigideira, e mergulhada no sonho preparo o café da manhã. Sem nenhum senso da realidade, grito pelas crianças que brotam de várias camas, arrastam cadeiras e comem, e o trabalho do dia amanhecido começa, gritado e rido e comido, clara e gema, alegria entre brigas, dia que é o nosso sal e nós somos o sal do dia, viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai, viver faz rir.&lt;br /&gt;E me faz sorrir no meu mistério. O meu mistério é que eu ser apenas um meio, e não um fim, tem-me dado a mais maliciosa das liberdades: não sou boba e aproveito. Inclusive, faço um mal aos outros que, francamente. O falso emprego que me deram para disfarçar a minha verdadeira função, pois aproveito o falso emprego e dele faço o meu verdadeiro; inclusive o dinheiro que me dão como diária para facilitar a minha vida de modo a que o ovo se faça, pois esse dinheiro eu tenho usado para outros fins, desvio de verba, ultimamente comprei ações na Brahma e estou rica. A isso tudo ainda chamo de ter a necessária modéstia de viver. E também o tempo que me deram, e que nos dão apenas para que no ócio honrado o ovo se faça, pois tenho usado esse tempo para prazeres ilícitos e dores ilícitas, inteiramente esquecida do ovo. Esta é a minha simplicidade.&lt;br /&gt;Ou é isso mesmo que eles querem que me aconteça, exatamente para que o ovo se cumpra? É liberdade ou estou sendo mandada? Pois venho notando que tudo que é erro meu tem sido aproveitado. Minha revolta é que para eles eu não sou nada, eu sou apenas preciosa: eles cuidam de mim segundo por segundo, com a mais absoluta falta de amor; sou apenas preciosa. Com o dinheiro que me dão, ando ultimamente bebendo. Abuso de confiança? Mas é que ninguém sabe como se sente por dentro aquele cujo emprego consiste em fingir que está traindo, e que termina acreditando na própria traição. Cujo emprego consiste em diariamente esquecer. Aquele de quem é exigida a aparente desonra. Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu. Ou sou um agente, ou é a traição mesmo.&lt;br /&gt;Mas durmo o sono dos justos por saber que minha vida fútil não atrapalha a marcha do grande tempo. Pelo contrário: parece que é exigido de mim que eu seja extremamente fútil, é exigido de mim inclusive que eu durma como justo. Eles me querem preocupada e distraída, e não lhes importa como. Pois, com minha atenção errada e minha tolice grave, eu poderia atrapalhar o que se está fazendo através de mim. É que eu própria, eu propriamente dita, só tenho mesmo servido para atrapalhar. O que me revela que talvez eu seja um agente é a idéia de que meu destino me ultrapassa: pelo menos isso eles tiveram mesmo que me deixar adivinhar, eu era daqueles que fariam mal o trabalho se ao menos não adivinhassem um pouco; fizeram-me esquecer o que me deixaram adivinhar, mas vagamente ficou-me a noção de que meu destino me ultrapassa, e de que sou instrumento do trabalho deles. Mas de qualquer modo era só instrumento que eu poderia ser, pois o trabalho não poderia ser mesmo meu. Já experimentei me estabelecer por conta própria e não deu certo; ficou-me até hoje essa mão trêmula. Tivesse eu insistido um pouco mais e teria perdido para sempre a saúde. Desde então, desde essa malograda experiência, procuro raciocinar desse modo: que já me foi dado muito, que eles já me concederam tudo o que pode ser concedido; e que os outros agentes, muito superiores a mim, também trabalharam apenas para o que não sabiam. E com as mesmas pouquíssimas instruções. Já me foi dado muito; isto, por exemplo: uma vez ou outra, com o coração batendo pelo privilégio, eu pelo menos sei que não estou reconhecendo! Com o coração batendo de emoção, eu pelo menos não compreendo! Com o coração batendo de confiança, eu pelo menos não sei.&lt;br /&gt;Mas e o ovo? Este é um dos subterfúgios deles: enquanto eu falava sobre o ovo, eu tinha esquecido do ovo. “Falai, falai”, instruíram-me eles. E o ovo fica inteiramente protegido por tantas palavras. Falai muito, é uma das instruções, estou tão cansada.&lt;br /&gt;Por devoção ao ovo, eu o esqueci. Meu necessário esquecimento. Meu interesseiro esquecimento. Pois o ovo é um esquivo. Diante de minha adoração possessiva ele poderia retrair-se e nunca mais voltar. Mas se ele for esquecido. Se eu fizer o sacrifício de esquecê-lo. Se o ovo for impossível. Então – livre, delicado, sem mensagem alguma para mim – talvez uma vez ainda ele se locomova do espaço até esta janela que desde sempre deixei aberta. E de madrugada baixe no nosso edifício. Sereno até a cozinha. Iluminando-a de minha palidez. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;por Clarice Lispector&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-3847785376262439559?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/3847785376262439559/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=3847785376262439559' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3847785376262439559'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/3847785376262439559'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/o-ovo-e-galinha.html' title='O OVO E A GALINHA'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-9024895206491971631</id><published>2007-03-20T13:06:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T13:09:13.778-07:00</updated><title type='text'>AMPLEXO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Já sabia que as temperaturas extremas eram uma das características dos desertos. O que nunca tinha pensado era que a sua amplitude fosse tão dolorosa para o corpo e para o espírito.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Perdera-me da caravana e encontrava-me só, fustigado, na face mal agasalhada, por um vento boreal salpicado de agulhas arenosas.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;A noite caíra célere, escura e sem estrelas. Sucedera-lhe a fome, a sede e a ansiedade. Despicienda seria qualquer tentativa de orientação. Ir ou ficar? Aguardar que me procurassem, ou apostar numa direcção aleatória e calcorrear não sei que distância na expectativa de ter tomado o rumo certo?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Resolvi ficar. Ancorei no espaço à espera do tempo. O meteorológico, que talvez me pudesse salvar, assim o permitisse a sua doçura, e o cronológico, na esperança de que tivessem dado pela minha falta.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Mas o tempo não conhecia amarras, voava sem hesitação a caminho da morte.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Escolhi uma reentrância cavada na areia e aí me abriguei.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Apesar da escuridão, uma aura coada pelas meninas dos olhos desenhava rosáceas de mesquitas, sinagogas e catedrais, coloridas por raios cósmicos de religiosa luminosidade em que até um coração incréu reconheceria a unidade de todas as crenças do mundo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Algures na realidade do sonho, os companheiros voltavam e davam vivas por ter-me encontrado. Na parte mais recôndita das lucubrações, conseguira voar e dormia tranquilo no seio do grupo atrevido que decidira enfrentar a aventura.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Senti então a presença fátua, soturna e meiga.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Sem miragem nem oásis, um calor oloroso começara a envolver-me e mãos esotéricas eram sensação de pétalas a percorrer-me o corpo. Lábios quentes e sensuais beijavam-me com ardor e seios úberes propiciavam-me carícias de gelatina, mornas e suaves. De enregelado, o sexo eréctil lançou-se à descoberta da comunicação máxima. Do devaneio erótico, floresceu calorosa relação edipiana, símbolo do retorno à origem remota do ser.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt; Afinal, a solidão é um deserto habitado, gineceu fecundado pelo sémen da imaginação. Solitário talvez seja quem não sabe vencer o sofrimento e encher o vazio de poesia e ilusão, de música e flores.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Nunca a linearidade da linguagem me parecera tão pobre face à cascata de pensamentos a descrever.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Ali fiquei e julgo que ainda estou.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Até a companhia da morte é melhor do que estar só.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;por Joaquim Evório&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;PORTUGAL&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-9024895206491971631?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/9024895206491971631/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=9024895206491971631' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/9024895206491971631'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/9024895206491971631'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/amplexo.html' title='AMPLEXO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-7809162849539824795</id><published>2007-03-20T12:59:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T13:05:01.640-07:00</updated><title type='text'>LIMITE</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Impuseram 20 linhas. Todos a postos: canetas e lápis. Apontar. Já! Dias depois o resultado: lamentamos, mas no momento não podemos ajudá-lo. Mais um, dois, três testes. Nenhum emprego. E a possibilidade de outras aventuras estava mais e mais distante. Sempre as tais 20 linhas. Nunca chegava ao fim das vinte linhas, a letra um garrancho. Aquele frio na barriga na hora do teste era uma constante assim como as dores de cabeça na véspera. Sempre com as 20 linhas vinha o indefectível medo. Naquela noite, pôs-se a escrever terrivelmente os seus sonhos, no dia seguinte o cotidiano, os dias passaram, não saia mais de casa, nem comia. Quando o encontraram, tinha uma caneta sem tinta à mão. Na foto, dava pra ver na parede: essa caneta podia ser um rosa.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;por andré fernandes&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-7809162849539824795?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/7809162849539824795/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=7809162849539824795' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7809162849539824795'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/7809162849539824795'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/limite.html' title='LIMITE'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-6979076660615575960</id><published>2007-03-20T12:44:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T12:52:38.980-07:00</updated><title type='text'>O CORVO</title><content type='html'>&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,A ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,E, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído, Tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar."É alguém — fiquei a murmurar — que bate à porta, devagar; Sim, é só isso e nada mais."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Ah! claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro E o fogo, agônico, animava o chão de sombras fantasmais. Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava aindaAlgum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora— Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam LenoraE nome aqui já não tem mais.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina, Arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais.De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia E a sossegá-lo eu repetia: "É um visitante e pede abrigo.Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.É apenas isso e nada mais.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;" Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:"Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;Mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido, Que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta, Assim de leve, em hora morta." Escancarei então a porta:— Escuridão, e nada mais. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Sondei a noite erma e tranqüila, olhei-a a fundo, a perquiri-la,Sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais. Estarrecido de ânsia e medo, ante o negror imoto e quedo,Só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi: "Lenora!"E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: "Lenora!"Depois, silêncio e nada mais. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente, Mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais."É na janela" — penso então. — "Por que agitar-me de aflição?Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,O vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento. É o vento só e nada mais." &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto: — É um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.Como um fidalgo passa, augusto e, sem notar sequer meu susto, Adeja e pousa sobre o busto — uma escultura de Minerva,Bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva, Empoleirado e nada mais.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt; Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura, Desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais."Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular" — então lhe digo —"Não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro torvo!" Qual é teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno torvo!"E o Corvo disse: "Nunca mais." &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe, Misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais; Pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,Que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,Uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua portaE que se chame "Nunca mais". &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria, Com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,Enquanto a mágoa me envenena: "Amigos… sempre vão-se embora. Como a esperança, ao vir a aurora, ele também há de ir-se embora."E disse o Corvo: "Nunca mais."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt; Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo, Julgo: "É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventuraE a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo De seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: — o ritorneloDe "Nunca, nunca, nunca mais". &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,Girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais E, mergulhado no coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim, Visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo, Com que intenções, horrendo, torvo, esse ominoso e antigo Corvo Grasnava sempre: "Nunca mais." &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,Eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofadaDessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente, Dessa poltrona em que ela, ausente, à luz cai suavemente,Já não repousa, ah! Nunca mais…&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt; O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incensoAli descessem a esparzir turibulários celestiais. "Mísero!, exclamo. Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus, Esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora,Sorve-o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!"E o Corvo disse: "Nunca mais."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt; "Profeta! — brado. — Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal Que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais, De algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precitaMansão de horror, que o horror habita, imploro, dize-mo, em verdade:Existe um bálsamo em Galaad? Imploro! Dize-mo, em verdade!"E o Corvo disse: "Nunca mais."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt; "Profeta!" exclamo. "Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal! Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,Fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,Verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora, Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!" E o Corvo disse: "Nunca mais!" &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;"Seja isso a nossa despedida! — ergo-me e grito, alma incendida. — Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais! Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste! Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!" E o Corvo disse: "Nunca mais!"&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt; E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,Sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais. No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,E a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra, Não há de erguer-se, ai! nunca mais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por Edgar Alan Poe&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-6979076660615575960?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/6979076660615575960/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=6979076660615575960' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6979076660615575960'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/6979076660615575960'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/o-corvo.html' title='O CORVO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-5391950804652993615</id><published>2007-03-20T12:21:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T12:32:27.077-07:00</updated><title type='text'>A PARADA DA ILUSÃO - CONTO</title><content type='html'>&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Como tinha sido aquilo! Diante do espelho, a dar um laço frouxo no lenço de seda, Geraldo sorria o sorriso satisfeito e vagamente mau que têm todos os homens quando recordam uma aventura em que foram os mais espertos. Como tinha sido!... O acaso, apenas o acaso. Pobre, sem pretensões, alugara por uma ninharia aquele casinhoto do morro, bem na rua de Santa Luzia, defronte do mar. O mar é um fornecedor de energia. Contemplar as ondas, aspirar o ar infiltrado de salsugem fazia-lhe bem. Depois, acordava cedo, quase de madrugada, e como a vizinhança era quase toda de pescadores, de banhistas, de jovens dos centros de regatas, ia mesmo de camisa-de-meia, com os pés nus metidos nuns enormes tamancos, ao estabelecimento balneários. Quem o visse grosso, forte, o bigode espesso, a negra cabeleira ondeante, o braço cabeludo, não o diria jamais um estudante de medicina. Havia no seu olhar qualquer coisa dos barqueiros de Nápoles, do langor das serenatas, e na alegria do semblante, na gesticulação, o ar da raça, o ar que não falha. Basta olhar um homem para se sentir de onde ele veio. Geraldo começara humilde, de origem italiana. De trabalho em trabalho fizera-se afinal acadêmico, graças à pertinácia da sua inteligência. Mas, por mais querido que fosse entre os colegas, era uma delícia para sua alma ir arrastar as pernas pela madrugada nos corredores da casa de banhos, quase nu, a conversar em napolitano com os banhistas, os tradicionais banhistas há vinte anos os mesmos.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Era tão bom, tão bizarro! A princípio, postava-se no pátio, junto da barraca do gerente, escura de roupas em trouxas com um quadro das chaves e o bico de gás aceso. Era a chegada dos freqüentadores. Havia mulheres pálidas, mães de família acompanhadas de crianças e de criadas, verdadeiros regimentos de cloróticos; havia sujeitos de passo trôpego, reumáticos, beribéricos, talvez tísicos; havia os habituais, senhores respeitáveis, de ar solene, que tomavam banho de mar desde crianças, aconselhando para todas as moléstias um mergulho no salso elemento; e sujeitos que vinham especialmente para a pândega, as lições de natação, os namoros com apertões debaixo da água, as meninas assanhadas, as cocotes, as cocotes de uma palidez mortal àquela hora... e havia também muita mulher chique, muita mulher de estalo, que os mirones da praia até olhavam de binóculo.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Mas Geraldo não tinha pretensões a conquistas, e aquele espreguiçamento na casa de banhos era apenas uma tonificação para o estudo, que recomeçava horas mais tarde, com o curso dos hospitais, as aulas, os livros. Depois descansar na gerência ia trocar palavras com os banhistas, rindo, brincando. Afinal atirava-se à água, no meio da algazarra dos conquistadores e das pequenas, e sempre tímido, só metido a gente do serviço. Ninguém o tomaria por um estudante e o próprio pessoal da casa tratava-o familiarmente por tu.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Uma vez, estava no corredor estreito e escuro a conversar com Nicolau, quando mesmo ao pé abriu-se a porta a um dos quartinhos e uma linda criatura loira chamou: - O senhor banhista, venha cá.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Nicolau adiantou-se.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Não, o outro. Sim, você mesmo.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Geraldo sorriu enleado. Tomavam-no por banhista! Ele, um estudante, um acadêmico! Mas, ao mesmo tempo que o fato o humilhava um pouco, sentia um desejo imprevisto e romântico de se deixar passar por banhista e ter assim a sua primeira façanha de estudante. Os estudantes são todos levados da breca! Apertou o braço de Nicolau, disse-lhe em calão de Nápoles que o deixasse, e aproximou-se. A dama loira estava já vestida para o banho.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Não quero mais aquele banhista velho. Há cinco dias que tomo banho e logo no primeiro pedi-lhe conservar-se o quarto seco. Não há meio. Veja só. Fica você. Quer?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Geraldo curvava-se, sem uma palavra. A dama loira abriu a bolsa de prata, tirou uma nota. - Tome. Não quer receber? Ora esta! Receba. Para esquentar. Ande lá.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Grazzie, signorina...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Diga: é italiano?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Io sono venuto da Napoli fa tre anni...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Ah! bem. E quantos anos tem de idade?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Vinte e due.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;A dama loira olhou-o profundamente, teve um leve suspiro, e ainda indagou:&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Como se chama?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Túlio.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Venha dar-me banho.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Infinitamente alegre com a aventura, Geraldo seguiu para o oceano a dar banho na dama loira, e quando voltou estava a arrebentar de riso. Não é que a mulherzinha o tomava mesmo por um banhista? Entretanto, o imprevisto do caso acendia-lhe o desejo de continuar. Sim, continuaria. E falou ao dono da casa de banhos. O homem, um italiano velho, não gostava de patifarias no estabelecimento. Mas, como era ele, Geraldo, consentia. Os outros riam a perder, um pouco envaidecidos porque, afinal, um estudante era tal qual eles. E Geraldo, que não dissera a coisa na escola por um certo pudor, não faltou mais. Logo cedo lá estava no estabelecimento, de pés nus, calção de meia, camisa aberta. A dama loira chegava sempre às seis e meia.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Então, Túlio, o meu quarto?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Pronto patroa, prontinho. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;No fim do quinto dia ele fazia o papel de banhista de opereta, que ela lhe disse o nome. Era Alda Pereira, brasileira, do sul, tinha vinte e sete anos, e um protetor sério, o senador Eleutério, que a tomara depois da separação do marido. Dizia essas coisas naturalmente, aprendendo a nadar.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Ai! não me afogues, rapaz. Morrer aos vinte e sete anos... &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Ou então:&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Palavra de rio-grandense e de Alda Pereira que aprender a nadar custa! Ele sorria queria levá-la para longe.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Não, que o senador Eleutério pode saber; e eu, meu filho, depois que me separei do meu marido, tenho muito medo do ciúme...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Uma suave intimidade brotava aos poucos daquela hora de banho,.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Ele procurava termos vulgares, copiava o rir dos outros, dizia coisas grossas com um ar ingênuo, o seu tom de analfabeto, e ela parecia ter cada dia mais confiança. Já se encostava ao seu ombro, já lhe agarrava o pulso potente de certo modo. Uma vez perguntou-lhe:&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Você, um rapaz inteligente, por que não muda de vida?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Para que, signorina? Aqui vivo, aqui hei de morrer...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Criança! E não tens aspirações?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Não, signorina!&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Aposto que nem sabe ler? Ele parou um instante atônito. Estaria ela a brincar, já sabedora de tudo? Seria o caso de avançar e não gozar mais o prazer de ser conquistado. Mas Alda tinha uma expressão de tão velutínea piedade, que não hesitou na farsa.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- É verdade. Nem sei ler.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Meu Deus! Um rapaz de vinte e dois anos que não sabe ler!&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Os seus olhos nesse dia tornaram-se mais úmidos, e ao rebentar de uma onda na ponte ela se deixou positivamente cair no seu largo peito. Não tinha dúvida! A mulher amava-o como certas damas amam os impetuosos adolescentes das classes baixas; a criatura era uma nevrosada romântica. Decididamente estava de sorte.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;No dia seguinte, à saída, Alda Pereira indagou:&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Ó Túlio, quereria você aprender a ler?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- A signorina paga o professor?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Ensino eu mesma.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Então quero. Onde?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Vá à minha casa. Logo, à noite, às sete; é a melhor hora.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Ele arranjara um dólmã de brim, um capote comprido; comprara o lenço de seda e um chapéu desabado para aparecer com a cor local. E fora. A dama loira habitava, numa rua transversal à Lapa, uma casa elegante e discreta, com duas criadas apenas. Fizeram-no entrar para uma saleta de estilo moderno, em que os móveis eram incômodos e as paredes tinham mulheres de túnica soprando trombetas. Alda lá estava.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Entre, Túlio. Nada de acanhamentos. Francine, deixa a porta aberta... Sabe que já lhe comprei o seu livro? Sente-se, menino, sente-se...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Evidentemente, ela estava comovida, com um riso nervoso, as faces coradas. Ele achava aquilo deliciosamente ridículo. Outro qualquer teria avançado; a sua natural timidez, a pretensão de levar a cabo uma fantasia inibiam-no de um movimento de ataque. E parecia-lhe o cúmulo aprender o alfabeto ensinado por aquela interessante mulher, tal qual nos vaudevilles franceses, numa cena de burla. Sentou-se. Ela mostrou-lhe o livro na mesa, aproximando a cadeira do outro lado. E começou a ensinar, com a voz molhada de mistério.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Que letra é esta?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Geraldo fazia-se inteiramente bronco, curvava-se muito para sentir os loiros cabelos dela roçando-lhe ao de leve a fronte. Às vezes as mãos se encontravam. As dela estavam geladas. As dele eram de brasa. Ao fim de uma hora, ela disse num suspiro:&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Bom, vai embora.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Ele quase não podia falar. Curvou-se mais, respirando forte, e ia tocá-la, quando ela chamou:&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Francine, acompanha o Túlio até a porta...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Como saiu ele furioso! A sua vontade foi declarar a verdadeira posição, tomar uma atitude. Mas para quê? Não teria realizado nada! Não a gozaria! Era uma aventura falha. Nunca! Tivesse que estudar o alfabeto a vida inteira - aquela, ao menos, não lhe escaparia. E, desde a madrugada, foi esperá-la na casa de banhos, apaixonado. Sim, de fato, apaixonado. Ele não estava senão apaixonado. A paixão é quase sempre o desejo de um triunfo, que se imagina de um certo e determinado modo. Há sempre um vencedor na alma de um amante. Ele queria pregar uma peça. Que peça? Enfim, queria confundir a linda mulher de estranha vontade. E Alda Pereira parecia também amá-lo, porque apareceu de olheiras, com ar fatigado.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Sabe que estudei? fez ele, olhando-a fixo.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Palavra?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Quer tomar a lição hoje?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Não, amanhã... &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Ele se preparou, e foi. Já sabia o alfabeto. Alda Pereira sorria, enlevada.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Mas como é inteligente! Vamos a soletrar. Olhe que você pode dar orgulho a um professor.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;A aula ia continuar. Ela tinha a cabeça curvada, mostrando a nunca nua. Ele estava encostado à mesa, com aquele tom vulgar e potente, que o seu físico ajudava. A luz tênue. Geraldo moveu apenas a cabeça e roçou o bigode no pescoço venusto. Ela estremeceu, estendeu as mãos e suspirou como uma rola.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Ah! Túlio...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Ele firmou os lábios polpudos e apertou-lhe as mãos. Ela se debateu, voltou a cabeça e a sua boca purpurina, ansiosa e ávida, sugou o lábio de Geraldo. Nem uma palavra. Estavam em outro mundo. Ele caiu de joelhos, ela pendeu, rolaram os dois. Era frenética e deliciosa. Deliciosamente deliciosa. A própria paixão a vibrar. E Geraldo voltou ao casinhoto, outro homem, aturdido, sem compreender o que via, a lembrar-se dos seus abraços e das palavras suas:&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Túlio! Túlio! não digas a ninguém! É a minha vida! Lembra-te do que fiz por ti. Só o amor, muito amor...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;A vida de delírio começou então. Ela entregava-se e sentia-o como um imenso acorde do seu próprio ser. Cada beijo era uma revelação, cada abraço a dissolução do mundo. E a necessidade de ocultar de olhares profanos aquele sentimento ainda mais o incendiava. No banho, ela esperava o momento de apertá-lo, de mordê-lo, esperava com a porta do quarto entreaberta para um beijo; em casa, as lições de leitura eram a leitura de Paulo e Francesca, no verso de Dante. Jamais, porém, ela mostrava desconfiar da sua verdadeira situação, e Geraldo, sentindo-se indigno de si mesmo, continuava a ser o banhista Túlio, sem forças para dizer a verdade.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Afinal, o senador Eleutério soubera do caso, e, mais pai do que amante, resolvera mandar Alda à Europa, a ver se o escândalo terminava. Alda chorava, queria viver sem roupas, em Santa Luzia, com o seu Túlio, e fora um verdadeiro trabalho o convencê-la de uma breve separaçào. - Tu queres, Túlio?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- É para o teu bem.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Queres mesmo? É o nosso amor que matas...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Eleutério comprara as passagens combinara tudo. Era no dia seguinte que Alda partiria. Geraldo, preparando-se para a última visita, relembrava aqueles dois meses loucos de romantismo. Como aquilo fora! Era lá possível prever? Antes, porém, da partida era preciso dizer-lhe a verdade. Ele ia para o último ato.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Então penteou o cabelo como os banhistas, com muita brilhantina, pôs o chapéu e o capote, consertou ainda uma vez o lenço de seda e partiu. Alda estava na mesma sala da primeira vez, muito abatida. Estendeu-lhe as mãos e a boca.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Meu amor... A última vez!&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;E deixou-se cair.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Alda, que é isso? ânimo...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Lembras-te? Há dois meses!... Quanto amor! Quando te vi, desde que te vi, meu amor, amei-te. Que me importava que tu fosses banhista? Se era a tua carne, o teu corpo, os teus olhos que eu desejava, meu adivinhado querido... Nunca, nunca mais sentirei o que senti por ti, no mar, quando te tinha ao meu lado, forte, meu fiel... Dize!... Nenhuma outra será como eu. Pois não?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Mas, Alda...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Àquela casa vão tantas mulheres! E tu tens que servir a todas, tens que as segurar, tens que as salvar...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Geraldo viu que era o momento.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Alda, tenho que te dizer... &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Não digas! não digas nada!&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Não, há um engano; um engano que não pode continuar.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Não há, Túlio, não há!...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Há.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Pois deixa-o!&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Não. Tu pensas que eu sou o banhista Túlio, nascido em Nápoles.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- E não és? És sim, és o meu Túlio.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Criança! Eu sou estudante de medicina, chamo-me Geraldo Pietri.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Mas, como Alda recuava, com a fisionomia transmudada, Geraldo teve um resto de piedade.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Sim, Geraldo, estudante, que se fez passar por banhista para te amar...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Um silêncio tombou. Alda sentara-se. Depois, como Geraldo se aproximasse, sorriu, afastando-o.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Não, senta-te. Ou vai-te. É melhor ires. Vai-te.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Mas a nossa última noite?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Vai-te.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Zangaste-te?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;- Não, pensei que tinhas mais espírito. Não tens. Eu sabia, ouviste? eu sabia desde o primeiro dia, quem eras tu. Se não soubesse, teria perguntado por ti e dar-me-iam informações. Eu sabia. O meu amor nasceu de uma brincadeira. Tudo na vida é ilusão e só a ilusão é verdadeira. A verdade é a mentira porque é o comum e o vulgar. Amei-te, querendo fazer desse sentimento uma parada de gozo superfino em que ambos nos esforçássemos por dar a cada um a ilusão. Nunca se desengana uma mulher porque não se mata a ilusão. Eu amava um ser idealizado, que seria chocante se fosse verdadeiro, um banhista imprevisto, um selvagem, filho do mar e das canções, em ti que o fingias bem. Tu mataste Túlio. Que me importa a mim o estudante Geraldo? Já nem parto. Não é preciso. Adeus! E nunca, ingênuo rapaz, queiras ser verdadeiro nas coisas do sentimento que ama a ilusão.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Geraldo, nervoso, sem saber o que fazer do seu chapéu calabrês, sentia a lamentável, uma curiosa e lamentável sensação de que retornava o seu eu; um eu vulgar e comum. Alda fez-lhe ainda um vago gesto. Na rua, outra vez, envergonhado, furioso, triste, o pobre rapaz deitou quase a correr, com o receio de que o reconhecessem ainda mal vindo da parada romântica. E só no quarto humilde é que pôde chorar, chorar longamente não ter sabido guardar integralmente o princípio da vida - a ilusão... &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;por João do Rio&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1891942568122546024-5391950804652993615?l=tempoesquecido.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/feeds/5391950804652993615/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1891942568122546024&amp;postID=5391950804652993615' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/5391950804652993615'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1891942568122546024/posts/default/5391950804652993615'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tempoesquecido.blogspot.com/2007/03/parada-da-iluso.html' title='A PARADA DA ILUSÃO - CONTO'/><author><name>TEMPO ESQUECIDO... CRÔNICAS E CONTOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02286169169692920505</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1891942568122546024.post-6325966143105200772</id><published>2007-03-20T08:01:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T12:32:38.822-07:00</updated><title type='text'>CURTA HISTÓRIA - CONTO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;A leitora ainda há de lembrar-se do Rossi, o ator Rossi, que aqui nos deu tantas obras-primas do teatro inglês francês e italiano. Era um homenzarrão, que uma noite era terrível como Otelo, outra noite meigo como Romeu. Não havia duas opiniões quaisquer que fossem as restrições, assim pensava a leitora, assim pensava uma D. Cecília que está hoje casada e com filhos.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Naquele tempo esta Cecília tinha dezoito anos e um namorado. A desproporção era grande; mas explica-se pelo ardor com que ela amava aquele único namorado, Juvêncio de Tal. Note-se que ele não era bonito, nem afável, era seco, andava com as pernas muito juntas, e com a cara no chão, procurando alguma coisa A linguagem dele era tal qual a pessoa, também seca, e também andando com os olhos no chão, uma linguagem que, para ser de cozinheira, só lhe faltava sal. Não tinha idéias, não apanhava mesmo as dos outros; abria a boca, dizia isto ou aquilo, tornava a fechá-la, para abrir e repetir a operação.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Muitas amigas de Cecília admiravam-se da paixão que este Juvêncio lhe inspirava, todas contavam que era um passatempo, e que o arcanjo que devia vir buscá-la para levá-la ao paraíso, estava ainda pregando as asas; acabando de as pregar; descia, tomava-a nos braços e sumia-se pelo céu acima.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Apareceu Rossi, revolucionou toda a cidade. O pai de Cecília prometeu à família que a levaria a ver o grande trágico. Cecília lia sempre os anúncios; e o resumo das peças que alguns jamais davam. Julieta e Romeu encantou-a, já pela notícia vaga que tinha da peça, já pelo resumo que leu em uma folha, e que a deixou curiosa e ansiosa. Pediu ao pai que comprasse bilhete, ele comprou-o e foram.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Juvêncio, que já tinha ido a uma representação, e que a achou insuportável (era Hamlet) iria a esta outra por cansa se estar ao pé de Cecília, a quem ele amava deveras; mas por desgraça apanhou uma constipação, e ficou em casa para tomar um suadouro, disse ele. E aqui se vê a singeleza deste homem que podia dizer enfaticamente - um sudorífico: - mas disse como mãe lhe ensinou, como ele ouvia à gente de casa. Não sendo coisa de cuidado, não entristeceu muito a moça, mas sempre lhe ficou algum pesar de o não ver ao pé de si. Era melhor ouvir Romeu e olhar para ele...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Cecília era romanesca, e consolou-se depressa. Olhava para o pano, ansiosa de o ver ergues-se. Uma prima, que ia com ela, chamava-lhe a atenção para as toilettes elegantes, ou para as pessoas que iam entrando; mas Cecilia dava a tudo isso um olhar distraído. Toda ela estava impaciente de ver subir o pano.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Quando sobe o pano? perguntava ela ao pai.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;- Descansa, que não tarda.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Subiu afinal o pano, e começou a peça. Cecília não sabia inglês nem italiano. Lera uma tradução da peça cinco vezes, e, apesar disso, levou-a para o teatro. Assistiu às primeiras cenas ansiosa. Entrou Romeu, elegante e belo, e toda ela comoveu-se; viu depois entrar a divina Julieta, mas as cenas eram diferentes, os dois não se falavam logo; ouviu-os, porém, falar no baile de máscaras, adivinhou o que sabia, bebeu de longe as palavras eternamente belas, que iam cair dos lábios de ambos.&lt;/span&gt;&lt;/strong
